L'Apollonide - Os Amores da Casa de Tolerância

imagem de Luciana
Enviado por Luciana em qua, 02/01/2012 - 06:47

As casas de tolerância eram famosas, existiam em grande escala em vários países e, segundo a História, diz-se que os primeiros registros de sua existência datavam de 4000 aC. O tema inspirou vários escritores e pintores ao longo dos séculos, entre os quais podemos destacar o pintor Toulouse-Lautrec e sua obra Au Salon de la rue des Moulins (1894). O final do século XIX, início do século XX é o ponto de partida para a história de L’Apollonide – Os Amores da Casa de Tolerância, novo longa de Bertrand Bonello (O Pornógrafo, 2001), que acompanha a vida de nove garotas que vivem em L’Apollonide, uma casa localizada em Paris e dirigida por uma cafetina que tem dois filhos pequenos para criar, e que moram junto na mesma casa.

Os créditos iniciais do filme são de uma beleza intensa, evocam a sensualidade daquelas garotas com extrema elegância, sem vulgaridade. O casarão onde funciona L’Apollonide e onde elas vivem é o principal cenário do filme. Quase toda a narrativa permanece em seu interior, raras são as exceções em que as vemos fora da casa, talvez por isso a cena em que estão em meio à natureza seja de uma beleza singular, o que não desmerece em nada o ambiente do casarão, que por si só é um personagem de grande importância. Inclusive pelas normas – pois as casas eram legalizadas e tinham normas a seguir – as garotas somente poderiam sair à rua acompanhadas pela dona do local ou por um cliente, caso contrário seriam multadas.

Somos introduzidos a casa por Madeleine, bela e de olhos azuis, que vítima das loucuras de um cliente passa a estampar em seu rosto um sorriso falso e triste. Mutilada durante o encontro ela passa a ser conhecida por “a mulher que ri”, encenando em determinando momento uma das cenas mais tristes do filme. As garotas são muito unidas, cuidam umas das outras com esmero, e mesmo quando submetidas ao humilhante “exame médico obrigatório” não deixam de mostrar sua cumplicidade.

O excelente roteiro de Bertrand Bonello, aliado à ótima montagem de Fabrice Rouaud, é eficiente ao nos apresentar o cotidiano das garotas e seus clientes de forma fluida, sem nunca perder o foco da narrativa. Apresentando uma mesma cena por um novo ângulo e indo de uma personagem à outra, inclusive em determinados momentos dividindo a tela em três ou quatro quadros para que possamos acompanhar suas ações simultaneamente, Bertrand nos mostra como são as suas relações com seus clientes mais assíduos, uns apaixonados, outros cheios de manias e vícios. E, também como são os sentimentos delas, umas querendo apenas pagar suas dívidas com a casa (algumas estão “presas” ali há mais de uma década), outras querendo encontrar um amor ou alguém que as tire dali.

A belíssima e elegante fotografia de Josée Deschais transmite os sentimentos da própria casa. Curiosamente, apesar de existir luz elétrica no local, os quartos onde ocorrem os encontros com os clientes são iluminados por luz de velas, proporcionando um ambiente mais romântico. Os corredores são amplos e silenciosos, e o salão onde os clientes param para jogar, beber, fumar e conversar é iluminado e sempre agraciado por uma bela canção. Aliás, a trilha sonora – nada cronológica – parece ter sido escolhida a dedo por Bonello, pois concede ao filme ainda mais elegância em suas cenas. Esse belo cenário é o oposto do local onde elas dormem, ou da cozinha onde amontoadas fazem as suas refeições.

A casa está ameaçada de fechar as portas, pois se encontra com sérios problemas financeiros. Isso, de certa forma passa a afetá-las, enquanto uma se droga para fugir da dura realidade, outra está tão cansada daquilo tudo que a câmera educadamente muda o foco de seu encontro com um cliente para mostrar um pequeno inseto na parede, a fim de privá-la de que assistamos à sua tristeza naquele momento. Um símbolo dessa mudança que estar por vir é o despetalar das belíssimas rosas brancas que figuram ao lado da madame enquanto ela observa suas meninas e os clientes. É um nítido sinal de que uma era está findando, e que infelizmente nada pode ser feito a respeito.

L’Apollonide – Os Amores da Casa de Tolerância é uma belíssima obra, cheia de graça, alegria e brevemente pontuada pela tristeza. Engana-se quem pensa que pelo fato de as garotas permanecerem grande parte do filme quase que totalmente desnudas, o tornaria vulgar. Pelo contrário, isso somente traz maior elegância e dignidade à história que está sendo contada. Um tema interessante, que com a direção adequada e a dose certa de ousadia pôde proporcionar uma experiência fascinante ao espectador.

Poltronas 

4

Comentar

Plain text

  • No HTML tags allowed.
  • Endereços de páginas de internet e emails viram links automaticamente.
  • Quebras de linhas e parágrafos são feitos automaticamente.
CAPTCHA
Esse desafio é para nos certificar que você é um visitante humano e serve para evitar que envios sejam realizados por scripts automatizados de SPAM.
CAPTCHA de imagem
Digite o texto exibido na imagem.