A Mulher de Preto

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Enviado por Ghuyer em ter, 03/06/2012 - 22:44

A Mulher de Preto não é um grande filme, mas é eficiente. A história, em minha opinião, pouco importa, e serve basicamente de veículo para o diretor James Watkins realizar cenas de tensão absoluta.

O mistério que move a trama de A Mulher de Preto gira em torno da dita cuja e a relação da mesma com as mortes das crianças da pequena cidade interiorana onde a história se passa. Não há muito mais do que isso, e os detalhes eu obviamente não revelarei. Mas vale dizer que a roteirista Jane Goldman consegue criar uma narrativa suficientemente intrigante para o filme seguir adiante mesmo partindo de relativamente pouco material, uma vez que o romance de Susan Hill no qual o filme se baseia é bem curto, com pouco mais de 200 páginas. Não há reviravoltas surpreendentes, embora a trama mude de curso uma ou duas vezes e tenha um ar de intriga interessante, mas isso é o que menos importa.

O relevante em A Mulher de Preto é a direção de James Watkins. O diretor revela suas intenções logo na primeira cena em que o protagonista entra na mansão abandonada onde a maior parte da história se desenrola. Muitos sustos e quebras de expectativa são salientados de modo exagerado por altos acordes da irregular trilha sonora de Marco Beltrami, e por vezes causam aquela sensação dúbia de aflição e riso nervoso, quando você se assusta e ri do próprio susto que levou. O que só é legal quando a pessoa não tenta esconder que ficou com medo e passa a forçar a risada para sugerir que está rindo do filme – e não de si. Na minha sessão, por exemplo, muita gente começava a rir depois de levar um susto, e comentava brevemente com o companheiro sentado ao lado invés de voltar a prestar atenção na tela do cinema. É uma pena. Perdem a chance mergulharem na atmosfera sombria do filme. É aquela coisa, quanto mais você prestar atenção, mais será recompensado. E o fato é que há muita coisa rolando em A Mulher de Preto, apesar dos (dispensáveis) sustos esporádicos. É justamente entre esses momentos que Watkins consegue elevar a tensão do filme ao máximo possível.

Um dos motivos para essa tensão crescente funcionar é a sábia decisão de Watkins em não revelar a personagem título de uma vez só. Ela primeiro aparece ao longe, apenas uma silhueta. À medida que a história avança, vai se aproximando do protagonista e, por tabela, da câmera (e do público), de modo a surgir cada vez mais amedrontadora sempre que volta a aparecer em cena – e a última visão que temos dela é particularmente macabra. Nesse ponto o figurino da aparição merece menção, já que o ar assustador da personagem é evocado em grande parte devido ao vestido preto incrivelmente sinistro desenhado pelo figurinista Keith Maiden, que não deixou passar o esperto detalhe do véu sobre o rosto da mulher de preto, que ajuda bastante em deixá-la mais misteriosa e ameaçadora.

Fazendo par com a aparência maligna (mas não monstruosa) da vilã, a excelente direção de arte desempenha um papel importantíssimo para a eficiência do longa. Confeccionada por Kave Quinn, a cenografia do filme é excepcional em vários aspectos. Competente desde a recriação de época do início do século XX (mérito compartilhado pelo já citado figurino), o trabalho de Quinn é admirável na medida em que concebe uma geografia para a pequena cidade de Crythin que interfere diretamente no terror psicológico trabalhado pelo diretor James Watkins. É principalmente através da localização da mansão Eel Marsh que o filme consegue submergir o espectador em um estado de terror intenso. O fato do interior da imensa e desolada casa, além de contar com corredores escuros e portas que rangem, ainda ser recheado com uma mobília austera e suja iluminada só por velas ajuda a passar uma forte (e importante) sensação de abandono, e acaba invariavelmente servido para infernizar a vida do visitante desavisado que protagoniza o filme. A decoração interna de Eel Marsh é bem sinistra, verdade, e tem efeito direto sobre a atmosfera de tensão que impera durante todas as cenas do filme que se passam ali. No entanto, o que mais contribui na hora de construir o terror de A Mulher de Preto é mesmo a localização geográfica da mansão. Estranho, eu sei, mas é sério.

