Rock of Ages, Mercenários 2 e a (quase) Volta dos Anos 80

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Enviado por Giordano em sex, 09/28/2012 - 20:51

É curioso que nessa segunda década do século XXI uma das maiores tendências do cinema e da cultura pop em geral é o saudosismo de uma das décadas mais desprezadas em sua posteridade. A década de 80 é acusada de superficialidade, plasticidade e falta de conteúdo. Não vou dizer que tais acusações são errôneas, pelo contrário. Até por que, quando nasci, a década já havia findado há dois anos. Só desconsidero a necessidade de haver algum tipo de tribunal para julgar a inocência da chamada “década perdida”.

Talvez seja pelo fato de que, como o protagonista de Meia Noite em Paris, eu ainda espero que um veículo venha me transportar para uma década que sonho ser perfeita (embora com certeza quando chegar lá, eu vá perceber que a época era tudo, menos perfeita). No entanto, ao invés de uma carruagem me carregar para a Belle Epoque, um Ford Del Rey conversível poderia me levar direto para os anos 80, para que eu pudesse ver Tron no cinema como a última tecnologia, ir em festas em que dançar B52’s não seria divertido apenas pelo valor trash.

Mas enfim, ignorando esse meu lado vintage-poser, é sintomático que em épocas tão céticas e dependentes da tecnologia atual, a cultura pop se mostre tão saudosa da inocência dessas primeiras experiências com a plasticidade, que chegam ao absurdo. Um amigo meu diz que tudo que foi feito nos anos 80 está acima do bem e do mal e que não pode ser julgado esteticamente como o que foi feito antes ou depois. Simplesmente porque antes dos anos 80 não havia tecnologia para fazer. E depois dos anos 80 seria absurdo demais fazer aquilo. É uma tese divertida, mas incongruente quando se percebe Lady Gaga usando um vestido de carne enquanto canta com auto-tune ou cowboys lutando contra aliens (utilizando, é claro, do clássico raio azul que os anos 80 tanto adoram).

Deixando de lado os sintetizadores e os raios azuis, as tendências oitentistas da semana são outras. Essas tem, aparentemente, mais testosterona.  O rock farofa e os filmes de ação dos anos 80 eram provavelmente o máximo que se tinha de masculino na música pop e no cinema blockbuster, numa década que foi tão andrógina. Isso que o primeiro consegue ser masculino e andrógino ao mesmo tempo (são os anos 80, lá pode). Essa semana, em cartaz nos cinemas, temos duas obras saudosistas desse universo que há menos de dez anos atrás seria simplesmente desconsiderado por qualquer produtor que se leve a sério em Hollywood. No entanto, após a onda de nostalgia que tomou conta do cinema, nada faz mais sentido do que Rock of Ages e Os Mercenários 2.

O astro de Top Gun e Cocktail não poderia ser mais oposto ao brutamonte que ganhou fama por criar Rocky e Rambo. E apesar da grande diferença de idade e de percurso na carreira que os dois têm, ambos viram suas presenças nos cartazes dos cinemas se tornarem mais raras no novo milênio, apesar das suas personas não terem diminuído em nada. E é baseado justamente nas personas desses astros que os dois filmes em questão se baseiam.

Rock Of Ages, diferente de seu concorrente de bilheteria, associa a figura de Tom Cruise a um universo ao qual ele nunca havia sido associado antes: o Rock Farofa. Esse termo, apesar de outrora ter sido pejorativo, hoje já é assumido com orgulho pelos fãs de Guns n’ Roses que suam suas bandanas se divertindo com cada bobagem supostamente épica que o Axl faz no palco. Associa-se ao glam metal ou pós-glam rock, ou... Ta, sempre canso dessas subdivisões do rock quando começo a enumerá-las. Mas deu para entender, Guns, Kiss, Journey, Twisted Sisters, Europe, Def Leopard, Runaways, Bon Jovi e por aí vai…

O filme é baseado numa peça da Broadway em homenagem a esse estilo musical. A adaptação de Adam Shankman (do divertido Hairspray) não poderia chegar em momento mais fortuito nas bilheterias, logo depois do sucesso meteórico da febre Glee, série que também parece trazer de volta a falta de noção do ridículo que marcou os anos 80, e se beneficiava disso na sua primeira temporada, embora tanto a fórmula quanto os temas já tenham cansado. Glee apropriou-se da música “Don’t Stop Believing”, de Journey, como uma homenagem à peça, que por sua vez apropriou-se da música para homenagear os anos 80. No filme, somos contemplados com um casal ainda mais tedioso que o Finn e a Rachel da série criada por Ryan Murphy e, na verdade, esse casal é o grande problema do filme.

