Brilho de Uma Paixão

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Enviado por Luciana em seg, 01/31/2011 - 17:21

Quando decidi assistir esse filme não sabia muito a respeito, e a primeira coisa que pensei foi “mais um daqueles romances que entopem as prateleiras das locadoras a cada mês”. Certo? NÃO. Totalmente errado. Brilho de Uma Paixão é a beleza e a sensibilidade na tela. Uma completa homenagem ao Romantismo.

O filme trata de um evento isolado, e, diga-se de passagem, o mais importante e comentado da vida do poeta inglês John Keats, sua paixão por Fanny Brawne que na época tinha 16 anos. Eles se conhecem em 1818, quando o mesmo está com 25 anos.

Órfão e sem recursos, Keats vive sob a tutela e auxiliado financeiramente por seu amigo Charles Brow, morando em uma residência dupla em Hampstead, Londres. A outra parte da casa já havia sido alugada em outra ocasião para Mrs. Brawne e seus três filhos, Fanny, Toots e Samuel. Eles visitam com frequência a residência e é em uma dessas visitas que Fanny e Keats se conhecem. Fanny é uma moça de família tradicional da época, em que um pretendente precisaria necessariamente ter recursos para sustentar a futura esposa, logo uma relação entre os dois seria impossível na prática. Apaixonada pela costura, Fanny desenha e confecciona os modelos que usa, e também tira desse prazer seu sustento, destaque neste ponto para o figurino perfeito e acertado de Janet Petterson. Enquanto Keats é um poeta que acaba de lançar sua obra Endymion e vem sofrendo com um grande número de críticas negativas, enquanto que as positivas são praticamente ausentes.

O texto a seguir contém SPOILERS, logo, sugiro que seja lido somente após ter assistido ao filme.
A sequência inicial do filme, em que vemos Fanny costurando, atravessando um tecido branco com a agulha, acompanhada da belíssima (e perfeita) trilha sonora de Mark Bradshaw já nos dá uma idéia do que vem a seguir. A direção de fotografia de Greig Fraser é impecável, cada cena transmite um lirismo incrível, mas não exagerado. A cena em que vemos a família Brawne atravessando um campo com roupas brancas estendidas é digna de um quadro, remetendo aos pintores românticos da época.
Com direção e roteiro de Jane Campion, (O Piano), em Brilho de Uma Paixão mergulhamos diretamente num cenário romântico da época, com todos os seus elementos, as paisagens bucólicas valorizando intensamente a natureza, como na cena em que Keats se deita sobre a copa de uma árvore e se deleita com a sensação do contato com as folhas. O sentimentalismo exagerado, sem ser exagerado, se é que me entendem, a idealização do amor no casal realizado/não-realizado vivido intensamente pelos atores acertadamente escolhidos Ben Whishaw e Abbie Cornish. Ben Whishaw empresta à Keats todo seu carisma e sua sensibilidade ao interpretar o poeta que ao mesmo tempo em que idealiza o amor por sua amada Fanny tem estampado em si o pessimismo e o “gosto pela morte”, tão presentes nos poemas dos poetas românticos, especialmente os da 2ª geração. Por sua vez Abbie Cornish está sensível e forte ao mesmo tempo, interpretando a jovem um tanto avançada para sua época. Ela transborda carisma e seus olhares traduzem algo que vem de dentro da alma. A força incrível de sua personagem ao enfrentar tudo para ficar com seu amado se contrapõe à fragilidade que demonstra em seu desespero nos momentos finais do filme. Ela não tem a mínima noção do que é poesia, mas se esforça ao máximo para entender algo sobre, a fim de entender também seu amado John.
A natureza interage constantemente com o eu do personagem, seja quando o casal se beija pela primeira vez em meio às árvores, ou na cena em que Fanny e seus irmãos caçam borboletas.
Para entender, e principalmente gostar do filme é preciso mergulhar nele. Esquecer o atual e se deixar levar para os dias daquela época. O que a fotografia incrível acompanhada da impecável trilha sonora consegue fazer se nos permitirmos a isso.

Os poemas de Keats permeiam boa parte do filme, mas o modo como são apresentados, declamados pelos protagonistas em momentos apropriados não os torna entediantes, e fazem com que nos interessemos a saber mais sobre a vida desse jovem poeta inglês, que deixou uma vasta obra, mas que morreu precocemente em função da tuberculose.

Doente, Keats é obrigado a se mudar para a Itália por ordens médicas, pois caso não o fizesse não sobreviveria a outro inverno em Londres. A separação do casal é dolorosa, mas mais dolorosa ainda é a vida de Fanny sem John. A transformação que a personagem sofre ao final do filme é a mais pura prova de que Fanny se tornou outra pessoa depois de perder Keats.
Um filme belíssimo, emocionante, cativante. Com um roteiro muito bem escrito, bem amarrado e linear, atentando para os mínimos detalhes. Recomendo para depois do filme a leitura de algo sobre o Romantismo, os poetas do movimento e também sobre John Keats, que tem uma vasta obra, infelizmente nem toda ela traduzida. Com certeza você conseguirá apreciar mais cada detalhe do que viu na tela.

Durante os créditos finais podemos acompanhar um belíssimo poema de Keats. E o poema Bright Star], escrito por ele para sua amada Fanny você pode conferir abaixo (em inglês):

Bright Star
Bright star, would I were stedfast as thou art—
Not in lone splendour hung aloft the night
And watching, with eternal lids apart,
Like nature's patient, sleepless Eremite,
The moving waters at their priestlike task
Of pure ablution round earth's human shores,
Or gazing on the new soft-fallen mask
Of snow upon the mountains and the moors—
No--yet still stedfast, still unchangeable,
Pillow'd upon my fair love's ripening breast,
To feel for ever its soft fall and swell,
Awake for ever in a sweet unrest,
Still, still to hear her tender-taken breath,
And so live ever--or else swoon to death.

John Keats

Poltronas 

5

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