Festival de Cinema de Gramado - Mostra Gaúcha de Curtas

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Enviado por Julia em qua, 08/14/2013 - 11:52

A Mostra Gaúcha de Curtas - Prêmio Assembleia Legislativa de Cinema aconteceu em Gramado nos dias 10 e 11 de agosto.

Abaixo, seguem críticas e comentários dos 18 filmes da Mostra.

 

O Matador de Bagé (2012, dir. Felipe Iesbick – Prêmio Assembleia Legislativa de Cinema de Melhor Filme; Melhor Ator – João França e Melhor Música  – Frank Jorge)

O curta metragem de Felipe Iesbick é resultado de diferentes influências, sendo a maior parte delas de filmes de ação e faroeste. Nele, dois matadores rivais (um jovem e um mais velho) se enfrentam em Porto Alegre. João França, o mais velho (e que também faz seu prêmio merecido) é Assis, um homem cansado da vida cotidiana e com falta de trabalho, já que Assunção, mais novo e com menos técnica, roubou seus clientes. A direção de arte é interessante, apostando no amarelo e no vermelho, dando um quê de Tarantino à produção. A trilha sonora de Frank Jorge é excelente, tendo sido composta especialmente para os personagens. A direção de Felipe Iesbick também é forte, mostrando um conhecimento de linguagem cinematográfica e maturidade, apesar de ser um filme de conclusão de curso.

O curta também é recheado de momentos cômicos, referências literárias e dinamismo, tornando a produção inteligente, além de ser um produto de entretenimento.

 

A princesa (2013, dir. Rafael Duarte e Taísa Ennes Marques – Prêmio Assembleia Legislativa de Cinema de Melhor Atriz – Aline Jones)

Existem grandes cobranças sobre como mulheres devem se comportar. O papel delas é fortemente vigiado por diferentes segmentos sociais. Ela existe para cumprir uma função: ser linda, educada, doce, mãe. O curta metragem de Rafael Duarte e Taísa Ennes Marques é uma demonstração dessa mulher. Se dispõe a diversos processos – academia, depilação, roupas, beleza – para que se torne a princesa que esperam que ela seja. Sempre banhada em luz branca pela direção de fotografia, essa mulher é oprimida. Oprimida pela luz, oprimida pelo ambiente (prédios altos, janelas fechadas) em que vive e frequenta (como a academia, que possui grandes janelas de vidro que lembram uma vitrine na qual ela deve brilhar) e pelo homem, um representante da sociedade patriarcal no curta, que, em uma das primeiras cenas, já determina o tipo de roupa na qual ela precisará entrar. Em contraste, as cenas na floresta mostram a mulher livre das amarras. Os planos abertos e as cores vivas são demonstrações do lado selvagem da mulher, no qual a atriz entra em comunhão ao tomar banho nua, ou correr com um vestido leve pela floresta. E lá, ela é caçada. Caçada por um homem que quer acabar com a natureza ali presente. O tiro com o qual ele a acerta é uma forma não só de marcar um domínio, mas também castração  - da sexualidade, da liberdade e da vida selvagem. Agora ela deve ser uma boneca.

Há uma grande preocupação com a linguagem visual do filme, que não tem falas. Referências a contos de fadas são frequentes, como a cena final dos dedos, a ervilha, os vestidos e o fato de ela andar pela floresta fugindo de um caçador, vestida, justamente, de vermelho. A atuação de Aline Jones – um dos prêmios mais merecidos da noite - é fantástica em retratar não só a tristeza da mulher que era livre, mas também o medo que ela sente daquele homem que a castrou. Tal medo que causa a grande cena final e a sua metamorfose completa em uma princesa.

 

 

Kassandra (2012, dir. Ulisses da Motta Costa – Prêmio Assembleia Legislativa de Cinema de Melhor Fotografia)

Kassandra flerta com o terror psicológico. Tecnicamente impecável e filmado em preto e branco, a história da muda Kassandra é um mistério. Mora sozinha e precisa de psiquiatras por motivos que ninguém conhece. Ela vê uma entidade: o Homem Grande, que teme, mas parece te-la acompanhado durante a sua vida toda. Ao mesmo tempo em que ela é inocente e infantil, usa uma camisola que ocasionalmente mostra seus ombros e suas pernas, despertando o interesse do vizinho ao lado. A sexualidade de Kassandra não é reprimida, mas é apagada. Não é algo que faça parte de sua vivência cotidiana, transparecendo de uma forma sutil.

