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Harry Potter e as Relíquias da Morte - Parte 2

Enviado por Zeh em qui, 07/14/2011 - 15:35

A pior parte de um texto é começo. Não seu início propriamente dito, mas começá-lo. Enfrentar o vazio da folha em branco é sempre o mais difícil, o mais cansativo. A criação a partir do nada. O contrário acontece com os relacionamentos: terminá-los é o que nos exige mais, nos angustia mais. Como lidar com tudo aquilo que se viveu? Como acabar com aquela rotina, boa rotina, estabelecida ao longo dos anos de convivência? Como reagir ao saber, de antemão, que o futuro próximo não terá mais a companhia daqueles aos quais nos acostumamos? Acreditem, senhores: se vocês ainda não se fazem essas perguntas, elas certamente os tomarão de assalto quando as pedras do túmulo de Alvo Dumbledore forem removidas.

A cena que encerra o longa anterior abre com maestria Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 2, o fim, no cinema, da saga do bruxo criado por J.K. Rowling. A assustadora revista de Voldemort ao corpo inerte do ex-diretor de Hogwarts, seguida de sua epifania pela posse da Varinha das Varinhas, nos lembra que estamos diante de uma aparente vitória do Lorde das Trevas, e isso significa tempos negros para o mundo da magia. A ordem, a disciplina e a escuridão que tomaram conta de Hogwarts, agora sob a direção de Severo Snape, são mostradas logo em seguida, em um plano dos alunos movimentando-se com uma organização assustadora. E recém começamos. Mas, de todos os elogios que se pode fazer à conclusão da saga de Harry Potter, cabe destacar que esse Relíquias da Morte, além de tenso, é focado e esclarecedor.

A tensão já ficou estabelecida nas cenas iniciais, e o primeiro diálogo relevante de Harry Potter nos faz ver um bruxo adulto, mais maduro e seguro que nos filmes anteriores. Se essa transformação, de adolescente receoso a adulto determinado, já era visível na parte um, aqui ela está escancarada, e isso se reflete nas decisões urgentes que precisam (e são) tomadas, a despeito de qualquer “plano”. Por outro lado, o estabelecimento do jogo de gato-e-rato entre o trio principal e Voldemort é outro elemento que compõe esse cenário de angústia. Se a maneira pela qual Harry descobre as horcruxes restantes pode desagradar a alguns fãs, essa apresentação é orgânica e confere mais peso dramático na relação entre ele e seu antagonista. Ainda, se é assustador ver uma Hogwarts aparentemente dominada com mão-de-ferro por Snape, mais aterrorizante é vê-la, após sua saída, como o último ponto de luz contra a escuridão que tomou conta do mundo. À medida que nos aproximamos do final, porém, uma surpresa bastante agradável é notar como essas sombras vão desaparecendo, ainda que a angústia causada por elas permaneça. Isso é ainda mais notável no contexto do grande confronto da saga, mesmo com a continuidade do tom cinza do dia. Ao mesmo tempo, é possível perceber que o trio principal, primeiramente, e os demais personagens que os ajudam em Hogwarts, a seguir, são figuras que se destacam, por sua vivacidade, do ambiente obscuro que toma conta do filme. Como não identificar heróis quando Gina Weasley ou Harry e Luna aparecem, “coloridos”, em meio a tantos outros jovens, todos uniformizados em tons escuros?

