Tron: Legado Original

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Enviado por Pedro em dom, 05/08/2011 - 14:01

 

Meu gênero favorito em cinema – assim como televisão, quadrinhos e literatura – tem sido há muitos anos a interseção entre ficção científica e fantasia. Quando os dois se abraçam de forma deliciosa, ainda melhor. Esse foi o caso quando, ainda bem criança, eu fui espectador numa pequena televisão de tubo de 20 polegadas do espetáculo fantástico que foi Tron. Muitos anos depois foi aparecer algo que fosse, em qualquer sentido, superior ao espanto – chamaria de taumadzein até – que não vinha apenas dos efeitos especiais, mas também das frias – ainda que quentes – performances dos atores que pareciam, mesmo quando dentro da primeira versão da matrix, se tornarem fluxos de dados caminhando em seus destinos calculados.

28 anos. A minha idade, de fato. Apenas dois meses após meu nascimento, em maio de 1982, surgia esse filme. Obra do imaginário de Steven Lisberger? Não. O invernal desse ciberespaço nascido ainda cedo demais pra ganhar a alcunha de William Gibson não é da frieza de torres de CPU enfurnadas em subsolos de universidades ou imensos prédios de vidro de empresas transnacionais nem aquele que blocos de gelo impedindo acesso a terminais, servidores, empresas, segredos; a brisa congelante nasce da angústia de uma era. As cores desprovidas de um brilho real não são a luminescência dos neons de Time Square, não tem a ver com o lúdico, com o sonho. Flynn é a única força emocional que bate ali. O deserto se espraia além da Grade: a empresa, os colegas, todos amedrontados homenzinhos frente aos poderes esmagadores de suas próprias criações: o capitalismo e o Controle do Sistema.

Nos termos de Jean Baudrillard, é o deserto do real; realidade mais real que a nossa onde o homem aparece como o que quer representar – fria e calculada vontade de poder. Não há credo. A religião do usuário é não apenas mal-vista como proibitiva: proíbe que se adentre no universo político desse mundo. The Grid is about greed, diria Slavoj Zizek numa paráfrase do expurgo marxista de um mundo onde a operacionalização é mais importante, é o verdadeiro objetivo, antes da contemplação.

No primeiro Tron temos um fantástico e frio mundo quase infantil. Um mundo ao contrário onde os deuses reais são relegados à condição de mito, onde a hierarquização é simbólica: o líder é o líder pois assim é, não há construção – há não-sociedade, há sistema. Flynn adentra um confuso mundo no qual o homem é um artifício, onde a vida é programática, onde a violência, perda, morte são institucionalizadas. Onde o homem é o mito tecnológico da salvação, e não a máquina. Ali a armação, o Gestell heideggeriano não é um fenômeno, nem uma realidade: é o mote. O Dasein é o sentido programático de um mundo pré-pronto. Como uma imagem desfocada colorida artificialmente com cores neônicas, a Grade é a inversão marxista do mundo. Trabalho como alienação, labor como ofício segmentado. É um mundo desesperado como o nosso: por identidade.

Uma classe dominante esforçada em (re)construir sua própria identidade e o ativo identitário da sociedade que manejam e uma baixa classe desesperadamente buscando na religião – ainda que real – e no escape final dos jogos um sentido para uma existência esvaziada de framework e de objetivação. Lisberger consegue implantar em seu filme, muito através da despojada atuação de Jeff Bridges e da fria atuação de seus companheiros cibernéticos, todo o fluxo imaginário que permeia a socieadade. O expert tecnológico como o herói solitário, como o viajante português de Thomas More em sua Utopia, como o Lord Carisdall de volta de Icaria, de Étinne Cabet, o herói salvador que unifica a realidade material e imaterial, que junta o imaginário ao real numa narração off camera como um manual incansável. Antecipando a queda do muro – em 1984 – já está ali tratado a exaustão o esmagamento tecnológico e, mais do que isso, o próprio mundo pós-Guerra Fria onde

 

as distinções mais importantes entre os povos não são ideológicas, políticas ou econômicas. Elas são culturais. Os povos e as nações estão tentando responder à pergunta mais elementar que os seres humanos podem encarar: quem somos nós? E estão respondendo a essa pergunta da maneira pela qual tradicionalmente a responderam – fazendo referência às coisas que mais lhes importam1

 

Flynn é a vida pulsante dentro da máquina. Ele é “aquilo que subjaz assim na liderança”, o que “denominamos visão de mundo”2 - e que mundo é esse? É o mundo humano, do subjetivo, do equilíbrio problemático entre vontade de poder, subsistência e dor. E ela não escapa da visão que o próprio sistema tem em relação a si: pureza, controle, a possibilidade de felicidade plena e, nas palavras de J. Burckhardt (1973) é “a práxis social” que será “reorientada no sentido de trazer à vida a felicidade, plenitude e beleza do corpo e da alma, que, coordenadas”, formaram “um todo humano livre, harmonioso e individualizado”3.

