VIPs - Histórias Reais de um Mentiroso

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Enviado por Maza em dom, 07/10/2011 - 11:20

Realizar um documentário sobre a vida de um farsante, e com a presença do mesmo no filme, abre ótimas opções de ideias para realizá-lo. Além de observar seus golpes, poderíamos verificar o porquê de suas atitudes, e quais as razões que fariam com que uma pessoa pudesse levar tal vida. Mas, infelizmente, o documentário de Mariana Caltabiano carece dessa última alternativa, sendo sustentado, mesmo que parcialmente, pelos relatos de vários golpes e demais situações relacionadas com tais atitudes. 

 
 
A cena inicial de VIPs - Histórias Reais de um Mentiroso nos deixa claro o tipo de filme que veremos: a diretora informa (em narração off) que assinou contrato para o lançamento de um livro e um filme sobre Marcelo Nascimento da Rocha, estelionatário e golpista famoso em todo país por suas dezenas, centenas de golpes, cada qual mais fantástico que o outro. Nessa breve cena, onde ela também narra como o conheceu, encontramos de tudo um pouco do longa: a saga de Marcelo (ou Henrique, Ferrari, Fontoura), relatos do próprio protagonista e ainda a participação constante da própria diretora, o que acabará por enfraquecer de forma decisiva o longa, que mesmo com alguns méritos, perde uma oportunidade única de ir além de meros relatos em conversas com o golpista.
 
O documentário passa boa parte do tempo interligando as entrevistas realizadas com Marcelo. De família honesta, ele se mostra a plena exceção, começando a ensaiar seus primeiros golpes pouco tempo após a morte de seu pai, ainda na adolescência. Teve seu começo de forma ousada, fazendo se passar por chefe de delegacia e que só depois de muitos meses foi desmascarado. Os colegas da delegacia definiam o estilo do “171”: carismático, cheio de ideias, sempre agitando com todos, um verdadeiro RH da delegacia (era sempre ele quem planejava as festas, churrascadas e outros). Com o tempo, suas técnicas foram se aprimorando, e o encontramos se fazendo passar por repórter da MTV, olheiro da seleção, baterista e/ou guitarrista de bandas, tudo está ao alcance de Marcelo.
 
Parte dos relatos é realizada com o próprio Marcelo, trazendo maior dinamismo e realidade ao documentário. Quando o longa se afasta dele, é para focar em relatos do ator e amigo Ricardo Macchi (que por sinal tenta aplicar um golpe na plateia, quando em determinado momento diz: “com o sucesso da novela que fiz, Explode Coração, consegui firmar um contrato de mais 5 anos com determinado grupo”. Sucesso? Todos sempre afirmaram que sua participação na novela foi medíocre, patética... em mim a farsa não colou) e principalmente no apresentador de Televisão Amaury Jr., que quando em 2001, cobrindo o festival Recifolia, o apresentador entrevistou Marcelo como se o mesmo fosse Henrique Constantino, vice presidente da GOL. Amaury Jr. reforça a imagem de Marcelo como um grande farsante, carismático, boa pinta, mas um farsante, um golpista nato. Talvez reforce tanto isso para rebater as críticas de que essa entrevista foi a grande gafe de sua carreira, sempre dizendo: “não foi a minha maior gafe, todos foram enganados naquela festa”.
 
 
Entretanto, em alguns momentos quando se faz necessária uma abordagem mais séria e direta, o documentário opta por mostrar os relatos em forma de animações simplórias demais, por vezes precárias, tirando praticamente todo e qualquer mérito que a animação poderia ter. Ainda a respeito disso, é bastante infeliz a montagem do filme, deixando presentes alguns comentários plenamente desnecessários, e que nada acrescentam de real, a não ser aumentar uma marca do filme, o alívio cômico (como observamos no relato de que Marcelo, pilotando um avião carregado de drogas, precisa fazer um pouso de emergência em meio a uma fazenda desconhecida apenas para realizar suas necessidades. E isso nos é mostrado em forma de animação, constrangedor). A trilha sonora de Alexandre Guerra reforça a ideia de o documentário parecer mais engraçado do que realmente lidar com a gravidade da questão, com músicas sempre alegres, por vezes até pitorescas. Uma trilha sonora razoável, de qualidade, mas utilizada em momentos inoportunos, talvez até no filme errado.
 
 
 
O tal alívio cômico comentado anteriormente incomoda durante toda a projeção, já que desde o início percebemos que inexiste a tentativa de ir além da graça que Marcelo vê em seus atos. Ao invés de observar o resultado na prática de seus atos, como pessoas enganadas, prejuízos incalculáveis, danos morais para todos os lados, o longa insiste na imagem de um Marcelo alegre e se divertindo com tudo o que faz, sem que em momento algum ele seja questionado sobre os danos causados pelo que fez. Faltou ousadia para bater de frente com o golpista e falar a respeito de suas façanhas, pois Marcelo tem plena consciência de tudo o que fez e do que se tornou sua vida. Isso fica bastante claro quanto o mesmo afirma: “meu pai morreu e felizmente não viu tudo isso que aconteceu com minha vida", ou ainda quando questionado por sua mãe se ele não tem medo de morrer, a resposta é franca e direta: “eu já estou morto”.
 
Valendo-se do fato de Marcelo ter plena experiência como piloto e tendo seu principal golpe envolvendo uma empresa aérea, Mariana Caltabiano aproveita a oportunidade para mudar totalmente o foco de seu documentário, de maneira inaceitável e por que não dizer irresponsável, a fim de tratar do acidente da TAM de julho de 2007, acidente este que vitimou centenas de pessoas, entre elas dois irmãos seus. Partindo do pressuposto de que Marcelo poderá dar maiores esclarecimentos sobre o que realmente aconteceu naquele acidente, a diretora deixa de lado a vida dele de estelionatário para fazer uso de seu documentário a fim de homenagear seus entes queridos que perderam as vidas no acidente. Se a ideia era causar comoção na plateia, o tiro saiu pela culatra, pois o que fica claro nisso tudo é o momento de luto e de dor da diretora, mas um recurso utilizado na hora e no momento errados. Esse não seria o filme exato para esse tipo de relato.
 
VIPs - Histórias Reais de um Mentiroso (que por diversos momentos insiste, de forma inorgânica e artificial na utilização da expressão VIP, para marcar o nome do filme, mas que por acaso ou não, em nenhum momento se dá ao direito de responder ao espectador o real significado disto, mesmo que ele talvez já saiba sobre a expressão "Very Important Person") acaba sendo um documentário que rende alguns bons momentos, mas que de maneira geral é frustrante em sua abordagem. Tendo em vista que o projeto era falar dos atos do golpista, incluindo sua extensa participação, é decepcionante perceber que em nenhum momento existe a tentativa de ir além e de entender os atos de Marcelo: quais suas motivações? É pelo dinheiro ou pela simples e única satisfação de enganar a todos em seu redor? A ausência destes questionamentos acaba por render um documentário cheio de boas intenções, mas que no fundo, não passa de uma mera ilusão aos olhos de seu espectador. Boas intenções e ilusão, algo que o protagonista sabe bem o que é, e que parece ter passado para a diretora. Mais um golpe na conta de Marcelo. Ou Ferrari, Henrique, Constantino...

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