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Jogos Vorazes: A Esperança - Parte 1

Enviado por Ghuyer em seg, 12/29/2014 - 02:07

Quando o primeiro filme da franquia adaptada da trilogia literária da Suzanne Collins foi lançado, cheguei a ir ao cinema um tanto ansioso, já que muitos amigos, mesmo os não-leitores, estavam comentando que era “muito muito legal”. Expectativa é uma merda. Achei o filme bem mais ou menos, e minha decepção com Jogos Vorazes só cresceu com o tempo, tanto é que desisti de ir ver a continuação no cinema. Porém, graças ao Netflix* amigo, decidi ver o Em Chamas poucos dias atrás. Gostei e decidi encarar o Mockingjay na telona.

 

 

E qual não foi minha surpresa ao constatar a superioridade desse terceiro capítulo em relação aos anteriores? Nem parece a mesma franquia. Se o segundo filme já demonstrava uma melhora considerável se comparado ao fraco primeiro, esse terceiro leva a narrativa de Jogos Vorazes a outro patamar de qualidade dramática.

 

A começar, talvez, por não haver mais a função dos tais jogos, que eram um dos conceitos mais difíceis de aceitar na série. Forçados e absurdos demais, tiravam a força das boas ideias de crítica midiática que a trama tentava trazer. Portanto, subtraindo esse detalhe da equação, o embate entre os Distritos e a Capital torna-se mais visível e urgente, e as discuções sobre mídia e política ganham maior base dentro da trama, soando menos artificiais (embora aqui e ali o roteiro extrapole um pouco). Obs: eu sei que toda a moral da série é ser em função dos ditos ‘jogos vorazes’, mas a história fica muito mais legal sem eles.

 

Outra questão que chama a atenção, positivamente, é que o filme de fato toma tempo para desenvolver seus personagens e as relações entre eles. E, para isso, ajuda o ótimo elenco. Woody Harrelson está coerentemente mais contido como um Haymitch sóbrio, Elizabeth Banks mantém a máscara social de Effie (agora sem suas maquiagens) com mais delicadeza, Donald Sutherland surge ainda mais intimidador como o Presidente Snow (o sorriso em sua última aparição é assustador); e Julianne Moore faz da Presidente Coin uma líder cautelosa, ao mesmo tempo destemida e ciente de quando recuar, que vai conquistando seu povo (e o espectador) à medida em que escuta os conselhos de retórica de Plutarch, especialista em propaganda que é vivido com a versatilidade sublime do falecido gênio Philip Seymour Hoffman; já Liam Hemsworth consegue impor humildade e altruísmo em Gale, personagem nobre que sempre é relegado a segundo plano - e só aí os roteiristas Danny Strong e Peter Craig já mereciam uma caixa de Ferreiro Rocher, uma vez que não cedem às tentações de fazer o personagem reagir de modo infantiloide à incerteza sentimental de Katniss, que se encontra dividida entre este e o Peeta de Josh Hutcherson, que graças aos deuses tem uma participação significativamente menor nesse filme.

 

Por fim, encabeçando essa lista de nomes talentosos, Jennifer Lawrence encarna Katniss com uma energia contagiante, e merece aplausos pela segurança com que passa pela tempestade emocional que a protagonista enfrenta ao longo desse terceiro filme. Embora corra menos perigo em termos físicos que antes, a protagonista agora é emocionalmente torturada com força redobrada, e J. Lawrence representa isso muito bem, tanto no tom de voz sofrido (ou raivoso), quanto nos olhares melancólicos (ou determinados). Aliás, digna de nota a força de sua atuação em dois momentos específicos: quando tenta fingir raiva e determinação para a gravação de um vídeo, e quando experimenta esses sentimentos de verdade momentos depois, em campo de batalha. O contraste das duas cenas é atestado do talento de J. Lawrence, e da verossimilhança que a direção de Francis Lawrence almeja acalçar - e alcança na maior parte do tempo.

 

Aqui em A Esperança - Parte 1 quase não há cenas de ação, e confesso que não senti a menor falta delas, já que as poucas cenas movimentas são incrivelmente bem coreografadas e montadas, dando conta de passar a tensão e o terror necessários para o desenvolvimento da atmosfera cada vez mais sombria que a história vem tomando. Contribuem para isso a direção de arte (Philip Messina) e a fotografia (Jo Willems), que tornam a ambientação dos cenários mais calcada no real: menos coloridos, mais sujos e acinzentados.