“Mas como assim?”, alguém deve estar se perguntando. A explicação é bastante simples. A Eel Marsh House se encontra em uma espécie de ilha cujos arredores ficam submersos na maré cheia. A estrada de acesso à propriedade fica inutilizada durante algumas horas do dia devido à maré que sobe e inunda o local. A própria palavra inglesa “marsh” se refere a porções de terra constantemente inundadas por água, de modo a se constituírem como um intermédio entre o ambiente aquático e o terrestre. Diferente do pântano, que está sempre envolto em água e tem parte de sua biosfera constituída por árvores, a “marsh” possui apenas vegetações rasteiras, gramíneas, e pequenos arbustos quando muito. Em português, imagino que “banhado” seja um termo válido para servir de tradução, tecnicamente seria o mais correto, apesar de não haver planta nenhuma no local devido à maré que sobe trazendo água salgada. Todavia, esteticamente, a palavra “pântano” serve muito melhor na hora de descrever a paisagem da Eel Marsh House. Em todo caso, no filme, é essa característica geográfica que ajuda a construir a atmosfera de tensão da história. Um toque de gênio do diretor de arte Kave Quinn.

Esse brilhantismo da direção de arte, no entanto, não faria o mesmo efeito sem a importante companhia da fotografia de Tim Maurice-Jones. Cenário e fotografia se completam em A Mulher de Preto – como deveria acontecer sempre. Captando tudo em um tom opressivo de cinza, Maurice-Jones é mais do que competente em retratar a melancolia do local onde a história se passa. Buscando inspiração em clássicos do terror psicológico como Com a Maldade na Alma e Desafio do Além, Maurice-Jones realiza uma direção de fotografia rica em detalhes, utilizando muito bem a profundidade de campo, em uma decisão inteligentíssima que salienta com sucesso o perigo cada vez mais presente representado pela maldita mulher de preto. Além disso, Maurice-Jones trabalha as sombras de modo admirável, chegando a momentos sublimes dignos de Gordon Willis, como aquele em que Arthur mergulha no “pântano” iluminado apenas pelas luzes de um automóvel.

Mas, voltando à questão central: por que exatamente o filme é tão bem sucedido em suas doses de tensão? Pois bem, na primeira vez em que Arthur, o protagonista, vai até Eel Marsh House, o observamos através de uma tomada aérea do local, e logo constatamos o quão isolada de tudo fica a tal mansão. A qualidade física do terreno ainda não nos é óbvia, mas o personagem que leva Arthur até lá não demora a dizer que precisa retornar antes que a maré suba. Nesse momento, de súbito, já percebemos a situação amedrontadora na qual Arthur se encontra – e não demora muito até compreendermos que essa sensação de apreensão só aumentará com o desenrolar da trama.

Nessa primeira visita a mansão, ficamos conscientes dos acontecimentos sinistros que ali ocorrem. Depois, quando Arthur volta à cidadezinha de Crythin, nos acalmamos um pouco por um momento, mas aos poucos constatamos que uma tragédia aconteceu nesse meio tempo. Então, quando Arthur volta a Eel Marsh, ficamos ainda mais tensos pelo simples fato de que sabemos que algo ruim vai acontecer. Não só ele irá presenciar cenas assustadoras estando absolutamente isolado do resto do mundo, como, depois que voltar para a suposta segurança de Crythin, será apenas uma questão de tempo até que presencie outra tragédia. Quando calcada nessa lógica interna, a narrativa funciona perfeitamente, e a tensão aumenta exponencialmente.

Só é uma pena que a narrativa não siga essa lógica o tempo todo. Até segue, na verdade, mas se perde um pouco no terceiro ato, já que a trama, apesar de interessante no princípio, se mostra bastante rasa e sem muita criatividade, revelando-se óbvia do meio para o fim do filme. E a conclusão da história, então, é um misto de satisfação e decepção: se, por um lado, é legal ver que a última cena faz uma rima temática com um diálogo do começo do longa, por outro é decepcionante que essa mesma cena acabe por amolecer o choque presenciado imediatamente antes, além de se mostrar essencialmente clichê e remeter a outro detalhe problemático do roteiro: o protagonista.

Interpretado com segurança por Daniel Radcliffe, Arthur Kipps é um sujeito obstinado a realizar a tarefa a que foi designado a fazer pelo seu chefe e, mais do que isso, é um sujeito naturalmente curioso, que insiste em ir até o fim para desvendar o mistério que cerca a Eel Marsh House. É legal ver um personagem íntegro e disposto a ir até o fim, mas também é frustrante que o mesmo demonstre nenhum ou pouquíssimo medo frente a o que lhe acontece – uma falha do roteiro, e não do ator. Ao mesmo tempo, o que move Arthur, no final, não passa de egoísmo. Spoiler até o final do parágrafo: ele continuava confrontando a mulher de preto mesmo depois de saber (ou de pelo menos ter uma relativa e boa suspeita) que as aparições da mesma resultavam na morte (violenta) de alguma criança da região. É verdade que a companhia do cético Mr. Daily (Ciarán Hinds, ótimo) ajudava a duvidar do pensamento supersticioso do povoado de Crythin (e nesse sentido a interação entre os dois personagens é importantíssima para manter o mistério no ar), mas a partir do momento que Arthur se convence de que a mulher de preto é de fato perigosa e mortal, ele passa a se preocupar exclusivamente com o seu próprio filho, que chegará ao local em breve. Ou seja, as mortes de todas as outras crianças de Crythin pouco importavam? O fato da esposa de Arthur ter recentemente falecido poderia ser usado como desculpa para justificar a preocupação exclusiva do protagonista para com o próprio filho? Talvez, se o roteiro trabalhasse essa questão, o que não acontece. Ao final, a forma como as mortes das outras crianças têm sua relevância diluída pela iminente chegada do filho de Arthur acaba diluindo também a força do filme.

