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Harry Potter e o Enigma do Príncipe

Enviado por Ghuyer em qua, 07/13/2011 - 21:14

Harry Potter e o Enigma do Príncipe (Harry Potter and the Half-Blood Prince, 2009) já inicia com uma sequência alucinante pelas ruas de Londres, com Comensais da Morte deixando claro sua posição de malvados. Enxergamos a capital inglesa mergulhada em sombras, e é com esse tom de escuridão que o filme seguirá.

Lembro das várias gargalhadas coletivas na sessão do cinema, mas apesar disso, esse sexto filme da franquia é de longe o mais sombrio de todos. O diretor David Yates consegue a proeza de entrecruzar vários (bons) momentos cômicos ao longo de uma bem construída trilha de seriedade durante os 153 minutos de duração do longa – e se um filme flui naturalmente por 2h30, é resultado de uma boa direção.

Claro que isso não seria possível – ou seria no mínimo seria muito mais improvável – não fosse o roteiro do já citado Steve Kloves. Não sei o que aconteceu de em Harry Potter e a Ordem da Fênix (Harry Potter and the Order of the Phoenix, 2007) não terem chamado o sujeito. Kloves roteirizou todos os filmes da franquia (incluindo os próximos não-lançados incluídos). A única exceção ficou por conta de A Ordem da Fênix – vai entender; o curioso é que ele saiu quando chamaram David Yates. De qualquer forma, Kloves voltou com tudo. Creio que o roteiro de O Enigma do Príncipe só não seja mais complexo que o de Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban (Harry Potter and the Prisioner of Azkaban, 2004) – que é meu favorito.

Mais do que acostumado com o universo concebido por J.K Rowling, Steve Kloves monta no roteiro todas as modificações necessárias para encaixar texto literário dentro de produto audiovisual. Literatura e Cinema são artes diferentes. Algo que poucos parecem entender, e que aqueles que não entendem podem tirar as dúvidas clicando aqui. Sempre é necessário algum tipo de alteração factual (no sentido de mudar, tirar, acrescentar cenas), e desde que o tom da história permaneça o mesmo, é bem-vinda qualquer alteração que vise melhorar o funcionamento daquela mesma história contada no livro, só que agora no cinema.

Como anunciei lá em cima, não li o livro para saber de todas as mudanças. Porém, fiquei sabendo que [spoiler] a cena do ataque (e destruição) à casa dos Weasley não existe no livro. Pois bem, existindo ou não no livro, essa cena funciona perfeitamente no filme. Adotando uma montagem seca e a câmera da mão à lá Paul Greengrass, David Yakes cria um ótima sequência de ação que culmina em um plano triste e belíssimo, com a casa pegando fogo e as chamas iluminando os rostos dos personagens.

Planos belíssimos são o que não falta em O Enigma do Príncipe. A fotografia de Bruno Delbonnel é absolutamente impecável (mais do que merecida a indicação ao Oscar). Qualquer frame do filme poderia ser ampliado e emoldurado para botar na parede (experimente pausar o filme em algumas cenas, e constate o que eu estou dizendo). Com cores suaves, Delbonnel consegue mergulhar o longa na devida atmosfera de tristeza. A situação em Hogwarts, perigosa, e o futuro, obscuro, inevitavelmente trágico, não poderiam ser retratados com a mesma coloração alegre das produções anteriores.

Ainda com o trabalho de direção de fotografia, vale a pena perceber como a certas cenas de intriga são filmadas de forma a denotar um bem-vindo tom de conspiração. Afinal de contas, alguém está certamente conspirando algo. Uma cena que reflete isso muito bem é aquela entre Snape (Alan Hickman, perfeito), Bellatrix (Helen Bonhan Carter, se divertindo como nunca no papel de bruxa psicopata) e Narcissa Malfoy (Helen McCrory, ok). Alan Hickman, aliás, se supera nesse filme. A interpretação de Snape não é para qualquer um, com a ambigüidade sempre presente ao intrigante personagem (e o modo com que ele anuncia as palavras... delícia de ouvir).

Outro que dá o melhor de si é Tom Felton. Se antes Draco Malfoy aparecia como um mauricinho chatinho, agora ele se mostra um sujeito angustiado pela ingrata tarefa que lhe é ordenada.

E sorte de Daniel Radcliffe que as cenas de Felton não são tantas – o loiro roubaria a atenção da câmera. Falando em Radcliffe, preciso dizer que só agora, vendo O Enigma do Príncipe pela segunda vez que me dei conta o quão sem sal é a atuação do sujeito. Não é ruim, não (já é incontáveis vezes melhor que Robert Pattinson – não que seja parâmetro). Mas há momentos em que ele não consegue expressar direito aquilo que seu personagem está passando. Acaba se saindo melhor com os momentos descontraídos do filme, pois em cenas mais dramáticas, deixa a desejar. Só que, em minha opinião, isso não chegou a atrapalhar em nada o conjunto do filme, uma vez que já estou mais do que acostumado a ver Harry Potter com aquela cara – e acredito que boa parte do público também. Fico natural vê-lo daquele jeito. É capaz de ficar estranho ver Radcliffe atuando de forma mais dramática nos próximos filmes.