O sonho deixado em suspenso no sorriso de Flynn ao descer do helicóptero como dono da ENCOM, é o de que o momento da tomada do lugar de Deus chegou. “Utopia cuja condição de possibilidade implica o dualismo, dualismo da alma e do corpo”, nos termos de Lucien Sfez (1996, p.14): fundamento de uma fantasia que já percorre quatro séculos – homem que gera, como Deus, através de seu conhecimento infinito, corpo e espaço infinito numa outra forma. Neste caso: isomórfico. A destruição da vida não humanizada, o Controlador do Sistema, monólito escarlate, liberta um mundo feito da imagem do homem.

Entretanto é em suspenso. Suspensão que para o espectador e para a pós-modernidade ultra-tecnológica dura quase 30 anos. E enquanto Flynn finalizava seu sonho de um escritório secreto atrás de um arcade em seu fliperama, o mundo era colonizado (ou seria melhor dizer recolonizado?) por tudo aquilo que parecia ter sido expurgado da Grade. E a era tecnológica: celulares, internet, dispositivos dos mais variados, com as mais variadas funções – e, decerto, sem funções também. O avatar do programa, digamos, do próprio Tron, transposto ao cotidiano: a era da máquina alvorece como era da representação. Somos todos transformados em avatares, de nós mesmos, de nossos desejos, crenças, desejos e consumos.

É aqui que aparece o filho de Flynn. Entre o clichê de um rebelde sem causa, menino mimado e Mark Zuckerberg às avessas, o motoqueiro-esportista-radical-hacker-salvador é apresentado ele também como um avatar de seu pai. Saltando do prédio da ENCOM, como se transpassasse colinas hexagonais da Grade, Flynn-filho salta num base jump para praticamente cair em sua moto, não brilhante e ovalada, mas moderna e queima asfalto, borracha e carbono deixando uma marca luminosa que lembraria a moto de Kaneda se a referência à Grade não fosse tão óbvia.

Preso o garoto não pode ser preso. Seus atos de contravenção são contra sua própria empresa – herdeiro legítimo e contrariado; a empresa nas mãos dos mesmos homens que quase a destruiram pouco menos de três décadas antes. Flynn-filho está é obcecado com seu pai. E o homem que faz nascer o Tron é quem aponta as migalhas de pão no caminho; Flynn-filho as segue, Flynn-filho acha por detrás da máquina a entrada para o mundo da máquina. Como uma entrada USB, como um slot para cartão de memória, como um cabo solto que precisa de um adaptador.

Inadvertidamente uploadeado, Flynn-filho se encontra imediatamente jogado no fascismo controlador: sem função? Para os jogos. Mas além do circuito semelhante ao do pai, Flynn encontrará um mundo onde impera uma força artificial: é o avatar de Flynn, Clu é o líder máximo, político e diria até religioso dessa nova Grade. Desertificada pela própria programação de Clu: um mundo perfeito, a perfeição mecanicista imputada a ele por um programador que não conseguia ainda ver além do maquinismo.

O mundo que Flynn-filho é diferente. Pautado menos pela falta da presença do usuário do que pelo excesso de presença de uma nova forma de vida: os ISOs. Exterminados pelo holocausto de Clu. A vida artificialmente natural, chegando pelo convite de novus mundis colocado por Flynn-pai, encontra nas mãos de seu avatar um fim raso – arrasados (e diria arrazoados) apenas um deles sobrevive. Quorra, a companheira de Flynn-pai, salvadora de Flynn-filho.

Mas antes dessa questão, há outra. Essa “segunda época da cultura-mundo […] se vai desenhando com os traços dum universal concreto e social4. O mundo criado por Flynn-pai é o mundo que viria a ser o nosso: vertigem da informação, mas vertigem de uma tradição sem conserto, quebrada, que desesperadamente procura uma volta. Clu não foi capaz de perceber isso. A fluidez de seu mundo estático era apenas isso: os isomórficos não tinham lugar pois o lugar que eles pediam era o novus. Esse “universo” precisava ser colonizada, precisava deixar de ser “um deserto onde se move, vazia de sentido, a massa da matéria sem vida”5, ou nesse caso, energia, informação, dados, elétrons, o que se quiser chamar.

