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O Senhor dos Anéis - O Retorno do Rei (versão estendida)

Enviado por Luciana em sex, 12/07/2012 - 15:13

Encerrando com maestria a trilogia concebida por J. R. R Tolkien, temos em O Senhor dos Anéis – O Retorno do Rei um filme completo, perfeito, digno das páginas escritas pelo professor quando idealizou esse mundo fantástico que é a Terra-média. E com isso chegamos ao final, ao terceiro ato dessa majestosa narrativa.

Aqui somos guiados aos locais onde ocorrem as derradeiras decisões, onde o destino de todos está nas mãos de dois pacatos Hobbits, que com a ajuda de seus amigos seguem rumo à Mordor, onde precisam destruir o Um Anel, a fim de livrar a todos do poder sombrio e destrutivo de Sauron.

O Retorno do Rei é, sem sombra de dúvida, o filme melhor elaborado da trilogia. O roteiro alinhava os acontecimentos de forma homogênea e fluida, permitindo ao espectador que acompanhe a história sem se perder, ao mesmo tempo em que a alternância de situações não atrapalha em nada, contribuindo inclusive para o aumento da tensão e expectativa que vai se construindo ao longo do filme. Quanto à adaptação, Peter Jackson e sua equipe estão mais uma vez de parabéns, pois o que vemos na tela é exatamente o que se esperava: uma conclusão épica.  

O que presenciamos no início do filme, o flashback que nos apresenta a Sméagol como ele era antes de possuir o Anel, faz com que prestemos mais atenção ainda a Gollum, pois temos ali a real noção do que o artefato causou a ele. Se em As Duas Torres ele ganhava terreno, neste filme Gollum é parte mais do que importante nos acontecimentos que estão por vir. Não só o resultado do trabalho de Andy Serkis e da equipe de efeitos visuais da WETA atingiu um patamar que beira à perfeição – pois Gollum está mais próximo do real do que nos outros dois filmes, efeito que já era admirável –, como o desenvolvimento de seu caráter atingiu um nível espantoso. Os diálogos são mais intensos e complexos, e podemos perceber claramente a dissimulação de Gollum, ele é esquivo e consegue manipular Frodo, fazendo com que ele pense que Sam o está traindo.

Ainda sobre a abertura, observamos o flashback singular de toda a Trilogia: enquanto nos filmes anteriores ele sempre antecedia grandes confrontos, aqui vislumbramos algo duro, cruel. Sméagol matando Déagol para roubar o Um Anel é angustiante, mas é algo que a trilha sonora brilhantemente reforça: não veremos algo épico, estamos diante de algo triste, aflitivo, melancólico. Tal como se transformou a vida de Sméagol/Gollum.

      

Como já comentei em textos anteriores, tenho uma teoria (que muitos certamente irão discordar) sobre os dois “eus” de Gollum. Tendo a acreditar que ele tem algo como um ser imaginário com quem conversa, e não uma dupla personalidade, ou bipolaridade, como muitos comentam. Percebemos que Sméagol já falava com o mesmo tom de voz e se referindo a ele como sendo “dois” quando falava com Déagol, dizendo, por exemplo, “Dê isso para nós, Déagol”. Sméagol devia ser uma pessoa muito sozinha, e infelizmente não temos muitas informações sobre ele antes de possuir o Anel. E mais uma vez, palmas para Andy Serkis por ter conseguido construir um personagem tão complexo e tão fascinante como esse.

Falemos mais sobre o que comentei brevemente em meu texto de As Duas Torres quando Gandalf, o Branco, enfrenta Saruman em Isengard – já totalmente destruída pelo ataque dos Ents – e o destitui de seus poderes, quebrando seu cajado e o expulsando da Ordem. Esta cena, presente na versão estendida, mostra Saruman no alto de sua torre e certo do poder que acredita ainda possuir. Mal percebe que sua derrocada está próxima, e que aquele o qual ele insistiu em humilhar por não ter mais serventia, Gríma, será quem lhe tirará a vida. Cena de grande importância, em minha opinião, pois é nesse momento que Pippin começa a ser seduzido pelo Palantír (pedras videntes criadas durante as primeiras eras, que possibilitando o contato entre elas, facilitava a comunicação), e que posteriormente dará sequência a uma das cenas mais tensas do filme, quando resolve pegar o artefato para observá-lo e é torturado por Sauron através dele. Esse fato tornou-se ainda mais relevante por ter permitido que eles vislumbrassem a intenção do ataque de Sauron a Minas Tirith, o que oportunizou a Gandalf e Pippin rumarem para lá em tempo de preparar a defesa.

A respeito de Gandalf, já havia comentado anteriormente que o tenho como o centro do grupo, algo como a pedra angular da história. Aqui em O Retorno do Rei ele volta com tudo, exercendo novamente sua função de guia e mentor dos demais, pois agora ele está totalmente livre para cumprir sua missão, afinal tudo está se encaminhando – Théoden foi libertado do domínio de Saruman, Aragorn começa a aceitar seu destino, os exércitos estão se agrupando, etc. Quando chega a Minas Tirith com Pippin e encontra Denethor – pai de Boromir e Faramir – completamente fora de si, ele assume também as rédeas da situação, preparando o povo da cidade para a iminente batalha. Mas ao mesmo tempo em que ele incita o movimento para a guerra, ele ampara os mais indefesos, como a linda cena em que ele diz a Pippin que a jornada não termina ali por conta da morte, mas que mais além existe algo belo esperando por eles.

