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300: A Ascenção do Império

Enviado por Ghuyer em sex, 03/14/2014 - 19:51

Quando eu fui na estreia do 300 do Zack Snyder no cinema, o GNC do Praia de Belas ainda ficava no térreo do shopping, ainda se fazia fila para entrar na sala, e as pessoas assistiam a porra do filme com celular desligado. Bons tempos aqueles. Exceto pelas filas. E o filme era bem legal. Uma narrativa simples e sisuda, porém estilizada visualmente até não poder mais, tudo para ficar igual aos quadrinhos do Frank Miller.

Agora eu vi 300: A Ascenção de um Império no IMAX, que fica no quarto andar de um shopping que nem existia quando os trezentos iniciais estavam chutando a bunda dos persas nas termópilas em 2007. Não é preciso mais fazer fila, porque os lugares são marcados, mas as pessoas agora assistem ao filme com a porra do celular ligado. Ruins tempos esses. Exceto pelo IMAX (enquanto existirem sessões legendadas). E o filme é bem legal. Uma narrativa que tenta ser complexa, mas é rasa e abobada, e um visual ainda mais estilizado que o do filme original, tudo para ser mais over e maior que antes.

O grande problema dessa continuação é o roteiro, como era de se esperar, e isso é notável logo nos primeiros minutos de filme, quando a Cersei Morena do Bem (a Lena Headey, pra quem não pegou a referência) faz uma narração enorme, brega, pseudofilosofal e expositiva demais até para os padrões de um blockbuster dessa geração Velozes e Furiosos que desconfia do QI de seus espectadores. Porém, o visual bacana do plano de fundo e a voz da atriz até dão um tom legal pra coisa, e o texto vagabundo assinado por um Kurt Johnstad e pelo próprio Snyder não chega a atrapalhar tanto. Juro que se esforçando um pouco dá até pra sentir aquele gostinho de epopeia, já que a narração inicial só se encerra depois de meia hora de filme (mas continua depois).

Teoricamente, esse 300 2 começa bem no fim do 300 1, mas quem narra agora é a mulher do falecido Leônidas, e não mais o Faramir Caolho (como acontecia no final daquele filme). Isso não faz o menor sentido. Mas tudo bem. Só que boa parte da narração da Rainha Gorgo (a viúva do Leônidas) também não faz o menor sentido (além de ser enorme, brega, pseudofilosofal e expositiva demais até para os padrões de um blockbuster dessa geração Velozes e Furiosos que desconfia do QI de seus espectadores). Mas ok. A gente releva isso porque, enquanto a narração se des(enrola), tem ou Atenas caindo aos pedaços numa espécie de previsão do futuro pessimista em câmera lenta ou o Herói Grego da Vez cortando, batendo, chutando, botando pra quebrar em câmera lenta num flashback mostrando o que aconteceu dez anos antes dos 300 serem traídos pelo corcunda lá.

Os persas tentaram muito dominar os gregos durante um tempo, mas Seiya e os outros não deixaram barato e mandaram eles de volta pro Irã todas as vezes. Primeiro foi o Imperador Dario, que falhou. E o filme começa com um flashback mostrando essa falha, que aconteceu na Batalha de Maratona, quando Temístocles, nosso novo protagonista, o saudoso Herói Grego da Vez, vence a batalha e mata Dario. Essa morte se repete umas três vezes durante o filme, pra ficar bem claro o que a Rainha Gorgo narra em mais de um momento também: Temístocles matou Dario e deixou Xerxes puto, então Temístocles deveria ter matado Xerxes e não Dario, porque Dario já estava velho e a raiva dele seria mais fácil de controlar do que a do filho, que ficou doido, raspou o cabelo, tomou banho em ouro líquido e ficou divando com brincos e piercings reluzentes por aí se achando deus do mundo. Somos obrigados a ouvir uma narração detalhada desse processo de superestimação semi-autoimposta do Imperador Persa. Afinal, a graphic novel na qual o roteiro tosco do filme se baseia se chama... “Xerxes”. Então a princípio a história deveria girar em torno do cara. Não é o que acontece. Mas pra deixar o Frank Miller feliz eles ficam uns 15 minutos só explicando como o Rodrigo Santoro ficou careca e com três metros de altura da noite pro dia.

Depois dessa encheção de linguiça, que só serve pra tirar parte do mistério legal que rodeava o Chefão do primeiro filme, o Temístocles começa a narrar pra explicar porque a comandante naval dos persas é tão tensa e perigosa e temível, e fica o filme em mais uns 10 minutos de narração expositiva demais até para os padrões de um blockbuster dessa geração Velozes e Furiosos que desconfia do QI de seus espectadores. Mais flashbacks aparecem pra servir de pano de fundo para a narração...

OK. Acho que deu para notar que, se conjuntos habitacionais fossem estruturados da mesma forma que a narrativa dessa continuação de 300, muita gente iria morrer esmagada pelos destroços dos prédios.

