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Getúlio

Enviado por Ghuyer em seg, 05/05/2014 - 11:45

Getúlio (Brasil, 2014) é uma surpresa. O cinema brasileiro vem abrindo espaço para cada vez mais filmes em cartaz, porém sofre com a quase onipresença da marca Globo Filmes, que invariavelmente batiza quase todas suas produções com uma mediocridade latente em busca do público domesticado pelas novelas imbecilizantes da Rede Globo. Assim, é difícil esperar que um filme estrelado por um ator tão global quanto Tony Ramos não sofrerá com esse estigma tão presente no cinema nacional, ainda que o filme em questão não tenha a mão da Globo Filmes por trás. Mas Getúlio foge desse estigma: é um filme muito bom.

Getúlio também é uma surpresa no sentido de ser de fato um thriller político sério e dedicado a investigar não só o contexto político da trama apresentada, mas principalmente o estado psicológico de seu personagem título. Pergunto quem lembra do último thriller político brasileiro. Alguém? O único filme do gênero que me vem à mente é Pra Frente Brasil (Brasil, 1982), que mesmo assim não se enquadrava exatamente no conceito de thriller. Talvez O Que É Isso, Companheiro? (Brasil, 1997) também caiba no balaio, mas, mesmo assim, são apenas dois filmes dentro de toda a cinematografia brasileira - três, se considerar Tropa de Elite 2 (Brasil, 2010). Getúlio é talvez o primeiro exemplar do gênero no melhor sentido do termo.

Os primeiros minutos de filme podem causar estranheza, visto que a abordagem estética empregada pelo diretor João Jardim vai contra o padrão esperado de uma produção nacional. A fotografia granulada, a câmera na mão, até o estilo da trilha sonora, tudo impõe uma urgência dramática com qual o público brasileiro não está acostumado a ver em um filme em que os personagens falam português. Alguns rostos conhecidos no elenco também ajudam a criar essa impressão. São atores que o tempo todo vemos interpretando os mesmos tipos estereotipados e que de repente surgem atuando de modo comprometido, dando vida a personagens críveis. À primeira vista, justamente por esse conhecimento prévio, é difícil se decidir se a performance intensa de alguém como Alexandre Borges está soando séria e respeitável, ou risível justamente em função da tentativa de seriedade fracassada. Felizmente, Jardim demonstra total controle sobre seu filme, e logo nos acostumamos às suas escolhas estéticas.

Getúlio Vargas foi ditador, populista, ditador de novo, então amado pelo povo, eleito democraticamente, em suma: ele era qualquer coisa que o mantivesse no poder. Rasgou constituições, assegurou direitos trabalhistas, teve flertes com o lado negro da II Guerra, criou a Petrobrás, foi de um extremo ao outro, atuando horas como filho da puta, horas como salvador da pátria. Esse esquema durou cerca de duas décadas, e até hoje Vargas foi o homem que por mais tempo ficou no comando do país. O filme que leva no título o nome do maior presidente que nossa nação já teve dá conta de mostrar o que se passou nos últimos dias de sua vida. A narrativa percorre o intenso período que se sucedeu desde o atentado ao jornalista Carlos Lacerda (Alexandre Borges), maior inimigo de Vargas (Tony Ramos), até o fatídico suicídio desse, duas semanas depois, em 24 de agosto 1954.

O roteiro assinado por George Moura é incrivelmente competente em estabelecer a instabilidade política que já rondava o Presidente naquela época, logo situando o espectador dentro do caos e da urgência da situação. Aos poucos a investigação policial avança, a lista de suspeitos aumenta, e por mais que o roteiro seja claro ao inocentar Vargas quanto a seu envolvimento no atentado de Lacerda, o discurso do filme jamais deixa de citar as falhas que o personagem cometeu no passado.

Alexandre Borges de fato soa um pouco estridente, mas isso se deve mais ao pouco desenvolvimento de seu personagem e à falta de uma explicação do porquê de sua rivalidade com Vargas ser tão grande. O ator faz que faz o que pode com o pouco tempo em cena.

Por outro lado, estando no eixo central da narrativa, Tony Ramos foge completamente do estigma das novelas que fizeram seu nome, e entrega uma atuação digna de nota. Lembrando fisicamente o então Presidente do Brasil graças a uma primorosa maquiagem, Ramos cria talvez o personagem mais marcante de sua carreira. Seja através da fala calma e calculada, ou do gesto decidido, Ramos pinta um Getúlio Vargas complexo cuja falta do sotaque gaúcho mal se deixa notar. É notável como o ator expressa apenas através do olhar todo o peso da responsabilidade que repousa sobre os ombros do personagem.

Cada vez mais encurralado pela investigação, que pode até não incriminá-lo, mas irá certamente descreditá-lo como líder competente, o Getúlio de Tony Ramos se mostra aos poucos mais resignado com a situação, embora jamais deixando o orgulho de lado, tanto que este fato é o que o leva a tirar a própria vida. Quando comenta com a filha (Drica Moraes) sua inclinação à renúncia da presidência, nota-se que ele não acredita nas próprias palavras, e mais tarde essa posição fica clara quando afirma que jamais o tirarão com vida do Palácio do Catete.

Aliás, dois aspectos inteligentes do roteiro: 1) os pequenos momentos espalhados na narrativa que dão dicas do plano de Vargas em se suicidar (como quando pergunta ao filho, médico, onde fica o coração), assim desenvolvendo o estado psicológico do personagem com cuidado, evitando retratar o suicídio de forma superficial; 2) a decisão de concentrar a maior parte do filme dentro do Palácio do Catete.

Remetendo invariavelmente ao excelente A Queda! As Últimas Horas de Hitler (Der Untergang, Alemanha, 2004), tanto temática quanto visualmente, o Getúlio-filme sufoca o Getúlio-personagem dentro das paredes do Palácio onde remanesce o restante de seu poder, até finalmente não haver mais nada: nem poder nem espaço para viver. João Jardim é consciente dessa lógica e, junto com o excelente diretor de fotografia Walter Carvalho, procura sempre retratar o protagonista pressionado fisicamente (pelas paredes, pelos móveis), em uma bela e eficiente metáfora para a pressão psicológica oriunda da oposição realizada pelas frentes políticas, militares e populares, indignadas com as intermináveis denúncias de corrupção subsequentes da investigação policial realizada para desmascarar os responsáveis pelo atentado a Carlos Lacerda.

Nunca fica exatamente claro de quem partiu a ordem primeira, mas o roteiro utiliza esse mistério em seu favor, intrigando o espectador, complicando a trama (sem deixá-la confusa) e o colocando para pensar: no mundo cinzento da polícia nada é tão simples a ponto de apontar apenas um nome como culpado. Refletindo de forma inegável o cenário atual do nosso país, o filme de João Jardim tem aí seu maior mérito. Todo bom filme também é um documentário de sua época. Raios, até filmes ruins são bons documentários da época em que foram feitos. Pega o 300 de Esparta de 1962 e nota-se obviamente uma alegoria sobre a Guerra Fria entre EUA e Rússia. Assim, espero que, daqui alguns anos, professores de ensino fundamental e médio passem o BluRay de Getúlio para seus alunos, buscando, nessa atividade, não só o estudo sobre o personagem título, mas uma discussão sobre o que acontecia com o país no tempo em que o filme foi feito.

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