Agora que a Terra-média está literalmente em chamas, alguns pontos vão se sobressaindo em relação a outros, como por exemplo, a união dos exércitos sob o comando de Théoden, Rei de Rohan. Mas por mais que o contingente vá aumentando, o exército inimigo é infinitamente maior e é chegado o momento em que Aragorn precisa assumir sua real identidade, a do herdeiro de Isildur. Empunhando agora a espada reforjada pelos Elfos a partir dos fragmentos de Narsil – a espada quebrada de Elendil – Aragorn, junto com Legolas e Gimli, toma a estrada para a Senda dos Mortos, o local sob a montanha onde vivem os fantasmas de um grande exército do passado, que amaldiçoados por Isildur por não terem cumprido seu juramento, não podem encontrar a paz. Sua intenção é fazer com que o exército dos mortos cumpra o juramento servindo a ele em batalha, visto que é o legítimo herdeiro do Rei que foi abandonado por eles eras passadas.

Enquanto tudo acontece à volta, temos Frodo, Gollum e Sam indo diretamente para Cirith Ungol, o local de morada de um ser abominável e mortífero, a aranha gigante Laracna. Toda a preparação ocorre com a subida deles pelas escadas, e o plano da criatura para se livrar de Sam e fazer com que Frodo seja devorado pela aranha, para então poder se apoderar do Anel. Mas ainda não é chegada a hora de Gollum dar sua grande contribuição, desempenhar seu papel antes do fim.

Repetindo a excelência de seu trabalho dos dois longas anteriores, a direção de arte de Dan Hennah está magnífica neste filme. Não somente os incríveis cenários, como toda a exuberância de Minas Tirith, ou as ruínas de Osgiliath, mas principalmente a que é para mim uma das cenas mais incrivelmente belas que já presenciei no cinema, a sequência dos Faróis de Gondor, onde um vai acendendo após o outro no timing perfeito, concedendo uma obra de arte através dos céus de Gondor. Não vejo como não ficar fascinado com essa cena.

Preciso também destacar a cena onde começa a movimentação dos exércitos de Mordor, quando é possível vislumbrar no céu enegrecido pela ira de Sauron aquele que é o sinal do início da grande batalha, e quando a câmera se aproxima do local, os Nazgûl estão em movimento, e lembro claramente da primeira vez a que assisti ao filme no cinema, quando nessa cena fiquei arrepiada e quase enfeitiçada pela grandeza do trabalho da equipe de som, pois o guincho das montarias dos Nazgûl tem uma amplitude quase imensurável, algo extremamente bem feito e que é capaz de causar aquilo que é o seu objetivo: medo.

A trilha sonora concebida por Howard Shore não tem precedentes, ele conseguiu nesse filme superar o seu próprio trabalho realizado nos dois longas anteriores. O tom épico das composições auxilia para a tensão crescente, entregando o conjunto da obra de forma verossímil e profunda, emocionando na hora certa e prendendo o espectador a cada cena. Os acordes no momento da grande batalha ressaltam ainda mais o tom épico e monumental dos acontecimentos.

Ainda a respeito do brilhante trabalho de Howard Shore, notem a harmonia de sua composição em sincronia com a cena exibida: primeiro observamos ao raiar do dia o exército de Théoden chegando e confrontando orcs e outros. A trilha engrandece, é épica, impactante. Quando do encontro dos humanos com os orcs a trilha cessa, escutamos apenas o inimigo recuando e o bem prevalecendo. Minutos depois, em um novo confronto dos aliados de Gandalf contra olifantes, praticamente a mesma cena, a trilha aumenta, os humanos e elfos surgem em disparada para cima dos “Elefantes Gigantes”. A estrutura da cena é a mesma da anterior, justamente colocando na mente do espectador que o resultado de vitória seria o mesmo. O que se vê em cena é sim um silêncio, mas dessa vez observamos os olifantes literalmente pisoteando (em um primeiro momento) quem ousa enfrentá-los. Em outras palavras, Howard Shore, junto com Peter Jackson e sua equipe constroem uma ideia de vitória na mente do espectador para logo depois derrubá-la e mostrar a ele: a vitória está longe do fim. Percebem como a trilha sonora desse filme é fabulosa?