Apesar desse roteiro escrotérrimo (até o título não faz sentido, já que o império referido não ascende porra nenhuma), o filme tem um saldo positivo no final, graças ao diretor Noam Murro, que se mostra competente no comando das cenas de ação que pipocam pelo filme. Ainda que, reduzindo a velocidade até mesmo de cenas tão banais quanto a de um cara serrando um pedaço de madeira, apresente uma fixação pela câmera lenta de um nível que deixaria Zack Snyder parecendo um cara normal, Murro demonstra um controle quase absoluto do que acontece em cena, e, junto com o diretor de fotografia Simon Duggan, cria diversos momentos de luta, batalha e morte empolgantes e divertidos. Tudo o que chamava atenção no filme original volta em maior escala. Às vezes a câmera lenta enche o saco, principalmente nas primeiras cenas, quando a mise en scène é meio confusa, mas no geral ela sempre dá aquele snyderismo indispensável ao filme e faz o espectador vibrar com o sangue virtual jorrando para todos os cantos. O 3D é um cocô, mas a fotografia de Duggan, fora isso, tá excelente. Inclusive, o cinegrafista é esperto ao usar sempre um tom mais escuro e tempestuoso que o utilizado por Larry Fong no filme de 2006. O roteiro pode ser ruim e falhar em ampliar a escala de relevância do primeiro filme, mas o visual dessa continuação é feliz em pintar a situação de modo mais urgente e destrutivo, acertando no uso das cores mais escuras ao longo do longa.

Essa aura de tensão também existe graças à trilha sonora chumbadora e absurdamente épica de Tom Holkenborg (que por algum motivo, que suponho ser heroína, prefere ser chamado de Junkie XL), e à atuação intensa de Sullivan Stapleton como o novo protagonista, Temístocles. Sim, o personagem nada mais é que uma versão pasteurizada do Leônidas vivido com tanta testosterona por Gerard Butler, mas Stapleton faz o que pode e sua expressão fechada e decidida dá conta do recado e deixa o público ligadão.

Mas esse 300: A Ascenção de um Império só funciona mesmo porque Eva Green desce o sarrafo em todo mundo que aparece pela frente e cria uma antagonista fodona e realmente motherfucker, botando o Xerxes do chinelo. Se até no insosso Sombras da Noite ela já mostrava que tinha pinta pra ser uma vilã bala, aqui ela chuta e balde, mostra as garras os dentes e os peitos e faz qualquer homem metido a macho se esconder embaixo da saia da mamãe.

Sua personagem é ensandecida e odeia os gregos com um ódio tão absurdo quanto justificável, que quase torcemos para ela em alguns momentos. Pena que a construção da personagem seja tão porca. Já que, embora falem e falem da sua experiência em combate marítimo, e falem e falem que ela é uma estrategista excelente, o máximo que ela faz enquanto comandante é ameaçar seus subcomandantes de morte caso falhem em vencer batalhas. Ela mesma nunca dá uma ideia de como vencer os gregos. Contudo, sua fama não é de graça, e a mina de fato se mostra uma exímia lutadora no mano a mano – e um dos pontos altos do filme é justamente o duelo final entre ela e Temístocles (que quase compensa a patética cena de sexo entre os dois, que só existe para a atriz, como toda boa francesa, mostrar os peitos).

Batalha vai e batalha vem – e um dos poucos acertos do roteiro é criar soluções criativas para os embates entre os dois exércitos sobre as águas do Egeu –, mas nem tudo é um mar de sangue e pedaços de carne desossada. Claro que o filme não podia deixar o melodrama de lado, e tem aquela parcela de momentos ridículos e chatos pra caralho, como o subplot patético do pai e filho em que um morre na frente do outro. Tipo a mesma coisa que acontecia no primeiro filme, só que ainda mais superficial e novelento e ao contrário. OPA SPOILER, mals ae (mas se você não tinha percebido que isso iria acontecer, não sinto muito). Tem também os diálogos “dramáticos” de alguns soldados que questionam continuar com a guerra, e daí Temístocles tem que sempre puxar aquele papo manjado sobre como é bom ser livre e lutar pela liberdade. E tem também o espírito espartano de querer se virar sozinho e dizer que não vai ajudar apenas para no final se dar conta de que, sim, vamos ajudar e surpreender o público e o império persa.

Parêntese e conclusão: ao contrário da vida no cinema, Artemísia não é comandante persa, e sim o nome daquele pedaço do mar em que a história se passa: Artemísio. Não saquei MESMO essa liberdade poética dos roteiristas, de chamar a mina de Artemísia, mas ok. Dá pra ver que 302 não é nem um pouco sério. Quer dizer, 302 tenta muito soar importante e sério, mas no final a parte legal e pela qual vale a pena ver o filme não é essa, não é a narração enorme, brega, pseudofilosofal e expositiva demais até para os padrões de um blockbuster dessa geração Velozes e Furiosos que desconfia do QI de seus espectadores (última vez, prometo). O motivo para conferir a oito anos atrasada continuação de 300 é a ação descerebrada, mas muito bem bolada, o sangue jorrando e os membros decepados voando pelo campo de batalha. E a Eva Green maluca com os peitos de fora. Esses são os motivos. A graça é a destruição descompromissada. Tendo isso em mente, é um filme satisfatório e divertido pra caramba. O que não quer dizer que seja muito bom.

Poltronas 

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