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O Mestre

Enviado por Julia em qui, 01/31/2013 - 21:26

 

Estragando um dos pôsteres de O Mestre, há uma frase óbvia referente ao filme estar ligado à polêmica cientologia. Sem dúvida, ele faz referência a alguns pressupostos da religião (ou culto) como a viagem no tempo, as vidas passadas e as curiosas técnicas de análise. Porém, o filme pode também tratar de tantas outras crenças que estão despontando em pleno século XX, um século de revelações escabrosas sobre igrejas convencionais (como a católica) que causou, em diversos fiéis, a busca por novas fés. A partir daí, o longa de Paul Thomas Anderson consegue retratar a facilidade que essas religiões têm para “recrutar” frágeis indivíduos que buscam não necessariamente a salvação, mas algum tipo de facilidade de enquadramento em uma sociedade que muitas vezes os rejeita.

Retratado nos anos 50 – a década em que a cientologia surge - o filme mostra Freddie Quell, um frágil indivíduo que soma à sua curiosa existência traumas vividos na Segunda Guerra Mundial. Com diversos vícios, Freddie sofre dificuldade em se adequar à sociedade. É filho de uma mãe psicótica, internada em um hospital psiquiátrico. Ele fracassa em diversos trabalhos, e vive em uma solidão que só seria suportável devido ao seu modo de encarar a realidade. Joaquin Phoenix, excelente, dá vida à loucura e ao sentimento de isolamento de Freddie Quell de uma forma bastante intensa, sendo, sem dúvida, o nome destaque do novo longa de P. T. Anderson.

Quell, perdido, após mais um fracasso, acaba chegando no Iate em que Lancaster Dodd (Philip Seymour Hoffman) e sua família se encontram para comemorar o casamento da filha do patriarca. Lá, ele estabelece uma relação rápida com o homem, devido a sua sinceridade, que Dodd encara como uma ingenuidade quase selvagem. É curioso notar que o lado "animal" de Quell chama a atenção de Dodd, estabelecendo a ligação entre os dois, pois ele é um indivíduo que o personagem de Hoffmann usa como cobaia de sua religião, como uma chance de provar que suas crenças, carapuçadas de ciência, são capazes de salvar um homem de seu terrível lado "animal". Freddie parece simplesmente não se encaixar, e é possível perceber isso pela sua postura, que parece constantemente cansada. Corcunda, falando baixo e com as mãos na cintura, ele parece estar sempre deslocado de situações comuns, mostrando sua dificuldade de adequação.

Quando Dodd e sua esposa Peggy (Amy Adams) percebem que não há modo de reverter o estado psicológico de Quell, desistem dele, deixando-o a sua própria sorte. Quell, enquanto aguenta, estabelece uma espécie de adoração com O Mestre - Dodd - que o tira de uma sociedade deslocada encaixando-o em um grupo que aparentemente o aceita. Aparentemente, pois até mesmo dentro do grupo, o comportamento estranho de Quell é questionado. Mas este último acredita (ou quer acreditar) tanto nos tratamentos dados por Dodd, que ele mesmo tenta aplicá-los em uma mulher com a qual tem um rápido relacionamento.

Phillip Seymour Hoffman assume o papel de líder como Lancaster Dodd, tentando ser gentil, positivo e ao mesmo tempo incrivelmente persuasivo. Apesar de se mostrar bastante sensível e delicado com as pessoas que aceitam os seus dogmas, quando interrogado, rapidamente explode, mostrando-se uma pessoa não dialogável no momento em que os fundamentos de sua religião/culto sofrem tentativas de questionamento. Durante a cena que a frase “Can you imagine” é questionada, o personagem rapidamente perde a compostura por simplesmente não saber explicar o porquê de ter trocado o termo, tentando arrumar alguma explicação que sirva naquele momento. Talvez seja por isso que ele tenha, de certo modo, se identificado com a personalidade de Quell, já que este perde a compostura diversas vezes, destacando as que o personagem de Phoenix agride fisicamente opositores das ideias de A Causa. Mas apesar disso, o personagem de Hoffmann lida com Quell constantemente como um animal, ou quando muito, como uma criança (já que se considera uma pessoa mais controlada). Amy Adams é a doce e persuasiva esposa de Lancaster, Peggy Dodd. Aparentemente uma esposa comum dos anos 50, sua opinião se mostra muito mais influente no personagem de Hoffmann do que imaginamos, tornando, assim, cada pensamento de Peggy importante para o futuro da trama.

A trilha sonora de Jonny Greenwood, desempenhando outro excelente trabalho desde Sangue Negro, cria uma conexão com a personalidade do protagonista (Phoenix). Ela é desconfortável e dissonante, e causa um sentimento de tensão durante cenas que nem são possivelmente explosivas. Além disso, logo que Quell arranja um emprego – após a volta da Guerra e a ida ao psicólogo que alega que eles passarão por dificuldades devido ao afastamento da vida cotidiana – é possível ouvirmos a música “Get Behind me Satan” no plano sequência em que Martha (Amy Fergurson) mostra um casaco para possíveis compradores em uma feira. A canção demonstraria um possível sentimento do protagonista de recomeçar, deixando os males passados para trás.

Conduzida com firmeza e sensibilidade, a história do filme de P. T. Anderson não quer simplesmente fazer uma ligação com o surgimento da cientologia ou de qualquer outra religião/culto que cative a mente de fiéis. Mas sim, mostrar como indivíduos com imensas fragilidades, construídas pelas circunstâncias ou não (no caso de Quell, ambos os casos), tentam buscar conforto e soluções para suas perdidas vidas em novas formas de fé. E essas formas muitas vezes fazem promessas de salvação que simplesmente não podem resolver, como no caso das sessões promovidas pela Causa. Graças ao talento de Anderson, a complexidade tanto dos indivíduos como da própria Causa atinge muito o espectador, fazendo, em certos momentos, que de fato torçamos para que a cura do personagem de Phoenix realmente aconteça, pois estamos nos identificando com a situação (mesmo que ela esteja em um passado remoto para nós). Afinal de contas, fora os poucos que foram criados sem qualquer tipo de noção religiosa na vida, quem nunca fez um pedido que não foi atendido? Quem nunca “teve fé” em promessas jamais cumpridas?

Poltronas 

5

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