 O curta de Ulisses da Motta Costa é um lindo exemplar do gênero, com uma arte bastante caprichada e longos planos que mostram a vulnerabilidade de Kassandra ao mesmo tempo que deixam sua solidão aflorar, e fazem merecido o prêmio de melhor fotografia.

 

Armada (2012, dir. Filipe Ferreira – prêmio Assembleia Legislativa de Cinema de Melhor Roteiro)

Enquanto a ditadura militar brasileira for lembrada, ela nunca será um tema esgotado. Em “Armada”, temos uma clássica cena de preso político torturado, com atuações que deixam a desejar. O filme mostra algumas violências explicitamente – o corte de dedos – enquanto outras, como tapas, são suavizados e não convincentes.

A linha de tempo é confusa quando o torturador praticamente obriga o preso a se confessar. Quem assiste não entende o que é memória e o que é invenção, deixando um sentimento de não compreensão do filme. A arte também é muito limpa, apesar de se passar em um porão da época da ditadura. O sangue é contido, e os roxos mal aparecem e o curta mostra uma tortura bonita demais que nunca chega a incomodar.

Porém, como sempre em trabalhos que tratam desse período, merece o mérito por falar. Falar para que não se esqueça, e falar para que nunca mais aconteça.

 

Ed (2013, dir. Gabriel Garcia – Prêmio Assembleia Legislativa de Cinema de Melhor Produção Executiva)

Ed é um curta de animação 3D sobre a vida de um coelho e os problemas enfrentados por ele. É uma animação adulta e corajosa, mas longe de ser perfeita. Porém é convincente o suficiente para o que o filme se propõe. O problema real reside no vazio do roteiro: a crise existencial do coelho é boba, com poucas razões convincentes. Mas ainda sim é válido como animação e exercício de estilo.

 

Logo ali ao sul (2013, dir. Marcio Kinzeski)

Logo Ali ao Sul é um lindo exercício de fotografia: bucólico e campestre, ele passa toda a solidão do homem do campo ao mostrar o pobre casebre no meio da campanha. O barulho incessante do vento também oprime, e é, ao mesmo tempo, um companheiro e um incômodo para a família que ali vive. O roteiro, porém, é simples demais, com uma linha de tempo tão confusa que o espectador sai da sala se perguntando o que aconteceu na tela durante toda a projeção. O filme não gera problemas para a reflexão após o curta, e simplesmente não resolve nada ao que se propôs.

 

Roda Gigante (2012, dir. Julia Barth)

A queridíssima Julia Barth é corajosa ao fazer um filme universitário em plano sequência. Roda Gigante conta toda a sua história no Parquinho da Redenção, com personagens de diferentes núcleos que circulam por aquele ambiente. Os tipos retratados são bem porto alegrenses, com, inclusive, o sotaque típico. As referências à cultura pop e à cidade às vezes são um pouco forçadas, assim como alguns visuais dos personagens. Porém, tem um dos melhores nomes de traficantes de drogas já inventado – que trafica no Parquinho, vestido de palhaço -, Xerox. Os Alcalóides, antiga banda de Barth, são parte da trilha sonora.

 

Codinome Beija-Flor (2012, dir. Higor Rodrigues – Prêmio Assembleia Legislativa de Cinema de Melhor Montagem)

Falar em HIV gera diferentes sentimentos: medo, preconceito, e muitas vezes desconhecimento. Parte da população ainda acredita em velhos estereótipos sobre os portadores do vírus, que são reforçados por uma cultura de medo.

O documentário Codinome Beija-Flor retrata quatro casos: três verídicos e um de um ator – mas baseado em fatos reais – que relatam a sua vivência (ou possível vivência no caso do menino) com o HIV.  As três mulheres “reais”, relatam as dificuldades ao descobrir que eram portadoras da síndrome e como levaram adiante: apoio – ou falta de – dos parceiros, medicamentos, atitudes. Já o rapaz, com suspeita de ter pego o vírus após trair a namorada, cria coragem para realizar o procedimento e descobrir se ele tem a tão assustadora sigla.