Se o longa fosse centrado em Stacee Jaxx, o icônico personagem de Tom Cruise, o filme seria muito mais divertido e consistente. A inteligente campanha de marketing sabia disso e baseou a promoção do filme na figura de Cruise. Uma pena que os roteiristas não se deram conta disso. Ou pior, perceberam, mas ignoraram ou por excesso de fidelidade ao material original ou por interesse nas plateias fãs de Glee. Seja qual for o motivo, o filme sai prejudicado toda vez que o casal interpretado por Diego Boneta e Julianne Hough aparece, transformando o filme numa versão farofa de Burlesque (aquele filme péssimo com a Cher e com a Christina Aguilera). O filme também podia seguir por outro caminho e acompanhar os personagens de Alec Baldwin e Russel Brand, com seu bar em crise, que é uma subtrama divertida e que poderia render mais, mas o roteiro restringe-se em utilizá-los como alívio cômico. Aliás, todos os personagens legais do filme são alívios cômicos para o casal purgante queo protagoniza.

A escolha de músicas, claro, é ótima (apesar de eu sentir falta de The Final Countdown, do Europe, a mais farofa de todas as farofas). As cenas em que são utilizadas, no entanto, não tem a menor imaginação em sua composição e mise en scène, que é muito dura e marcada, sem coreografias fluidas.

Enfim, Rock of Ages é um desperdício de uma oportunidade bacana de homenagear a testosterona da Década Perdida, assim como o primeiro Os Mercenários, que, apesar de ter reunido uma série de ídolos da época, juntando-osa ídolos novos, decepcionou por ter optado pela estética atual do cinema de ação de ser frenético (com muitos cortes por segundo), talvez para mascarar a ação mal encenada, ao invés de assumi-la, como era comum há vinte anos. Sua continuação, felizmente, conserta esse erro, mas, ao invés de assumir a ação travada, os dinossauros se juntam aos mais novos e criam coreografias de luta bem mais articuladas e, talvez por isso, bem menos divertidas.

O pós-modernismo da metalinguagem continua sendo, como no primeiro filme (dirigido por Stallone), o ponto alto desse segundo filme (agora dirigido por Simon West). Se, no primeiro, tínhamos piadas como “ele quer ser presidente”, ao se referir a Schwarzenegger, entre outras, nesse segundo temos ainda mais: Arnold citando gratuitamente a frase clássica de Bruce Willis (Ypikaye) enquanto esse diz “I’ll be back”; há a piada com Dolph Lundgren admitir ter mestrado em química; e, claro, piada com os fatos de Chuck Norris (que só aparece como Deus Ex-Machina quando precisam). Sem falar na participação de Van Damme como um vilão chamando Vilain (a melhor atuação no filme).

Claro que há decepções. O filme reúne toda essa galera, mas acaba dando tanta atenção a esse guri, Liam Hemsworth (o irmão do Thor, tipo, who cares?), e a essa japonesa como um interesse romântico para Stallone, que acaba enchendo o saco. Ah, e claro, como sou um dos (poucos) fãs de Jet Li, é decepcionante vê-lo com tão pouco tempo na tela. Mas, de resto, ta lá tudo que se espera: péssimas e divertidas punchlines, piadas machistas, pancadaria nonsense (com direito à destruição de um helicóptero com uma moto, combos chute+faca, entre outros) e o carisma nostálgico desse pessoal que não dá o braço a torcer (desculpem o péssimo trocadilho, entrei muito no espírito). Ficamos na expectativa por Mercenários 3, já que ainda tem bastante gente, velha e nova, pra colocar no pacote (Seagal, Nic Cage, Wesley Snipes, Clint, Danny Trejo, Kurt Russell...).

Bom, a nostalgia nos cinemas atualmente não fica só nesses dois. Ainda em cartaz, tem remake de Vingador do Futuro e a simpática animação Paranorman, cheia de referências aos zumbis e filmes teen das antigas, e vindo por aí temos Sparkle, obra póstuma de Whitney Houston que pretendia reacender o brilho da cantora, Detona, Ralph, que homenageia os videogames anos 80 e 90 e os remakes (não muito necessários) de Carrie e Evil Dead.

Bom, pelo menos cinematograficamente o mundo está colaborando para a minha volta no tempo.

ROCK OF AGES - 2 Poltronas

OS MERCENARIOS 2 - 3 POLTRONAS

Comentários

imagem de jorge palheta

Enviado por jorge palheta (não verificado) em qui, 12/20/2012 - 21:26

eu curti os anos 80, vivi e posso dizer q foi a melhor época da minha vida: quem não passou pela decada da liberdade da moda e variedade do rock verdadeiro não pode escrever ou comentar sequer uma virgula de uma época q vai deixar saudades ''forever''. quem viveu sabe do q estou falando. morram de inveja, enquanto eu morro de saldades.

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