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Sob o Mesmo Céu

Enviado por Giordano em dom, 06/07/2015 - 00:06

Em determinado momento de Aloha (que no Brasil recebeu o coerente, porém genérico título de Sob o Mesmo Céu), o personagem de Bradley Cooper afirma "Estou em falta desses genes românticos. Para mim, é só barulho". Essa citação parece explicar a fraca recepção dos recentes filmes do cineasta: para o público atual, acostumado com o cinismo, a ironia e a autoconsciência de nossa era, a ingenuidade e o otimismo de Cameron Crowe acabam passando por um ruído incômodo. É perceptível a dificuldade do roteirista em tentar convencer de que seu novo filme é mais do que isso, até mesmo para apreciadores do seu estilo. No entanto, há os momentos em que Crowe conduz a tentativa de maneira muito sincera e com muito apreço pelos personagens, e são esses momentos que talvez façam as sessões dos seus filmes valerem a pena, seja em obras primas (como Quase Famosos) ou em produtos mais irregulares (Compramos um Zoológico Tudo Acontece em Elizabethtown). 

Aloha é, sem dúvida alguma e na melhor das hipóteses, sua obra mais desajeitada. Entre as concessões feitas por Crowe para o estúdio e produtores que jamais acreditaram no projeto (ao menos é o que os vazamentos de e-mails da Sony no ano passado nos levam a acreditar, além das várias transformações de elenco, conceito e título), parece até natural que o resultado tenha sido um tanto problemático. Trata-se de uma comédia romântica assumida, com triângulos amorosos evidentes, situações muitas vezes óbvias, e um arco previsível. Os diferenciais do roteirista, no entanto, estão presentes: a atenção para a textura dos temas e da ambientação, a sensível construção dos personagens que povoam esse universo e a utilização da música como aspecto construtivo da narrativa.

No lugar do universo do rock'n roll, do mundo dos esportes e do zoológico, entra a gentrificação e a exploração geográfica dos terrenos do Havaí. Nas últimas semanas, veio à tona um burburinho que acusa o filme de whitewash (esbranquiçar) o povo Havaiano, principalmente pela escalação de Emma Stone como Ng, garota branca que orgulha-se do seu 1/4 asiático. Acredito que aqueles que acusam o filme disso ou não assistiram o filme e são apressados em julgar (um fenômeno bem comum nas redes sociais); ou, se assistiram, esforçaram-se para não compreendê-lo. Crowe usa a questão do imperialismo norte-americano sobre a região de maneira crítica, ainda que superficial.

As ênfases que sua câmera dá à bandeira do Havaí não são apenas planos de estabelecimento, mas também servem para chamar atenção para a sua configuração: a bandeira do Reino Unido se sobrepõe às listras do fundo da bandeira, indicando sua condição de colônia, sem autonomia. Boa parte dos conflitos do filme deriva da apropriação de terrenos havaianos para o lançamento de foguetes satélites, numa iniciativa militar e privada, articulada nas figuras do severo general interpretado por Alec Baldwin e do capitalista boa vida construído por Bill Murray. No meio disso, estão os oficiais vividos por Bradley Cooper e Emma Stone, que recebem a missão de dialogar e pedir a benção dos ativistas nativos da ilha, que se mostram resistentes à investida americana. É claro que esses conflitos culturais e políticos tornam-se secundários, ou mesmo terciários, em relação ao drama romântico dos protagonistas, e isso é parte do motivo pelo qual Aloha parece tão equivocado: a ambientação e os conflitos que dão suporte são bem mais ricos e melhor trabalhados que a narrativa principal, mas ganham menos atenção.

Estão lá várias visões sobre as tradições culturais e os mitos havaianos. Estão lá as práticas turistas de receber os colares típicos na chegada. E há a visão infantil de uma criança que enxerga as histórias quase como uma narrativa de super herói, e as projeta não no mundo havaiano, mas no estereótipo militar de Bradley Cooper.

