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Peter Pan

Enviado por Ghuyer em ter, 10/13/2015 - 17:04

Obs: essa crítica analisa especificamente o filme Peter Pan (Pan, EUA, 2015), sem maiores preocupações de comparar o filme com a história original escrita por J. M. Barrie ou com qualquer precedente adaptação cinematográfica da mesma.

Peter Pan é um filme simpático que tem um visual muito bonito e uma história interessante, mas que acaba caindo naquela armadilha clássica de quase qualquer trama que lide com um “Escolhido” determinado por uma “profecia”.

Partindo da ideia de mostrar os acontecimentos que antecederam o conto já clássico concebido por J. M. Barrie sobre o menino que não queria crescer, o roteiro de Jason Fuchs nos apresenta ao momento em que a mãe de Peter o larga na porta de um orfanato. Em seguida, pula 12 anos no futuro para mostrar a complicada infância da criança em plena II Guerra Mundial, em meio à blitz lodrina, para logo detalhar de que forma o pequeno chegou à Terra do Nunca… Ou seja, é um tanto surpreendente que a distribuidora não tenha decidido batizar o filme de “Peter Pan - A Origem” por aqui (depois de Planeta dos Macacos - A Origem, Sobrenatural - A Origem, e afins, por que não Peter Pan - A Origem, não é mesmo?). Mas o fato é que o roteiro de Fuchs consegue começar com o pé direito e, desde o mistério do sumiço dos órfãos da noite para o dia, ficamos intrigados com o que se passa em cena.

A resolução desse mesmo mistério já deixa umas perguntas sem respostas, mas ei, é uma fantasia, então tudo bem. Seguimos para a Terra do Nunca para conhecermos o brilhante vilão da história: um Hugh Jackman vestido de pirata de modo adequadamente exagerado, com roupas cheias de frufrus pretos e vermelhos. O rosto pálido enfeitado por uma peruca para lá de metida à besta completam o visual pitoresco do temível Barba Negra. Fugindo completamente de sua postura durona de Wolverine, Jackman cria aqui um vilão absurdo e malvado, porém pontualmente afetado e sarcástico que diverte sempre que aparece em cena.

 

Seu rival e protagonista da história, o principiante Levi Miller surge como uma boa revelação, e encarna Peter com segurança admirável, considerando a carga dramática pesada que a narrativa às vezes lhe exige. Rooney Mara(vilhosa) está bem como de costume, mesmo sendo uma caucasiana interpretando uma índia norte-americana, o que não faz o menor sentido, mas ok (na real, até há uma tentativa de justificativa temática para o casting de Mara, pois tanto os habitantes da aldeia apresentam diversas etnias, como a morte dos mesmos é retratada em explosões de tinta colorida, como se todos fossem parte de uma grande tribo global de humanos, reunindo ali todas as ‘cores’ da nossa espécie). E Garrett Hedlund pinta o jovem Capitão Gancho como um cara carismático e bacana, mas claramente mais interessado em si do que naqueles ao seu redor (o que já dá indícios do futuro embate homérico entre ele e Peter, que é o centro da história clássica do personagem, como concebida por Barrie). Por fim, Adeel Akhtar faz de Smiegel o grande alívio cômico do filme, tendo direito a alguns dos melhores diálogos do roteiro.

Todos esses personagens passeiam por um mundo fantasioso que pega conceitos e ideias emprestadas de todas (ou quase todas) as empreitadas cinematográficas já feitas em cima de Peter Pan e seus amigos, mistura tudo, e por fim entrega um cenário cheio de cores que consegue ser suficientemente próprio para chamar de seu. Méritos para a designer de produção Aline Bonetto, que já havia demonstrado seu talento para paisagens coloridas e lúdicas no maravilhoso Fabuloso Destino de Amélie Poulain, por exemplo. Seu trabalho em Peter Pan poderia muito bem lhe render mais uma indicação ao Oscar. E o mesmo pode ser dito sobre os figurinos amalucados da sempre competente Jacqueline Durran, parceira habitual do diretor Joe Wright, que consegue aqui misturar o sóbrio com o absurdo em todas as camadas do filme, desde o visual das freiras do orfanato até as roupas exóticas dos índios, passando pela vestimenta dos piratas, com especial destaque para o já citado manto de Barba Negra.

 

Claro que de pouco adiantaria tal esmero visual de cenários e figurinos se a câmera que fosse capturá-los não tivesse noção de como fazer isso. Mas estamos falando de um filme de Joe Wright, o cara responsável por três dos filmes mais elegantemente filmados em seus respectivos anos: Orgulho e Preconceito (2005), Desejo e Reparação (2007), Anna Karenina (2012). Nesse quesito, Pan de fato não decepciona nem um pouco. Junto a seu habitual diretor de fotografia, Seamus McGarvey, dessa vez aliado a John Mathieson, Wright passeia com classe pelo mundo de fantasia no qual se meteu, criando passagens maravilhosas em que a ação jamais é confusa, e a coreografia é sempre bonita, ainda mais sob as notas da belíssima trilha sonora de John Powell.

Porém, se o visual de Peter Pan mostra-se impecável, o mesmo não pode ser dito sobre seu roteiro. Depois de começar bem, o roteirista Jason Fuchs infelizmente acaba lançando mão de uma porção de clichês quase inescapáveis a histórias que giram em torno de um personagem que é tido como o Escolhido. A maioria desses momentos, como a origem dos pais da criança e o destino dos mesmos, é passível de ser relevada. São decisões pouco criativas, mas que não botam o filme para baixo, e conseguem tocar a história adiante sem grandes problemas. No entanto, Fuchs parece não ter se esforçado nem um pouco na hora de conceber um clímax aceitável para sua narrativa, de forma que o terceiro ato inteiro de Pan acaba se revelando um amontoado de bobagens decepcionantes. Muito pior do que a sequência de ação com caravelas voadoras que deve muito à franquia Piratas do Caribe - mas não chega perto da criatividade vista naqueles filmes - é o modo como a narrativa utiliza Peter para derrotar os vilões. No final, não há nenhuma explicação do porquê Peter Pan era tão relevante assim para derrotar Barba Negra e seus comparsas. Também fica muito a cargo da imaginação do espectador entender como o príncipe Fada conseguiu se apaixonar por uma humana em primeiro lugar, ou o contrário, já que os humanos parecem não conseguir entender o que as fadas falam, mas isso é detalhe. O que realmente não dá para aceitar é por que Barba Negra foi até seu tão ambicionado refúgio das fadas com apenas uma porção de sua tribulação e em apenas uma das suas incontáveis caravelas? Poucas cenas antes, haviam diversas naus piratas vasculhando a floresta atrás do acampamento indígena. E na hora de ir atrás das fadas, sua verdadeira busca, o vilão vai só com um barquinho? E por que matá-las, se é justamente o pó que elas produzem que ele precisa tanto? Extinguindo-se as fadas, uma hora o pó acabará definitivamente, não?

Enfim, esses são alguns dos furos que nem a cobertura do conceito de “história de fantasia”  é capaz de justificar. Não acabam de todo com o filme, mas certamente tiram dele grande parte de sua força e integridade. Mas é verdade que no geral Peter Pan tem de longe mais méritos que defeitos. E a conclusão da narrativa cria um bem-vindo final em aberto que merece uma continuação. O que aconteceu que levou Gancho e Peter a se tornarem rivais tão mordazes? Boa pergunta.

Poltronas 

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