Além de suprir parte da gritante necessidade de material audiovisual sobre o tema, o documentário também deixa uma lição: apesar das dificuldades, a vida continua. O curta de Higor Rodrigues é delicado ao abordar um tema que causa desconforto. As mulheres – com idades aproximadas entre 30 e 50 anos -, muitas vezes vistas como o sexo frágil, dão lições de vida e de superação, e quebram o estereótipo da AIDS como uma doença masculina. 

 

Entrevista (2012, dir. Gabriel Horn)

Entrevista tem um erro fundamental: a interminável necessidade masculina de tratar a mulher como um ser quase mitológico. Quatro homens falam sua visão sobre mulheres, como se elas fossem incompreensíveis, mágicas e ao mesmo tempo fantásticas. O final, levemente surpreendente, poderia até tornar a história mais interessante se não houvesse esse tipo de machismo velado. A direção de arte é inconstante: azul, verde e sépia oscilam fora de harmonia, e o aspecto fica deselegante.

 

Os filmes estão vivos (2013, dir. Milton do Prado e Fabiano de Souza)

"Os filmes estão vivos" é um documentário que retrata uma história de amor. O cenário é Paris, e os personagens Enéas de Souza e o cinema. Os diretores Fabiano de Souza e Milton do Prado acompanham a rotina do crítico em uma de suas viagens a cidade luz, pulando entre diferentes cinemas e bistrôs, para conversas francas e divertidas sobre a sétima arte.

Em seu habitat natural, Enéas dá uma aula que atinge diretamente o público cinéfilo, mas respinga em leigos e interessados pela arte. Vemos o mais belo e menos clichê de Paris na tela: escadarias, metrôs, cafés. E, é claro, inúmeros cinemas.

Com grandes doses de bom humor, Enéas fala do que ama, mas nunca unicamente apelando para o lado racional desse amor. Ele sabe por que gosta, mas sempre reforça a necessidade da valorização emocional da obra, às vezes menosprezada – como na divergência entre ele e o filho sobre o filme Holy Motors (2012). E talvez seja esse o segredo de Enéas: mesmo sendo um homem com grande capacidade reflexiva sobre os aspectos fílmicos, ele também se utiliza de sua própria sensibilidade.

 

As memórias do vovô (2012, dir. Cíntia Lange - prêmio RBS Curtas Gaúchos)

A história de Francisco Santos é instigante para os cinéfilos e admiradores da história do cinema. Desconhecido do grande público, Francisco Santos foi o pioneiro do cinema no Brasil, filmando em Pelotas em 1913. Seu único filme restante – e fragmentado – é “Os óculos do vovô”.

O curta tem um argumento admirável, mas sua execução não é coerente: ora ficção, ora documentário, As memórias do vovô se atrapalha até mesmo em sua trilha sonora bobinha e sem personalidade. Tal aspecto serve para deixar o filme mais leve, mas acaba atrapalhando o espectador.

Além disso, ao escolher retratar um Francisco Santos ficcional – além das entrevistas e algumas outras imagens – não há o mínimo cuidado com a arte, como o momento em que ele passa por uma janela lotada de adesivos modernos. Tais detalhes são ESSENCIAIS se a diretora optou por esse recurso.  As entrevistas são praticamente todas feitas num mesmo local e evento, aumentando o sentimento de pressa que o filme teria sido feito. O detalhe indica falta de capricho da diretora, que não pensou muito no aspecto visual da história.

“As memórias do vovô” acaba sendo um filme frustrante. Boa premissa e resultado decepcionante.

 

Catalogárgula (2013, dir. Lucas Neris e Luan Salce)

Catalogárgula é uma história contada em fotos de um menino que fotografa coisas aparentemente banais para as outras pessoas, como grãos caídos no chão. A história é bastante simples, beirando o bizarro em muitos casos. A partir das fotos e da narração, conhecemos características suficientes dos personagens para que entendamos pequenas partes de suas vidas.  Mas o mais impressionante é que ela foi feita como exercício de primeiro semestre na Universidade Federal de Pelotas, e mesmo assim apresenta uma história muito mais completa do que outros curtas de cineastas mais velhos. Ainda falta maturidade de estilo, mas é um início interessante para os cineastas Lucas Neris e Luan Salce.

