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Crimes Ocultos

Enviado por Ghuyer em sex, 05/22/2015 - 11:08

Além de ser mais um belo integrante da galeria de filmes com títulos traduzidos por marketeiros brasileiros embriagados, Crimes Ocultos (Child 44, EUA, 2015) também faz parte de um amontoado de raras adaptações cinematográficas de bestsellers que conseguem milagrosamente consertar pontuais grosserias presentes nas obras que as originaram, e ao mesmo tempo seguirem razoavelmente "fiéis" às mesmas. Infelizmente, apesar ou em função disso, o filme jamais atinge suas ambições, e permanece como um frustrado wanna be thriller na maior parte do tempo, visto que o livro Criança 44 no qual se inspira fracassa nesse mesmo quesito, embora ofereça um estudo de personagem interessante.

 

 

Dirigido pelo sueco Daniel Espinosa com uma cautela inédita em sua curta e inquieta carreira, o longa começa abrupto e rápido demais, resumindo de forma muito breve e apressada a juventude depressiva do protagonista. Porém, Espinosa parece logo encontrar o ritmo certo para a narrativa, e Crimes Ocultos entra nos eixos ao final do primeiro ato. A partir desse ponto, a história realmente funciona e nos intriga com facilidade, criando um rico retrato da delicada situação na qual o personagens estão mergulhado.

 

O grande problema reside no fato de os momentos iniciais da trama não serem tratados com a calma devida, tanto pela direção de Espinosa quanto pelo roteiro de Richard Price. As breves cenas de abertura no orfanato são soltas, sem desenvolvimento nenhum da situação. E o mesmo se dá logo em seguida, na confusa e pouco impactante cena de guerra, de suma importância para o estabelecimento das bases da narrativa, visto se tratar da apresentação daquele que tomará o posto de verdadeiro antagonista do nosso herói.

 

Pois, por mais que a propaganda do filme se foque na trama de investigação conduzida pelo protagonista em busca do autor dos tais “crimes ocultos” da tradução brasileira, no fundo a história de Crimes Ocultos se desenvolve muito mais em cima da rivalidade entre o policial vivido por Tom Hardy e seu colega invejoso, Vasili, interpretado de forma perfeita por Joel Kinnaman, em nada lembrando o parrudo e correto Robocop para o qual emprestou a voz e parte do corpo ano passado.

 

Ainda que vítima do impulso hollywoodiano em fazer estrangeiros falarem inglês com o sotaque da nacionalidade a qual estão representando, Tom Hardy vive o protagonista Leo Demidov com sua habitual competência, e faz o possível para transparecer a drástica mudança psicológica que o personagem sofre durante a história. Aliás, é admirável que Hardy mude até mesmo sua postura ao longo do filme para simbolizar a mudança mental de Leo. Noomi Rapace também merece elogios pela forma como compõe Raisa. Ao utilizar um tom de voz brando e um olhar determinado, a talentosa atriz sueca jamais surge como o estereótipo da donzela em perigo, e, pelo contrário, se mostra como a parceira ideal para o marido que, de servo convicto do regime soviético, passa gradualmente a ser um questionador severo da mentalidade que guia a política de seu país. Esta mudança de ponto de vista do protagonista, por sinal, junto com a interação de Leo e Raisa, é o grande trunfo de Crimes Ocultos, muito embora o filme de certa forma falhe em retratá-la em sua profundidade, vide o início apressado da narrativa, que esquece de apresentar o protagonista e seu modo de pensar com o devido cuidado.

 

Paralelo e paradoxal a isso, a presença do assassino perseguido por Leo é inserida com cautela e tensão crescente no começo, porém com pressa e desleixo no final. Aliás, toda a evolução da investigação a respeito do assassino se passa de modo muito simples e fácil a partir do momento em que o personagem do sempre excelente Gary Oldman é abordado por Leo. Enquanto, no livro, o trabalho de investigação se mostrava mais desgastante e longo (ainda que essencialmente simples), no filme ele se dá de modo breve e pontual demais. Todavia, embora simplifique além do necessário essa parte da história, que já não era muito criativa no livro, o roteiro de Richard Price é esperto em alterar a conclusão da mesma. Nas mãos do escritor Tom Rob Smith, Leo precisava realizar uma fuga digna dos momentos mais absurdos da franquia 007. Price, por outro lado, simplifica a situação de forma coerente e acertada, evitando um momento que seria forçado demais no cinema.

 

Portanto, enquanto trama de mistério e investigação somente, o filme fracassa tal qual o livro que foi sua fonte de inspiração. No entanto, Crimes Ocultos aposta a maior parte de suas fichas, com razão e acerto, no drama e na situação inusitada de seus protagonistas, ambos muito bem trabalhados por um roteiro que, no processo, também faz um competente retrato da paranóia que abundava no regime soviético de Stalin.

Poltronas 

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