Comentar

imagem de Ghuyer

R.I.P.D.: Agentes do Além

Enviado por Ghuyer em sex, 09/27/2013 - 13:48

R.I.P.D.: Agentes do Além (R.I.P.D, EUA, 2013) é o típico filme que alguns tendem a detestar por não ser aquilo que poderia caso tentasse. Sim, a frase soa estranha e pode até não fazer sentido a princípio, mas cumpre seu papel. R.I.P.D. é bem assim: soa um pouco estranho, não faz muito sentido, mas cumpre sua proposta de diversão descompromissada.

Adaptação dos quadrinhos criados por Peter M. Lenkov, o novo filme do diretor alemão Robert Schwentke acompanha o policial Nick (Ryan Reynolds) que, depois de morto em ação, é convidado a trabalhar no R.I.P.D., que é o departamento policial do pós-vida. Os melhores policiais e detetives e afins que morrem passam a integrar esse departamento, cujo propósito é capturar os chamados “desmortos” (deados, no original), que são as almas que se recusam a aceitar que morreram.

Talvez, e aí concordo com a reclamação, o problema inicial do filme seja iniciar a investigação que permeará o resto da narrativa de modo muito aleatório (e muito rápido), quando o nosso protagonista ainda nem havia se acostumado com a ideia de estar morto. Nick simplesmente pergunta a seu parceiro Roy (Jeff Bridges, excelente) o porquê de não investigar um detalhe a princípio descartado pelo veterano. A atitude de Nick é o que qualquer um com algum bom senso faria, e torna-se difícil de aceitar que um funcionário centenário do R.I.P.D. jamais a considerasse. E, pela fala do personagem de Bridges, pressupõe-se que investigações não fazem parte da rotina do departamento de modo geral, o que funciona brevemente como uma piada, mas enfraquece a construção das regras daquele universo.

Paradoxalmente, um dos méritos do roteiro de Matt Manfredi e Phil Hay reside no fato de não tentarem dar grandes explicações sobre os como e por que das particularidades que regem a lógica do mundo fantasioso em que a história se passa. A explicação de Proctor (Mary Louise Parker) sobre a necessidade do R.I.P.D. é o que define o tom do filme, que aceita certos absurdos em nome da diversão e deixa de lado discussões filosóficas sobre a possibilidade real de tudo aquilo. Por exemplo, o visual dos desmortos ser acionado por comida indiana não faz o menor sentido e ninguém sabe explicar porque, mas a graça está justamente nesse caráter nonsense. Os detalhes essenciais que regem o universo fabulesco da trama encontram-se bem pontuados na narrativa, quase todos comentados pelo divertidíssimo Roy, que é encarnado com aquele carisma que Jeff Bridges tem de sobra, responsável pelos melhores momentos do filme todo. Dessa forma o absurdo visto ao longo na narrativa torna-se compreensivo, mas nem por isso menos divertido em seus excessos (a perseguição ao desmorto gordão é o melhor exemplo).

A trama desenvolve-se sem grande mistério, sem tentar ser mais do que é, porém sendo suficientemente envolvente para ganhar nossa atenção. Há pistas e recompensas ao longo do filme que são divertidas de encontrar, embora algumas delas suscitem perguntas sem resposta (por exemplo, como determinado personagem tomou posse daquele artefato que lhe garante o disfarce?).

Em sua segunda adaptação de quadrinhos, consecutiva ainda por cima, o versátil diretor Robert Schwentke repete aqui a mesma direção dinâmica que garantiu o sucesso de seu filme anterior, RED: Aposentados e Perigosos. Ao invés de assassinos profissionais aposentados, Schwentke agora lida com policiais mortos atuando no pós-vida, mas o espírito e a atmosfera do projeto são quase os mesmos. Tanto o tom do humor quanto o visual de R.I.P.D. lembram o de RED em diversos momentos. Referencial mídia de origem da história, as HQs, Schwentke mostra mais uma vez possuir uma vasta noção estética, trabalhando a direção de arte de Alec Hammond na construção de cenários que mesclam o absurdo (o cofre da delegacia) com elementos absurdamente banais (a delegacia em si), criando assim um ambiente estranho e ao mesmo tempo familiar, que ajuda a denunciar o tom irreverente da história. Da mesma forma, para ecoar à estética cartunesca do design de produção, a fotografia de Alwin M. Küchler investe em uma paleta de cores fortes e em movimentos de câmera fluidos para as sequências de perseguição, onde a montagem de Mark Helfrich, aliás, faz um belo trabalho em ordenar as cenas de modo compreensível e envolvente, com destaque para o momento em que diversos carros andam a mil enquanto prédios desabam ao lado.

Sim, as semelhanças com MIB são incontáveis, e o plano que apresenta o QG do R.I.P.D. é uma referência clara ao excelente filme dirigido por Berry Sonnenfeld em 1997. Infelizmente, aqui falta algo que Homens de Preto tinha em grande instância: um protagonista interessante. Para começo de conversa, dentro do próprio conceito da história, não há justificativa para o protagonista de R.I.P.D. integrar o R.I.P.D., visto que não passava de um policial comum, sem grandes méritos e, aliás, com algumas falhas. Mesmo ignorando esse detalhe, não há nada que o Nick vivido por Ryan Reynolds faça que nos conquiste. E não é culpa do ator, pois Reynolds tenta de tudo para dar maior cobertura dramática ao personagem, que infelizmente é vazio. A sorte é que temos Jeff Bridges ali do lado o tempo todo, em alguns momentos Mary Louise Parker, que dá vida (ou morte?) à curiosa diretora do departamento do pós-vida de forma intensa e divertida, e por fim o ótimo Kevin Bacon, que cria um vilão mais legal que o herói, porém tão mal desenvolvido pelo roteiro quanto.

Os efeitos visuais alternam entre o satisfatório e o deficiente, e a trama possui sua parcela de clichês que poderiam facilmente terem sido contornados, além de alguns furos. Mas no geral o filme cumpre sua função de diversão descompromissada, e garante boas risadas.

Poltronas 

3

Plain text

  • No HTML tags allowed.
  • Endereços de páginas de internet e emails viram links automaticamente.
  • Quebras de linhas e parágrafos são feitos automaticamente.
CAPTCHA
Esse desafio é para nos certificar que você é um visitante humano e serve para evitar que envios sejam realizados por scripts automatizados de SPAM.
CAPTCHA de imagem
Digite o texto exibido na imagem.