 

L’anime (2012, dir. Diego Urrutia)

L’anime é um exercício de faculdade que mistura animação  2D e 3D e conta a história de um animador e questões profissionais relacionadas. O filme de Diego Urrutia peca na simplicidade e acaba soando como uma auto-ajuda no estilo “acredite nos seus sonhos”

 

Notícias tuas (2013, dir. Vicente Moreno)

O curta do talentosíssimo Vicente Moreno é um retrato de Francine (sua esposa, chamada Francine) em casa, na véspera de um casamento.  Ela realiza tarefas cotidianas: acorda, toma café, banho e espera.  Sorri e abre uma carta (que no remetente consta como Vicente Moreno). A impressão que fica é que a projeção é um prólogo de uma história realmente boa que vai começar. Porém, acaba no momento em que ela abre a carta deixando um gosto de quero mais aliado a uma frustração. A direção de foto  de Matheus Massochini é impecável, se utilizando de uma luz matinal para dar o ar de início, começo e tranquilidade que se espera do casamento que virá.

 

Férias (2012, dir. Iuli Gerbase – Prêmio Assembleia Legislativa de Cinema de Melhor Direção de Arte e Melhor Direção)

O filme de Iuli Gerbase  se passa num futuro cinza e desinteressante. Um homem – o ótimo Frederico Vittola - ganha desejadas férias do chefe, e as passa toda em um consultório médico, onde viaja por meio de sonhos para o lugar escolhido. O filme não traz nada de novo em sua visão de futuro e o conceito de férias mostrado no curta também não é nada estranho para quem conhece Total Recall de Phillip K. Dick ou o filme de Arnold Schwarzenegger. A direção de arte é interessante: tudo é frio, azul e sério, lembrando o clima impessoal das relações humanas em obras como Admirável Mundo Novo. Férias é outro filme que acaba e não mostra muito para o que veio.

 

O Boneco de Neve (2013, dir. Diego Muller)

O curta de Diego Muller é uma doce história adolescente: uma menina relembra detalhes de seu amor por um rapaz que, aparentemente, faleceu. Ela lembra dos momentos que viveu com ele a partir de imagens litorâneas. No curta, eles passam juntos por momentos infantis, como construir um “boneco de areia” até o início da sexualidade, ainda suave em ambos. A linguagem lírica ajuda a mostrar a sensibilidade presente nos jovens. Porém, o roteiro e a direção de atores pecam em algum momento, deixando a sensação de que o resultado do filme e o potencial que ele tem estão em patamares bem distantes.

 

Contrato de amor (2012, dir. Camilo Rodriguez, Leonor Jiménez e Thais Fernandes)

Contrato de Amor retrata uma praça em Santiago de Cali chamada de Praça dos Poetas, onde é possível buscar inspiração para cartas de amor ou outros documentos necessários. Nela, senhores de mais idade são escritores para quem puder pagar. Ao mesmo tempo em que mostra que ainda existem clientes, ilustra também algumas outras, vazias, com os poetas esperando por gente para quem possam escrever. O filme, dirigido a três mãos é um lindo exemplo de como em um mundo cada vez mais tecnológico e que despreza a velhice, a necessidade desses homens ainda não acabou.

 

Tomou café e esperou (2013, dir. Emiliano Cunha – Prêmio Assembleia Legislativa de Cinema de  Melhor Som)

Tomou café e esperou é o segundo filme gravado em apenas um plano exibido na Mostra Gaúcha de Curtas.  É um filme baseado na atuação de Milton Mattos, que expressa uma vida toda em apenas alguns olhares. É maduro e doce, e reserva a surpresa para os minutos finais, fazendo com que a compreensão e emoção do curta aumentem incrivelmente nos últimos momentos. A fotografia é caprichada, e traz cenas belíssimas, como a que ele fala no interfone e vemos tudo via um espelho, mostrando que a tristeza do momento é tão grande que a câmera não ousaria invadir aquele espaço. A produção conta com pouquíssimas falas, fazendo o trabalho de som ambiente se destacar, e Tiago Bello é ótimo em transformá-lo em um personagem do filme.

Comentários

imagem de Gilson Vargas

Enviado por Gilson Vargas (não verificado) em sex, 08/16/2013 - 17:42

Parabéns pelo texto que faz um panorama da Mostra Gaúcha deste ano; sempre algo difícil. Acho importante que espaços como este valorizem o cinema local e coloquem um olhar sobre as produções que realizamos ano a ano. Loga vida ao Fila K.

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