   

Reforçando ainda mais a grandiosidade de O Retorno do Rei, enquanto em As Duas Torres pouco a pouco o diretor vai nos deixando ansiosos pela tão anunciada batalha no Abismo de Helm, aqui o confronto chega de forma arrepiante, com orcs atacando por terra e Nazgûl pelo céu. Novamente observamos mais travellings aéreos, dessa vez nada de Saruman e sua torre, mas sim Nazgûl em suas bestas aladas aterrorizantes e seus rasantes assombrosos, matando quem quer que passe por seu caminho. Sobre as montarias dos Nazgûl, apenas por curiosidade, elas não possuem poderes, mas o seu guincho é capaz de deixar a presa atônita, o que faz com que se torne um alvo fácil. Agora os Nazgûl, eles sim são poderosos, dizem que o hálito de um Nazgûl enfeitiça a vítima, podendo deixá-la em estado de torpor e totalmente vulnerável. Observem a cena em que o Senhor dos Nove, o Rei Bruxo de Angmar interpela Gandalf no alto de uma das torres de Minas Tirith, o Mago apesar de poderoso, fica momentaneamente confuso diante dele.

Ainda sobre essa grande batalha, a batalha dos Campos do Pellenor, é uma das batalhas mais assombrosas e fantásticas que já presenciei no cinema. A dimensão dos acontecimentos desse confronto supera a de qualquer outro que eu conheça. São orcs, Nazgûl em suas montarias aladas, olifantes, homens servos de Sauron, é incrível o efeito causado por cada pedra arremessada, cada flecha disparada, cada soldado morto... sem contar os confrontos individuais que ocorrem, como por exemplo, aquele que é o mais emblemático desse filme, quando Éowyn enfrenta o Senhor dos Nazgûl (aquele que momentos antes desafiou Gandalf) e o destrói. E aqui abro um parêntese para comentar sobre a aparição de Peter Jackson, ele é o tripulante do navio corsário que é acertado por uma flecha de Legolas.

Falando um pouco sobre figurino e maquiagem, as equipes responsáveis por essas áreas foram muito além do esperado. É correto que nos filmes anteriores o trabalho nesse campo foi excelente, mas aqui se destaca ainda mais pela variedade de povos e raças presentes em cena. A pintura dos homens que guiam os olifantes, os Haradrim, é uma pintura de guerra excepcional, que complementada pelos acessórios que usam, os torna ainda mais assustadores. Sobre a maquiagem de Bilbo, percebam como ele foi envelhecido de forma crível e totalmente aceitável ao final do filme, em nada se parecendo com o hobbit faceiro do primeiro longa, onde “amparado” pelos poderes do Anel, não envelhecia da mesma forma que os outros hobbits. Às vezes me pergunto o que teria acontecido a Bilbo caso ele tivesse continuado de posse do Anel por mais uns 50 anos, por exemplo. É certo que ele continuaria a envelhecer lentamente como antes, mas será que começaria a se deteriorar física e psicologicamente como Gollum? Divago.

Comentando sobre as atuações, acredito que todos os atores, sem exceção, tiveram grande importância nesse filme, todos trabalharam extremamente bem, mas alguns, por motivos óbvios, se sobressaíram aos outros, como é o caso de Viggo Mortensen, já que seu personagem está em plena ascensão neste filme, assumindo seu posto de rei, e que mesmo diante das dificuldades (como a iminência da perda de seu grande amor, Arwen) não deixou de acreditar que uma vitória era possível. O ator desempenha o papel de Aragorn com dedicação total, chegando a trabalhar a voz para cantar a canção ao final do filme.

Ian McKellen está magnífico como Gandalf, pois se antes ele já se destacava, agora ele está formidável, o carisma e força do ator se sobressaem em seu desempenho. Sean Astin cresceu muito também em seu personagem, visto que Sam é indispensável para o sucesso da demanda. Orlando Bloom, como sempre, entrega cenas emblemáticas com Legolas, como a que domina um olifante neste filme. Não vou me ater a falar de todos, mas como comentei, quanto às atuações, estão todos de parabéns.

Outro personagem que julgo necessário destacar é Boca de Sauron, que aparece somente na versão estendida conversando com Aragorn diante dos Portões Negros. Essa cena permite um melhor entendimento da cena seguinte, onde Aragorn ao se virar para os amigos, quase em lágrimas e antes de ir de encontro aos orcs, diz: “Por Frodo!”.

Encerrando em uma rima visual com o início de A Sociedade do Anel, onde também podíamos visualizar o Condado com seus campos verdes e flores, O Retorno do Rei simboliza o fechamento de um ciclo, o fim de uma etapa que foi cumprida. Os acontecimentos que vierem a partir daí serão parte de outra história, e para aqueles que participaram desta, as coisas nunca mais serão as mesmas.

   

Sinto saudades da Terra-média e de seus magníficos personagens. Eles ficaram lá em seu tempo, cada um seguiu seu rumo ao final. E podemos revisitá-los cada vez a que assistirmos aos filmes, mas nada voltará a ser como foi quando os encontramos pela primeira vez, lá no início. Aqui se encerra nossa jornada ao lado desses personagens, mas a obra do professor Tolkien é vasta, e sempre permitirá que viajemos aos mais diversos locais e eras da Terra-média. Sempre que sentirmos vontade de fazê-lo. E para felicidade dos fãs desse universo maravilhoso, poderemos viver mais uma nova aventura, e novamente levados por Peter Jackson, que está dando vida a O Hobbit, que em breve veremos nos cinemas.

Poltronas 

5

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