Comentar

imagem de Ghuyer

Políssia

Enviado por Ghuyer em qua, 09/05/2012 - 17:50

Algumas vezes, se não várias, a falta de foco do roteiro pode arruinar um filme. O Brilho de uma Paixão (Bright Star, Inglaterra, 2009), Um Quarto em Roma (Habitación em Roma, Espanha, 2010), Rastros da Justiça (Five Minutes of Heaven, Inglaterra, 2009), o recente Valente (Brave, EUA, 2012), ou mesmo o intocado clássico Acossado (À bout de souffle, França, 1960), todos são filmes que me incomodaram porque seus roteiros não sabiam para onde encaminhar a história. Daí minha surpresa em constatar como Políssia (Polisse, França, 2011) se destaca, não apesar, mas justamente em função da (aparente) falta de foco de seu roteiro.

Resgatando a experiência que viveu no ano em que acompanhou o cotidiano da unidade policial parisiense que lida especialmente com casos de vítimas infantis (de certa forma, a versão francesa da equipe retratada na série norte-americana Law & Order: SVU), a atriz Maïwenn Le Besco montou um roteiro ao lado de Emmanuelle Bercot que buscasse enfatizar o desgastante dia a dia das operações daqueles dedicados policiais. Como muitas vezes os agentes terminam por não saber como os casos em que estavam envolvidos são encerrados na Justiça, Maïwenn e Bercot tomaram a esperta (e arriscada) decisão de picotar a narrativa e tocar a história para frente evitando esclarecer os resultados dos esforços realizados pelos personagens. Dessa forma, criaram um vasto e intrigante panorama sobre as vidas tortuosas desses esforçados indivíduos.

Adotando uma abordagem quase documental ao dar preferência para o uso levemente tremido da câmera na mão, Maïwenn consegue empregar um tom incrivelmente realista para a(s) história(s) que está contando, fato que é ainda mais reforçado pela montagem seca de Laure Gardette. Trabalhando em conjunto com o diretor de fotografia Pierre Aïm na concepção de planos longos e tensos que ajudam a aproximar o espectador das situações retratadas no filme, Maïwenn merece aplausos também pela densidade com que envolve a narrativa, ganhando especial destaque a desconfortável cena em que um menino é literalmente arrancado dos braços de sua mãe, em um momento que pode muito bem ser descrito como um soco na alma, de tão doloroso e triste.

Como se não bastasse, nessa que é apenas sua terceira investida na direção de um longa-metragem, a cineasta já demonstra um incrível talento para a condução do elenco que, homogeneamente excelente, jamais fraqueja, surgindo sempre equilibrado. Seja nos momentos intimistas, como a conversa entre Mathieu (Nicolas Duvauchelle) e Chrys (Karole Rocher) no hospital, ou em situações extremas como o agressivo desabafo de Nadine (Karin Viard) perto do final do longa, o time de atores de Políssia, inclusive o infantil, esbanja talento para todos os lados.

Encontrando tempo até para retratar as falhas do sistema de organização da polícia e a alarmante falta de recursos para determinadas questões, e ancorando sua narrativa em personagens complexos, cheios de méritos e falhas, Políssia funciona não só como uma crítica social quase documental, mas como um eficiente drama sobre relações humanas.

Poltronas 

5

Plain text

  • No HTML tags allowed.
  • Endereços de páginas de internet e emails viram links automaticamente.
  • Quebras de linhas e parágrafos são feitos automaticamente.
CAPTCHA
Esse desafio é para nos certificar que você é um visitante humano e serve para evitar que envios sejam realizados por scripts automatizados de SPAM.
CAPTCHA de imagem
Digite o texto exibido na imagem.