Há também a visão de Ng, que está tão distanciada de seu imperceptível "1/4 asiático", que sente a necessidade de se auto-afirmar a todo instante, e de maneira superficial, como no momento em que chega em uma floresta e diz "esse lugar tem muita mana" na mesma entonação que uma adolescente que gosta de usar gírias antigas. Em certo momento, ela pede para uma banda local tocar uma de suas musicais tribais favoritas em um estilo específico, com uma empolgação tão juvenil que me lembra a Juno, de Ellen Page, desesperada por atenção, citando as referências pop dos anos 70 e 80.

Como quase todas as boas comédias românticas, Aloha se baseia em harmonia de opostos. É natural, portanto, que o Brian de Bradley Cooper se mostre com uma visão racional e cínica. Ele enxerga as tradições havaianas apenas como metáforas e reencenações para que esses povos possam afirmar-se socialmente, mas que no final da contas, os interesses se resumem a terras e tecnologia, assim como os do capitalismo selvagem.

Por fim, há a visão da própria tribo, que como não poderia deixar de ser, surge de maneira um tanto hermética. Falam pouco sobre o assunto, e quando falam, é com naturalidade ou através de música em seu próprio idioma. Crowe foge do estereótipo pitoresco ao trabalhar com não-atores nativos, filmar no próprio vilarejo e convidá-los a participar da equipe e do roteiro. O ator nativo Dennis Kanahele interpreta o líder da tribo, que aceita o casal no lugar e os recebe com hospitalidade, mas a comunicação entre eles nunca parece suficientemente efetiva, o que é ao mesmo tempo um problema e um mérito do filme: um mérito pois, tematicamente, é uma abordagem com muito potencial, mas é um problema pois essa jamais é a intenção do filme, o que faz com que seu personagem se mostre um tanto subdesenvolvido.

Na construção de seus personagens coadjuvantes, Crowe apresenta o mesmo talento de sempre. O marido ciumento criado por John Krasinski talvez seja o maior destaque, sem dizer quase nenhuma palavra. Seu nome é o Woody não por acaso, pois acaba rendendo uma bacana homenagem ao Annie Hall de Woody Allen em cena na utilização de legendas para exprimir pensamentos.  Bill Murray e Alec Baldwin se divertem com suas figuras: e se o segundo traz um bom alívio cômico, o primeiro consegue dar uma interessante tridimensionalidade ao "vilão" do filme, tornando-o o personagem mais interessante da narrativa. Uma pena que se repete a principal falha de Tudo Acontece em Elizabethtown: todos os personagens interessantes orbitam ao redor de um protagonista insosso (e novamente, um ator com o qual não simpatizo muito).

O uso da trilha sonora, elemento que sempre se salienta de suas obras, segue inspirado ao equilibrar a música pop e o tribal, mas nunca rende nenhuma cena icônica como a Tiny Dancer em Quase Famosos ou tão divertida quanto a Free Bird em Elizabethtown, apesar da melhor cena do filme ser uma dança espontânea de Murray e Emma. No entanto, função narrativa da música atinge aqui limites literalmente estratosféricos. Por incrível que pareça, o insólito conceito de bomba musical ou explosão sonora aparece pela segunda vez no cinema em 2015 (a primeira foi na apoteose da ficção científica distópica brasileira Branco Sai, Preto Fica). Se a tecnologia fonográfica sempre foi uma obsessão de Cameron Crowe (de vinis a telefones e gravadores de voz), aqui atinge o ápice numa espécie de um poderoso Deus Ex Machina.

Como era de se esperar de uma obra do autor, há a inevitável redenção do cinismo de Brian e sua transição para o romantismo com que Ng vê a vida. Aloha, mesmo problemático, equivocado e desconjuntado, ainda tem momentos em que é possível sentir o espírito do cineasta. No final das contas, Cameron Crowe continua a tentar, com ou sem sucesso, manter vivas as coisas aparentemente obsoletas: uma fita k7, as tradições misteriosas do povo havaiano, ou mesmo a ingenuidade de uma comédia romântica. 

Poltronas 

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