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1080p

Enviado por Pedro em sex, 02/18/2011 - 22:15

 

No ano passado eu estive nos Estados Unidos. Em março. Fui visitar, junto com meu pai, meu irmão. Aproveitei a viagem e comprei um PlayStation3. Pensei comigo: eu amo videogames. Um ano praticamente se passou e direi que os maiores benefícios deste videogame não são sua capacidade de rodar jogos. Não me interpretem mal; jogos como God of War 3, Uncharted 2 e Little Big Planet são experiências no mínimo cinematográficas, com cenários monstruosamente delineados, liberdade de ação, imersão e customização. Mas como media player o PS3 é simplesmente fantástico! Mas isso é só um preâmbulo: o preâmbulo para chegar ao fato de que é muito bom ter um HD media player hoje em dia (não vou negar que é muito bom ter um PS3 também, mas isso é para uma outra hora).

Por que é bom ter um HD media player hoje em dia? Claro, seria bom ter um há um ano atrás também, mas é bom hoje em dia especialmente porque os blu-ray baixaram de preço. Recentemente adquiri todos os Harry Potter já lançados no Brasil – do Philosopher's Stone ao Half-Blood PrinceEnigna – cada um por menos de R$ 40. Também é bom porque com as velocidades de banda larga cada vez maiores (A GVT por exemplo nem disponibiliza mais 3Mb) é cada vez mais fácil baixar arquivos com qualidade cada vez maior.

Recentemente eu reassisti Nausicaä of the Wind Valley (de 1984) em HDTV. Pra quem não sabe, antes de falar do filme, vale fazer outro preâmbulo para falar sobre qualidade em arquivos de vídeo. A TV em HD, em seu máximo de qualidade, é 720p. Um blu-ray ou um game em FullHD (geralmente em mídia blu-ray) deve ser necessariamente 1080p (acho que tem apenas um canal na NET HD, o DiscoveryHD, que é FullHD, mas não tenho certeza). O arquivo em questão era uma versão HDTV em 720p. Admito que fazia tempo que eu não assistia esse clássico que inspirou a fundação do Studio Ghibli e toda a ótima fase de Hayao Miyazaki desde então (com filmes como Laputa: Castle in the Sky e a trilogia Princess Mononoke, Spirited Away – Sen to Chihiro no Kamikakushi e Howl's Moving Castle). Entretanto, foi como assistir o filme pela primeira vez. A riqueza de detalhes da animação evoca o outro sentido da palavra naïve tão em voga hoje em dia. Evoca o sentido de nudez de sentidos, de despreparo para lidar com uma imagem, som ou movimento.

Dias depois compramos o primeiro Harry Potter. Foi novamente como reassistir o filme. Primeiro aquelas expressões das mais comuns: “dá pra realmente ver o cabelo das pessoas, o tecido do qual as roupas são feitas”. Mas é mais que isso. Harry Potter and the Philosopher's Stone foi uma superprodução. Ainda está na lista dos dez filmes mais lucrativos da história (http://en.wikipedia.org/wiki/List_of_highest-grossing_films). A quantidade de detalhes que não chegam a nós no écran, como gostam alguns teóricos como Jacques Aumont, é simplesmente fantástica. Das botas de Hagrid a inocência dos efeitos especiais usados para criar o Chapéu Seletor. Do brilho das chamas na cena final contra o professor Quirrell/Voldemort que iluminam o quarto se você estiver assistindo no escuro (aos moldes das propagandas mais oitentistas) ao detalhe das peças de xadrez de bruxo.

É claro que um filme como Social Network (2010) não traz grandes coisas reproduzido assim. Filmes de época (abomino esse termo) ainda ganham um toque especial. Mas quem realmente sai ganhando com o advento da tecnologia de HD são mesmo os grandes blockbusters cheios de efeitos especiais (que adoro e são o cumprimento das promessas que hollywood fez pra mim na infância), geralmente baseados em livros ou comics. Durante as batalhas em Lord of the Rings: The Two Towers (2002), é possível discernir os orcs. É possível ver que cada um, dentro do escopo novo que se torna visível, é um personagem individual. As flechas que voam dos arqueiros élficos desenhando um curso nítido no ar. Em 300 (2006), a textura dos escudos (e não negarei, dos corpos esculturais dos atores) saltam da tela. O sangue negro – como na graphic novel de Frank Miller – aparece mais escuro do que a noite. Filmes divertidos, como Scott Pilgrim versus The World (2010) ganham vida e cor: as roupas, os figurinos, se tornam personagens principais. 

A tela branca e fosca do cinema – mesmo em salas de alta de qualidade – não é nada para o que uma TV FullHD pode dar em termos de qualidade.

Mas não, essa revolução não para aí. Que experiência é ver The Walking Dead, adaptação da rede AMC para a maravilhosa graphic novel de Robert Kirkman? Além do esmero na produção dos efeitos visuais – maquiagem, animatronics, CG – o que é a beleza das tomadas altas e longas, to movimento sanguinário e frio dos mortos-vivos? E em HD? Outras séries, como Fringe ou mesmo a série original de Star Trek (disponibilizada há apenas poucos meses em 720p na internet) se tornam experiências absurdas: a peruca de William Shatner salta da tela junto com as cicatrizes da acne de DeForest Kelley ou a sombrancelha mal tirada de Leonard Nimoy.

Voltando ao Nausicaä e ao escopo do cinema que aqui nos cabe, é preciso fazer justiça: não há uma animação que eu tenha assistido até agora em 1080p (ou mesmo algumas em 720p) que não seja como uma experiência totalmente nova. Ghost in the Shell (Kôkaku kidôtai, de 1995, do excelente Mamoru Oshii), Akira (de 1988 do Katsuhiro Ôtomo), Fantasia (de 1940!), Despicable Me (de 2010), Up (de 2009). Em Fantasia é até difícil de acreditar na qualidade quase insuportável do som e da beleza de animações feitas há meio século atrás.

Em certo sentido – e falo isso pensando em outros clássicos, principalmente os de Hitchcock, que estou assistindo, baixando ou no processo de comprar – é como se a tecnologia HD desvelasse segredos escondidos há meio século ou menos nas películas caríssimas do cinema clássico hollywoodiano. É como se esses números (720p, 1080p) fossem coordenadas em um mapa para os segredos cortinados no pátio de Rear Window (1952) ou na armadura-maleta de Tony Stark em Iron Man 2 (2010). E num sentido bem definido é o cumprimento da promessa de cinema em casa.

 

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