Contágio

imagem de Ghuyer
Enviado por Ghuyer em sex, 10/28/2011 - 21:06

Dono de uma filmografia inegavelmente interessante devido à rica exposição de temas explorados, o diretor Steven Soderbergh fez um anúncio recente afirmando que se aposentaria “em breve”. Um “em breve” devidamente (e felizmente) entre aspas, pois ele ainda tem pelo menos quatro projetos pela frente. Isso sem contar sua mais recente aventura cinematográfica, Contágio, que estréia por aqui no próximo dia 28.

Abrindo a narrativa com uma apresentação rápida e eficiente das condições e ações das primeiras personagens contagiadas pela doença que será espalhada pelo mundo em um incessante contágio que dá nome ao filme, e que causará o pânico analisado pelo mesmo, Soderbergh e o roteirista Scott Z. Burns não tardam em deixar claro para o espectador qual a atmosfera que percorrerá o filme todo.

Deixando de desenvolver seus personagens muito a fundo para, invés disso, utilizá-los basicamente como vetores para as várias e delicadas informações que o roteiro deseja passar, em um modelo exemplar de plot over characterContágio oferece um detalhado panorama geral do que aconteceria caso uma gripe severa e de rápida transmissão fosse de fato perigosa, como a recente H1N1 supostamente deveria ter sido – em um contraponto que é abertamente discutido pelo filme, notável no momento em que um repórter pergunta se a Organização Mundialda Saúde (OMS) não estaria exagerando no drama mais uma vez.

A ampla teia de relações políticas envolvidas no controle de uma doença com potencial epidêmico é dissecada com competência pelo roteiro de Burns (que já trabalhara com Soderbergh em O Desinformante), que acerta em cheio em não criar nenhum personagem mais destacado que outro, equilibrando todos adequadamente, sem deixar um protagonista definido, permitindo que cada um sirva a seu propósito na trama, conseguindo assim evidenciar o papel central (e impactante) da doença. Dessa forma, a direção de Soderbergh tem a chance de elevar o vírus à qualidade de admirável antagonista sem precisar se ater a recursos dramáticos que não só fugiriam da proposta do longa, como acabariam servindo como mera distração para o público. Assim, Soderbergh tem o tempo necessário para analisar a devastação causada pelo vírus através de uma abordagem distante e calculada que, justamente por sua frieza e seu pragmatismo, oferece um retrato bastante realista das complexidades ocasionadas por uma epidemia (ou pelo perigo de uma).

Em função disso, Contágio acaba revelando um tom quase documental, claramente proposital. Característica essa que é reforçada tanto dramática, como tecnicamente, já que, se por um lado o roteiro insiste em empregar diálogos de conteúdo quase exclusivamente técnico e científico, com o excelente elenco surgindo mais do que eficaz na hora de enunciar essas informações com a mais do que necessária verossimilhança, por outro lado a direção de arte de Howard Cummings se esforça para expressar a realidade das locações, pouco interferindo no cenário, ao passo que a fotografia do próprio Soderbergh surge acertadamente simplista, aparecendo pouco sofisticada em termos de movimentos de câmera, e evitando pintar demais as cenas, preferindo utilizar uma paleta de cores mais neutras.

Considerando essas peculiaridades, Contágio apresenta curiosas simetrias e contrapontos em relação ao excelente Traffic: Ninguém Sai Limpo, que Soderbergh dirigiu exatamente uma década atrás. As duas obras tratam de temas sérios (tráfico de drogas e epidemia) e contam com uma vasta galeria de personagens, todos invariavelmente envolvidos, mas, enquanto a narrativa de Traffic era desenvolvida de forma mais lenta e introspectiva, a de Contágio transcorre de forma muito mais rápida e tensa. Se no filme de 2001 Soderbergh criava um forte envolvimento emocional com seus personagens (o suficiente para Benício Del Toro sair dali com um Oscar de Melhor Ator Coadjuvante), que ali eram extensamente desenvolvidos, aqui ele mantém uma distância moderada, preferindo, dessa vez, explorar mais a rede de acontecimentos da trama como um todo, do que o impacto emocional da mesma. Traffic era conteúdo; Contágio é muito mais sobre a forma com a qual a situação se desenvolve.

Logo, o competente montador Stephen Mirrione (colaborador habitual de Soderbergh) tem aqui o complexo trabalho de entrelaçar os vários arcos narrativos do roteiro de modo que, fazendo com que se apóiem uns nos outros, funcionem como um grande arco geral que tem como centro a epidemia (ou o contágio), diferindo de Traffic no sentido de não representarem histórias separadas (ainda que complementares), e sim facetas do mesmo momento narrativo. Em Traffic, cada uma daquelas histórias paralelas podia muito bem se sustentar sozinha, uma vez que apresentavam um arco dramático bem definido e independente. Já em Contágio, Soderbergh (junto com o roteirista) optou por ligar de modo intrínseco todas as pontas da narrativa, criando não várias histórias, mas vários momentos de uma mesma história, ações simultâneas compondo um grande emaranhado de relações humanas.