O segundo filme, denotando sua clara associação à Disney – o primeiro teria sido comprado a posteriori – relata o curtíssimo espaço narrativo. Uma história de aventura, na qual as implicações tecno-filosóficas são deixadas de lado pelo romance (entre Flynn-filho e a última ISO) e pelas corridas com motocicletas. Mas, ao fim da película, há um momento seminal. Talvez tão seminal quanto o primeiro filme e que, penso, pode terminar bem essa análise livre. Flynn percebe que o único jeito de salvar filho e criação é deixá-los ir enquanto ele mesmo sacrifica sua vida. Uma reunião. Ele e sua contraparte, seu avatar, precisam novamente ser um. Ele absorve Clu e ambos desaparecem num névoa de fagulhas e luzes.

Tecnologia e os horrores6 do fascismo são um argumento já clássico no cinema de massa hollywoodiano, mas esse filme trata, de forma indireta, de duas proposições que devem ser levantadas: a primeira, e mais óbvia e talvez essencialmente verdadeira, é a de que a nossa sociedade, mesmo nas últimas três décadas, ainda carrega consigo o gérmen, a semente e a lembrança do poder desumanizante, aterrador e destrutivo que a razão (tecnificada, tornada mote do mundo e do homem) contém em si. Esta primeira questão é a pergunta da modernidade sobre a perfectibilidade da razão e sobre seu caráter mais escuro. As promessas da razão se tornam facilmente ameaças de um futuro obscurecido pelos baluartes da arregimentação total e do totalitarismo da razão.

A segunda, e talvez mais fantástica questão, é sobre o homem e sua condição inerente a tudo isso. Como que extraindo o humano enraizado na máquina, ambos os filmes postulam a pergunta (e a interpelação) de que o homem seja o caráter de garantia para qualquer avanço ou terror: enquanto formos homens, nada poderá realmente nos destruir. Apenas a máquina, os ISOs, os programas podem sofrer a totalidade do terror; homens são libertários.

“No limiar da era moderna há três grandes eventos que lhe determinam o caráter: a descoberta da América e subsequente exploração de toda a Terra; a Reforma que, expropriando as propriedades eclesiásticas e monásticas, desencadeou o duplo processo de expropriação individual e acúmulo de riqueza social; e a invenção do telescópio, ensejando o desenvolvimento de uma nova ciência que considera a natureza da Terra do ponto de vista do universo” mas os “nomes ligados a estes eventos […] pertencem ainda a um mundo pré-moderno”7. A modernidade é pautada aqui, pelo novo mundo e a libertação metafísica. Flynn é ainda é um homem da pós-modernidade, com seus videogames e entusiasmo presenteísta: Flynn-filho precisa ser o novo homem. O homem da pós-pós-modernidade. A Grade é a América, o controlador do sistema e Clu são o monástico/eclesiástico já destituído de seus poderes e afazeres sem ainda perceberem e o telescópio é Quorra abraçada na garupa da bicicleta vendo o sol pela primeira vez.

 

Quorra: Just between you and me, Jules Verne is my favorite.

Do you know Jules Verne?

Sam: Sure.

Quorra: What's he like?

 

 

 

1 HUNTINGTON, Samuel P. O choque das civilizações. Objetiva, 2010, p.23.

2 HEIDEGGER, Martin. Introdução à Filosofia. Editora WMF Martins Fontes, 2009, p.9.

3 BURCKHARDT, J. O renascimento italiano. Lisboa: Presença, 1973.

4 LIPOVETSKY, Gilles e SERROY, Jean. A Cultura-Mundo. Lisboa: Edições 70, 2011, p.13.

5 JASPERS, Karl. Introdução ao pensamento filosófico. São Paulo: Cultrix, 2010, p.18.

6 Coloco essa palavra em destaque pois os verdadeiros horrores do nazi-fascismo não foram, propriamente, as mortes, guerra e campos de concentração, mas o estandarte da razão erguido para que essas coisas fossem perpetradas. Para mais aprofundado conhecimento sobre a história do fascismo e a natureza do seu horror recomendo os maravilhosos trabalhos de Hannah Arendt (especialmente A Condição Humana, Origens do Totalitarismo e Entre o Passado e o Futuro, todos publicados no Brasil) além de alguns trabalhos de Zygmunt Bauman.

7 ARENDT, Hannah. A condição humana. Rio de Janeiro: Forense Universitária, p.260.

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