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Super 8

Enviado por Ghuyer em qui, 08/11/2011 - 16:15

Desde o anúncio de sua produção, Super 8 (Super 8, EUA, 2011) foi tido como um dos filmes mais aguardados de 2011. Prometendo uma grande homenagem aos filmes de ficção científica das décadas de 70 e 80, o projeto nostálgico do ousado J. J. Abrams oferece uma história de aventura e mistério como há muito tempo não se via na telona.

Iniciando a narrativa em tom contemplativo, Abrams nos apresenta ao protagonista Joe (Joel Courtney) em um momento de grande tristeza, enfrentando a inesperada morte da mãe, apenas para começar a história de verdade meses após esse incidente. O pequeno Joe encontra refúgio na amizade que inicia com Alice Dainard (Elle Fanning) enquanto os dois ajudam Charles (Riley Griffiths) e outros amigos a fazer um filme de zumbis – com uma câmera super 8. Durante as filmagens em uma estação de trens, no entanto, um acidente de proporções épicas muda completamente os planos dos garotos.

A cena do trem descarrilhando sozinha já valeria o ingresso para ver Super 8 no cinema. Provavelmente metade do orçamento do filme foi gasto ali. Lembra bastante o acidente do metrô em Presságio, só que maior e mais monstruoso. A partir desse momento, a narrativa vai se tornando cada vez mais intensa, sempre mergulhada em um delicioso ar de mistério que parecia sumido de todos os filmes recentes do gênero. Um acidente de trem descomunal. Milhares de cubinhos espalhados no local. O professor de ciências que alerta as crianças para guardarem segredo. Militares tomando conta do acontecido com a mesma pompa de segredo de Estado de sempre. Uma criatura revelada aos poucos raptando pessoas. Equipamentos eletrônicos oscilando sem lógica aparente. A implicância mútua entre os pais de Joe e Alice... São todos mistérios que se resolvem aos poucos, (quase) sempre de forma satisfatória.

Realmente, não me lembro da última vez que vi um filme assim no cinema.

A idéia de Abrams era fazer uma história repleta de referências aos filmes que construíram sua cultura cinéfila na infância, e a participação de Steven Spielberg como produtor do projeto só serve para evidenciar ainda mais esse caráter de nostalgia. O criador de Lost certamente deve ter se sentido nas alturas quando o Mestre veio participar da brincadeira. E é resgatando boa parte da carreira de Spielberg em Super 8 que Abrams presta uma mais do que devida homenagem a esse gigante do cinema de entretenimento. Como integrante do panteão de divindades hollywoodianas, Spielberg foi um dos grandes responsáveis pela solidificação da ficção científica como gênero de cinema respeitável (na carona do que Kubrick fez 2001: Uma Odisséia no Espaço, ok), além de ter inaugurado o termo blockbuster (para desgosto de muitos puristas chatos) com Tubarão. Ver sua obra ser reverenciada com tanto esmero e competência em um projeto sólido e divertido como Super 8 é mais do que agradável.

Toda a trama de Super 8 é calcada em moldes de E.T: O Extraterrestre. Desde os garotos indo pra lá e pra cá de bicicleta até a figura alienígena querendo ir para casa (“HOME!”). Depois, a atmosfera de intriga militar remete demais a Contatos Imediatos de Terceiro Grau, embora aqui em um contexto diferente. Tubarão aparece sem aparecer, graças à revelação gradual da criatura no filme (o que também remete ao Cloverfield: Monstro, produzido por Abrams). Além disso, o clima aventuresco da história tem um gostinho de Indiana Jones. E, porque não, até O Resgate do Soldado Ryan é citado, ainda que talvez involuntariamente (os destroços do trem e os rostos sujos das crianças lembram a situação dos soldados no conto de guerra de Spielberg). Enfim, referências são o que não faltam em Super 8.

Porém, um filme sem identidade própria, por mais divertido que seja, sempre deixará algo a desejar, e Abrams foi cuidadoso para que isso não acontecesse aqui. Talvez o caminho escolhido não tenha sido o melhor, não acho que foi, mas serviu ao menos para estruturar uma essência à motivação dos personagens centrais. Embora bem trabalhada, a dinâmica de resistência dos pais de Joe e Alice quanto à amizade de seus filhos soa dispensável. É gratificante ver a pequena reviravolta envolvendo esse detalhe no final do filme, mas todo o drama até lá não parece necessário. Não é algo que prejudique o filme, mas também não melhora grande coisa. No entanto, esse impasse serve para desenvolver melhor os personagens (exceto pelo pai de Alice, Louis, talvez a única caricatura do filme, sempre abobado) do elenco principal.

Joe é bem interpretado pelo estreante Joel Courtney que, apesar de soar chatinho no começo, logo conquista o espectador, além de se tornar mais forte e cheio de iniciativa à medida que o filme passa. Seu amigo Charles é vivido pelo também estreante Riley Griffiths como o afobado aspirante a diretor de cinema, corretamente mandão. Elle Fanning dá um show como Alice Dainard, oferecendo tanto a face destemida quanto a emotiva de sua interessante personagem. Kyle Chandler, numa mistura de Russell Crowe com William Baldwin, compõe bem o pai de Joe como um homem esperto e preocupado com o bem sociedade, mas, recalcado em relação à morte da esposa, fica distante do filho. Como atuações isoladas, essas são as que merecem menção, embora a dinâmica do elenco infantil certamente seja o maior destaque do filme nesse sentido. Em nenhum momento eles parecem atuando. Parecem amigos de verdade.

E se quanto à atuação o filme não decepciona, quanto à parte técnica não é preciso dizer que o resultado é (quase) soberbo. As explosões e as cenas de composição (com tela verde) são bastante reais, e o design de som é primoroso. A única ressalva fica por conta da concepção da criatura quando vista de alguns ângulos que comprometem o CGI. Toda a ação é bem montada por Mary Jo Markey e Maryann Brandon, e sempre embalada pela maravilhosa trilha sonora de Michael Giacchino (em um de seus melhores trabalhos).

Agora, um problema de Super 8 é sua direção de arte (de Martin Whist). Embora a história se passe em 1979, e difícil perceber isso no filme. Não fosse o título sugestivo, Super 8 poderia se passar nos dias de hoje. Contribui para isso a fotografia de Larry Fong que, embora bela e eficiente nas cenas mais movimentadas, utiliza uma paleta de cores vibrantes demais, que não combina muito com a proposta nostálgica do filme.

Mas no geral, apesar desses pequenos detalhes, Super 8 é um ótimo passa-tempo, um filme pipoca de qualidade. Como disse antes, o ar de mistério do filme é delicioso para os fãs da ficção científico oitentista (principalmente quantos aos filmes de Spielberg). Sem grandes problemas, a maior falha de Super 8 é não ser tão grandioso quanto poderia.

Poltronas 

4

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