 

Mas é mesmo a direção de Francis Lawrence o verdadeiro diferencial. Mostrando mais coragem (e/ou mais liberdade criativa) que todos os filmes da Marvel juntos, F. Lawrence acompanha os rebeldes em campo de batalha sendo alvejados sem dó nem piedade pelos stormtroopers peacekeepers. A câmera corre junto com o povo oprimido que se revolta. Vários caem, vários são metralhados, e para falar a verdade a maioria morre. E o filme mostra tudo. Não bastasse o Distrito 12 destruído, com pilhas de corpos carbonizados aparecendo logo nos minutos iniciais, A Esperança também retrata friamente as consequências de uma guerra em ação: gente morrendo para todos os lados.

 

Porém, nem tudo são rosas. O roteiro rateia feio em alguns pontos, como na corrida contra a contagem regressiva em determinado momento, quando pessoas precisam passar por uma porta: cai em todos os clichês existentes para sequências do tipo, e mais aborrece do que gera tensão. Além disso, atração que Katniss sente por Peeta mais uma vez não convence, menos por falta de tentativa da atriz (que se esforça) do que pela total inexistência de personalidade do sujeito, que em nenhum momento da franquia mostrou a que veio, e que não é aqui que conseguiu fazer algo diferente. Aliás, o maior furo da narrativa do filme envolve Peeta, e se consolidaria em um spoiler do tamanho do mundo se fosse comentado sem aviso prévio, então estejam avisados: só leia o próximo parágrafo quem já viu o filme, leu o livro, ou está cagando para o que acontece no final - spoilers brutais.

 

Ao longo do filme, Peeta só aparece em um breve (e totalmente descartável) flashback e em propagandas transmitidas pela Capital, nas quais recita pronunciamentos pedindo paz e cessar fogo e o fim da guerra. À cada aparição, Peeta está mais magro, mais pálido, mais com cara de morto, o que é até coerente com o que acontece depois. Mas, pouco antes do terceiro ato do filme, em uma transmissão ao vivo, ele escuta a voz de Katniss (através da transmissão pirata do Distrito 13), e hesita. Sensibilizado, então, nos últimos segundos, antes de ser cortado do ar, ele avisa Katniss que a Capital está indo atacar o Distrito 13. Todos se mobilizam correndo e tal. Depois do ataque, o pessoal vai para a Capital tentar resgatar os Vitoriosos (incluindo Peeta). Conseguem. Voltam para o abrigo, e Katniss reencontra Peeta, que alucinadamente tenta estrangulá-la no momento em que a vê. Tem a explicação que ele sofreu uma espécie de lavagem cerebral para odiar Katniss e tentar matá-la. Reagir com agressão seria um reflexo a ouvir seu nome ou ver seu rosto. Dizem que estavam fazendo isso com ele há tempos. Aí é que tá. Então é absolutamente impossível aceitar a reação sensibilizada dele durante a transmissão, quando ouviu a voz dela e ficou emocionado. Seguindo a lógica temporal do filme, aquele momento não deve ter ocorrido muito antes de Peeta ter sido libertado. Ou seja, há um abismo de inverossimilhança aí. Uma pena. Teria sido indescritivelmente mais eficiente se ele tivesse sido morto no ar quando ouviu a voz de Katniss e titubeou em seguir o roteiro que deveria ler. Teria sido sublime, dramaticamente falando. E o bônus seria se livrar de uma vez deste personagem fraco, chato e descartável.

 

Outros detalhes problemáticos da história são: como o Distrito 13 conseguiu construir aquela base subterrânea gigante? Como conseguem mantê-la? Só eu lembrei de Matrix? Voltando ao Peeta, por que essa insistência de Katniss em dizer que “ele é que deveria ter sobrevivido”? De onde sai tanto peacekeeper? Como é o treinamento deles? - nenhum filme sequer tentou responder isso, que enxergo como uma questão essencial ao universo distópico retratado na série. E só existe o Presidente Snow de autoridade na Capital? Não há líderes militares ou outros políticos influentes? Snow faz tudo sozinho?

 

No entanto, apesar desses erros, o saldo desse terceiro Jogos Vorazes é certamente positivo. Até mesmo a divisão do último livro em dois (moda hollywoodiana maldita) não surgiu como um grande problema para a adaptação, que consegue construir uma narrativa sólida com início, meio e fim, e engatar um baita gancho para o capítulo final.

 

A franquia superou minhas expectativas dessa vez, me conquistando de forma definitiva com a belíssima canção “Hanging Tree”, que embala a sequência mais emocionante da série até agora, quando o coro de um enorme grupo de pessoas surge complementando a voz solitária de Katniss em meio a um raro momento de contemplação na jornada dessa personagem sofrida e admirável.

 

*A menção ao Netflix não foi patrocinada. Sou apenas eu fazendo publicidade gratuita para um serviço que eu gosto e que merece mais clientes.

Poltronas 

4

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