Porém, a característica mais marcante compartilhada pelos dois filmes se resume na crítica política apresentada por ambos. Se em Traffic Soderbergh estudava o amplo domínio das drogas ilícitas dentro da sociedade (no caso, a norte-americana), em Contágio ele disseca as particularidades envolvidas na politicagem internacional em termos de saúde pública, considerando a situação nem tão hipotética de uma epidemia mundial.

Os comentário políticos do longa, na maior parte do tempo, no entanto, não saem de discursos calorosos proferidos pelos personagens, e sim de uma observação externa da situação em que estes se encontram. Soderbergh mostra o que acontece e, com algumas exceções pontuais que servem para direcionar o discurso do filme, como o debate televisionado do Dr. Ellis Cheever (Laurence Fishburne) com o blogger Alan Krumwiede (Jude Law), deixa para o espectador a tarefa de refletir sobre que está acontecendo. E qualquer pessoa que sair da sala de cinema com uma sensação de final feliz certamente não terá percebido as questões levantadas pelo filme.

Em todo caso, é interessante notar que, de modo a deixar a ação mais dinâmica, evitando o que, de outra forma, poderia gerar um longa excessivamente cerebral, Soderbergh tenha optado por uma direção dedicada a explorar o potencial de thriller do projeto, criando uma narrativa intrigante durante a maior parte do tempo. Entre os vários méritos de Contágio, um dos maiores se encontra justamente no retrato do caráter investigativo do estudo a respeito das características da doença (disseminada pelo evento do título), bem como a análise de suas probabilidades epidêmicas. Ficamos curiosos com os desdobramentos da grande investigação que move a trama enquanto acompanhamos, de um lado, a agente da OMS, Eleonora Orantes (Marion Cotillard), enviada para Hong Kong a fim de descobrir o marco zero da epidemia ao refazer os passos dos primeiros infectados, e, do outro, o já citado Dr. Ellis Cheever e sua equipe procurando desvendar a estrutura genética do vírus para, com isso, chegar ao desenvolvimento de uma vacina.

Em meio a tudo isso, também somos testemunhas, mais uma vez, da mentalidade egocêntrica e militar do governo dos EUA que, não perdendo tempo com a notícia de uma possível epidemia, logo bota em ação uma estratégia de defesa para o alto escalão político visando a possibilidade de tudo ser parte de um ataque terrorista – uma lógica falha e premeditada que obviamente leva a população ao pânico generalizado. E nesse contexto de paranóia antiterror, o personagem de Laurence Fishburne é responsável por um dos melhores diálogos do filme quando, respondendo à dúvida absurda de um militar que questiona se a gripe aviária não poderia estar sendo utilizada por terroristas como arma biológica, diz calmamente: “As aves já estão fazendo isso”.

Competente em sua análise sobre uma hipotética situação de crise mundial durante grande parte do tempo, Contágio falha apenas em certos pontos, como na apresentação tardia da esposa do Dr. Cheever, ou na desastrosa sequência de acontecimentos envolvendo a personagem de Marion Cotillard na parte final da narrativa, revelando uma equivocada decisão de roteiro que não só surge súbita e forçada, retratando de modo ingênuo demais o governo de Hong Kong, como, em última instância, trai a inteligência que o filme vinha desenvolvendo tão bem até então.

No entanto, o filme merece créditos por seu final aparentemente feliz, mas dúbio em essência. Ao não oferecer a verdade completa a respeito dos comentários do jornalista independente interpretado por Jude Law, deixando que o público chegue a suas próprias conclusões, Soderbergh ao mesmo tempo consegue oferecer um discreto comentário sobre a posição da mídia em situações de crise global, e alertar sobre obscura relação da OMS com a indústria farmacêutica, temática explorada mais a fundo no também ótimo O Jardineiro Fiel.

Assim, Contágio se revela não só um thriller intrigante, como uma complexa análise de relações políticas e institucionais, e um estudo não de personagens, mas de situações.

Poltronas 

4

Comentar

Plain text

  • No HTML tags allowed.
  • Endereços de páginas de internet e emails viram links automaticamente.
  • Quebras de linhas e parágrafos são feitos automaticamente.
CAPTCHA
Esse desafio é para nos certificar que você é um visitante humano e serve para evitar que envios sejam realizados por scripts automatizados de SPAM.
CAPTCHA de imagem
Digite o texto exibido na imagem.