 

Todo o restante do elenco faz bem o que tem que fazer. Rupert Grint de novo faz um Rony adequadamente desajeitado; Emma Watson faz dessa vez uma Hermione mais emotiva; Robbie Coltrane faz o sempre carismático Hagrid; Maggie Smith (a Maryl Streep inglesa) sempre ótima como Minerva; e agora aparece Jim Broadbent para interpretar um novo professor em Hogwarts, com quem Harry se envolverá a fim de descobrir informações sobre o Voldemort antes de virar Voldemort.

E o papel desse Voldemort adolescente fica por conta de Frank Dillane, que merece certo destaque. Com uma expressão de malandro-prester-a-se-tornar-o-bruxo-mais-malvado-do-mundo, Dillane constrói um jovem Tom Riddle com claras noções de como manipular as pessoas a fim de conseguir aquilo que quer. Eu ficaria mais amedrontado cara-a-cara com essa versão de Voldemort do que com aquela famosa sem nariz (sério mesmo).

Agora, um cuja atuação eu não apreciava muito nos outros filmes, dessa vez me convenceu. O Dumbledore vivido por Richard Harris nos primeiros dois filmes da franquia era perfeito – pelo menos na minha visão do personagem. Quando Michael Gambon assumiu o papel, depois da infeliz morte de Harris, a figura de Dumbledore inevitavelmente mudou. Gambon deu uma aparência mais ‘gasta’ ao Headmaster de Hogwarts. Mas aí acho que a equipe de maquiagem e figurino contribuiu mais para o fato, colocando mais cinza à antes branquinha barba do sujeito. Independente disso, Gambon fez um Dumbledore mais decidido e ativo que aquele criado por Harris. Não que isso tenha ficado ruim. Mas como a versão de Harris tinha se encaixado tão bem ao universo dos filmes, Gambon ficou no mínimo diferente. E se isso incomodava, era somente em função da estranheza provocada.

No entanto, sua postura mais séria e preocupada caiu perfeitamente bem ao contexto do sexto filme. E cabe destacar sua atuação no momento em que Dumbledore vai com Harry procurar uma Horcrux. A cena em si já é bem conduzida por Yates, criando um momento tenso e amedrontador, e é nesse momento que o espectador pode até se surpreender com a determinação do personagem (e do ator).

Fechando o elenco principal, não tenho como não mencionar a atuação de Evanna Lynch como Luna.

Combinação de personagem a atriz já tinha me chamado a atenção no filme anterior. Eu simplesmente amo a Luna (e por tabela acabei amando a atriz que a interpreta). Luna é meiga, fofa, esperta, incomum, misteriosa, e fala de um jeito hipnótico. Ela é peculiar. Queria vê-la com mais tempo de cena. Espero que isso aconteça nos próximos filmes. Claro, não é só por que eu gosto da personagem que ela ganha destaque no texto. Realmente acho que Evanna Lynch desempenha bem seu papel. Evanna consegue envolver Luna em um ar de mistério. Não sei se é isso relevante para o desenrolar da história no futuro, mas pelo menos é uma característica interessante de ver um personagem.

E como sempre acontece na série, a direção de arte de O Enigma do Príncipe é primorosa. Acertando tanto em locais alegres como a loja no Beco Diagonal, ou outros mais tenebrosos, como a ilha onde se encontra a Horcrux, o trabalho do designer de produção Stuart Craig acerta em cheio na construção dos cenários. O mesmo vale para os figurinos de Jany Tamime, e a maquiagem, que dessa vez surge mais discreta, porém não menos competente. Efeitos visuais e sonoros também cumprem seus papeis, sem jamais surgirem exagerados.

Porém o detalhe de produção que em minha opinião merece mais destaque é a trilha sonora de Nicholas Hooper. Invés de reutilizar o fantástico tema criado por John Williams no primeiro filme, Hooper decidiu criar sua própria música, e sua decisão arriscada se mostrou totalmente bem-vinda. Ainda é possível ouvir lampejos do tema de Williams na abertura do filme. Todavia, todo o restante de O Enigma do Príncipe conta com uma trilha sonora própria, e belíssima por sinal. Evitando acordes fortes, como Patrick Doyle havia feito em Harry Potter e o Cálice de Fogo (Harry Potter and the Goblet of Fire, 2005), Hooper prefere investir em composições intimistas. O resultado ficou ótimo (e funcional). (Hooper também fez a trilha de A Ordem da Fênix, mas confesso que não lembro como ela soava).

No mais, basta dizer que O Enigma do Príncipe foca mais na construção da atmosfera necessária aos próximos filmes do que propriamente na resolução do tal ‘enigma’ do título. A descoberta de quem é o Príncipe surgiu suficientemente surpreendente para mim, eu que não li o livro. Porém talvez tenha aparecido ‘fácil’ demais para muita gente. Entretanto, o término de O Enigma do Príncipe deixou um ótimo gancho para o sétimo filme. Quem é R.A.B?

Poltronas 

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