Há outra palavra para descrever As Relíquias da Morte – Parte 2: urgência. Simplesmente não há tempo: nem para planos, nem para lamentos. É preciso correr contra o relógio do mal para salvar Harry Potter, Hogwarts e o mundo. É preciso achar e destruir as horcruxes restantes. É preciso correr, agir. E a ação é contínua tanto na busca pelos “pedaços” de Voldemort quanto nas atitudes de proteção a Hogwarts e nas batalhas inevitáveis. São poucos os momentos em que os personagens, e os espectadores, conseguem tomar fôlego, e, certamente, eles são mais longos para nós que para eles. Isso, em grande parte, é mérito da ágil montagem de As Relíquias da Morte: como há muita ação ocorrendo ao mesmo tempo, corria-se o risco de ou tentar mostrar a totalidade de cada evento, separadamente, ou fazer cortes que os deixassem confusos ou cansativos. Nada disso acontece. Quando só há uma seqüência, ela tem força para se sustentar, e quando os cortes são necessários, são precisos o suficiente para manter o foco em cada ação, simultaneamente. A derradeira batalha ilustra essa sincronicidade de maneira muito satisfatória.

Os demais filmes da saga são corretamente lembrados pela história (é gritante a citação a O Enigma do Príncipe), e aqui temos a parte mais fascinante desse oitavo longa. Ao mesmo tempo em que são ignoradas certas circunstâncias (em nome do foco), a segunda parte de As Relíquias da Morte também é bastante esclarecedora em alguns momentos. A utilização de referências do restante da saga, apesar de tornar este último capítulo uma missão complicada para não-iniciados, amarra de forma inteligente a trama, enquanto confere importância não apenas a este filme, mas também aos anteriores. No entanto, isso não impede que sejamos apresentados a outros detalhes de Hogwarts, entre diversas situações que são expandidas nas suficientes duas horas de projeção. Por exemplo, é fascinante observar a grandiosidade de determinado cômodo da escola. Ainda que já tenhamos sido apresentados ao local, vê-lo por completo e perceber que ele é muito maior que imaginávamos (pelo menos, que os não-leitores imaginavam) escancarara não só a já sabida grandiosidade da escola, mas também reafirma a gravidade da missão que precisa ser cumprida lá.

Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 2, ainda, parece ser um filme pensado para não deixar perguntas no ar. Em certos momentos do filme, o espectador pode se pegar questionando os porquês de certas ações, para logo em seguida ser surpreendido com uma resposta aceitável. Obviamente, isto é mérito das escolhas do diretor David Yates. Talvez alguns fãs mais ardorosos questionem a ausência de determinadas partes do livro, determinadas histórias, determinados motivos, mas a precisa ligação deste longa com os anteriores faz da saga Harry Potter, no cinema, uma história fascinante e “redondinha”.

Toda essa coerência, porém, cobra seu preço em alguns momentos. Há, em especial, três passagens que talvez pequem pelo didatismo. A primeira delas, um “flashback” fundamental e admiravelmente emocionante, apresentado “à maneira da saga” (aquele “compartilhamento” de visão entre personagem e espectador, fundamental em, novamente, O Enigma do Príncipe), parece longa demais e talvez quebre de forma exagerada o ritmo da ação. Outras duas, não tão longas, são muito explícitas em seu conteúdo, muito explicativas, e talvez beirem o clichê. Além disso, elas talvez façam fãs mais extremistas de Lost e Matrix Reloaded vibrarem com a possibilidade de dizer, na cara dos fãs do bruxo, “como querem nos criticar depois dessa cena?”: correndo o risco de haja spoilers a seguir, uma envolve fantasmas, e, a outra, uma “estação de trem”.

Esses detalhes, porém, não são suficientes para tirar o brilho desse desfecho, assim como os pequenos problemas não tiram o viço de uma relação forte e duradoura. Quem não é tão fã, quem não bota o nome do cachorro de Voldemort ou não separa seus amigos por Casas, mesmo estes certamente criaram algum laço afetivo pelo mundo mágico dessa “trupe de bruxinhos que se mete em altas confusões”, nesses dez anos de relacionamento. Quando olhamos para Ron, Hermione e Harry ao final da projeção, voltamos ao mundo real e à constatação de que é hora de dizer adeus. No epílogo, também estamos na plataforma, no trem, mas indo embora. Ficaremos aqui fora, como eles, ainda que nosso coração esteja sempre em Hogwarts.

Poltronas 

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