No entanto, como dito no início do texto, a história é o que menos importa em A Mulher de Preto, que consegue ser um filme eficiente independente dela. E só fico a imaginar o quão melhor o longa poderia ter ficado caso o roteiro fosse melhor desenvolvido... Quem sabe mais uma adaptação do livro de Susan Hill daqui a alguns anos possa finalmente consolidar a história da mulher de preto como um clássico cinematográfico.

Poltronas 

3

Comentários

imagem de Viviane

Enviado por Viviane (não verificado) em sab, 10/13/2012 - 21:04

Acabei de rever o filme e devo dizer, não sei se a trama é realmente muito óbvia ou complexa. Próximo do fim do filme, (SPOILER) quando Arthur pega o corpo do menino no pântano e tem a ideia de colocá-lo junto da Mulher de Preto, que seria Jennet, para que ela parasse a matança. Isso não deveria resolver as coisas? Por que o filho dele morre, nesse caso? E a ideia de reunir mãe e filho, essa cena, para mim, foi bem confusa.

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Enviado por Carol (não verificado) em qui, 11/01/2012 - 14:43

Não achei o final confuso ! (spoiler!) Claro, tbm não entendi mto bem como ele chegou a conclusão de que se resgatasse o corpo do menino ela poderia vir a parar, mas enfim, quando ele encontra as cartas que ela escreveu para a irmã ela deixa bem claro que JAMAIS perdoaria a irmã por ter deixado o menino morrer ( eu entendi que no acidente, a irmã dela não se preocupou em salvar o menino, e sim, se salvar, coisa que nenhuma mãe de verdade faria), e outro ponto interessante, é que o espirito do menino fala pra ela que ela não é a mãe dele, ou seja, ele não reconhecia ela como mãe já que , provavelmente, foi tirado dela mto jovem ainda. O filme deixa mto claro que a mulher de preto é somente um espirito perturbado, de uma suicida louca que busca vingança, descontando as suas frustrações nos filhos dos outros, e mantendo com ela ali , naquela casa, suas almas para sempre. Ela não buscava o filho, ou a " paz " ela simplesmente não aceitou ter o filho tirado dela, e posteriormente a sua morte.
Por outro lado, o que na minha opinião foi o melhor de todo o filme, foi o jogada com o Mr. Daily, que passou todo o filme dizendo que acreditava que seu filho estava em um lugar melhor no céu e que quando morresse o encontraria, vendo o espírito do filho aprisionado todo esse tempo ao lado da mulher de preto, achei isso SENSACIONAL ! Outra coisa tbm, obrigar as crianças a se matar ?? Outra jogada de mestre na minha opinião !!
Quanto ao fim, acho que a morte do Arthur e do filho foram boas, a intenção do espírito era aprisionar o filho dele tbm, mas o amor que o levou a dar a vida dele pra tentar salvar o filho, fez com que sua mulher ( esse sim, um espírito evoluído rsrs) viesse buscá-los para viverem juntos ( como ele sempre quis ) e felizes, longe daquele inferno sem fim com almas de crianças inocentes aprisionadas ao lado de um espirito sem a minima vontade de ir embora.
Ah ! Quanto ao motivo da vingança da mulher de preto, eu acho que ela só queria tirar de outras mães os filhos msm, como fizeram com ela uma vez.
Enfim, eu gostei do filme, me rendeu bons sustos, e olha que eu nem gosto do Daniel, já comecei a assistir pensando "quando ele encontrar o fantasma , vai puxar a varinha e mandar um AvadaKevada " ( sei lá como se escreve ) mas eu recomendo sim, e mto, o filme ! Pra mim, valeu mto a pena !!

imagem de bruna

Enviado por bruna (não verificado) em qua, 02/11/2015 - 05:53

Seu texto ficou excelente e concordo com tudo que voce disse~~
me recomenda mais filmes?.?
parece que curtimos o mesmo tipo!

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