O Senhor dos Anéis - A Sociedade do Anel (versão estendida)

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Enviado por Luciana em sex, 12/07/2012 - 09:33

Considerado por muitos como um escritor ímpar, o professor J. R. R. Tolkien era um obstinado. Suas histórias sobre Terra-média são extremamente detalhadas, tanto na elaboração dos personagens, no detalhamento de seus mundos, como na criação da linguística própria de suas histórias. Sim, ele criou um mundo próprio com a Terra-média. Sua grande obra sempre foi e sempre será a trilogia de O Senhor dos Anéis. Tido pela maioria como impossível de adaptar, coube a Peter Jackson a tarefa árdua de trazer para as telas as palavras de Tolkien. Três anos de filmagem, os três filmes sendo filmados juntos, tudo isso para se ver um resultado exuberante em todos aspectos: Peter Jackson conseguiu o até então impossível, recriou de maneira o mais satisfatória possível a obra máxima de Tolkien.

Basicamente O Senhor dos Anéis trata da luta para destruir o Um Anel. Em resumo, é isso. O artefato precisa ser levado de volta à Montanha da Perdição, onde foi forjado secretamente por Sauron, o Senhor do Escuro, na Segunda Era quando enganou grandes reis das raças dos Elfos, Homens e Anões, entregando-lhes anéis de poder que poderiam ser controlados pelo Um.

Nesse ponto temos algo interessante e ousado, uma escolha acertada do diretor em colocar algumas informações importantes para o espectador em forma de narração em off. Temos a exposição de fatos anteriores ao evento que ocorrerá neste filme e em suas duas continuações, narrados pela voz que posteriormente podemos identificar como sendo da elfa Galadriel. Esses fatos nos apresentam à Terra-média, explicam brevemente sobre a forja do Um e dos anéis entregues aos Reis, sobre como Isildur, filho de Elendil, se apoderou do Anel ao invés de destruí-lo, e como o Anel foi parar nas mãos de um Hobbit chamado Bilbo.

A meu ver o Anel não é um simples artefato no contexto da história, ele é como se fosse um dos personagens principais da narrativa. Podemos perceber seu poder e importância ao longo da trilogia, quando aos poucos ele vai consumindo Frodo ou seduzindo quem quer que chegue a tê-lo em mãos.

Em se tratando de uma versão estendida com mais de 3h30 de duração, é admirável que O Senhor dos Anéis - A Sociedade do Anel não pareça um filme chato ou arrastado. Muito disso se deve ao tratamento do roteiro adaptado por Peter Jackson, Frances Walsh e Philippa Boyens (algo raro de dar certo, pois quanto mais pessoas trabalhando em um mesmo roteiro é quase certeza de que mais confusa ficará a adaptação), que elimina momentos que poderiam trazer maior duração ao longa sem acréscimo de continuidade ao roteiro (Tom Bombadil?  Azar, gosto dele!). Contamos ainda o surgimento de cada personagem e sua descrição de forma crível, não superficial. E claro, as sempre constantes cenas de ação e aventura, passando da cena do aniversário de Bilbo (“Eu não conheço metade de vocês como gostaria, e gosto de menos da metade de vocês, a metade do que vocês merecem”) ao  confronto de Passolargo com os Espectros de Anel, e indo até as destruídas Minas de Moria.

Por falar em Minas de Moria, é imprescindível comentar sobre aquele que talvez seja o maior confronto individual de toda a história da Trilogia (mais até que certa mulher contra um Nazgûl??): o imponente Gandalf, O Cinzento diante de um monstruoso e chamejante Balrog, um poderoso demônio do Mundo Antigo.

Creio que não exista cena mais fascinante que esse confronto, em que Gandalf se impõe ao Balrog e pronuncia as poucas e decisivas palavras, juntamente com o gesto de utilizar sua espada e cajado para destruir a ponte de Khazad-Dûm:

YOU SHALL NOT PASS!”.

Ainda sobre o roteiro, a percepção de Peter Jackson e sua equipe de roteiristas sobre o que deveria ser omitido e o que poderia ser levemente alterado durante a adaptação foi de extrema importância, eles conseguiram transpor a alma da história, sua plena essência, não descaracterizando, em momento algum, o que foi idealizado por Tolkien quando da concepção da história.

De início percebemos uma atmosfera alegre e festiva em função da preparação para o aniversário de Bilbo, onde temos uma fotografia que ressalta a natureza, os pequenos detalhes da preparação da festa e da alegria dos Hobbits. Vemos inclusive Gandalf cantarolando uma alegre canção quando chega à Vila do Hobbits – quando o Mago encontra Frodo, eles citam brevemente o “incidente com o dragão”, uma pequena inserção sobre os eventos de O Hobbit. Aos poucos e conforme os acontecimentos depois da saída dos hobbits de Bri, essa paleta de cores vai se modificando e se tornando por vezes mais sombria e fria. Um excelente trabalho do diretor de fotografia Andrew Lesnie, que também conseguiu registrar com perfeição cenários como Valfenda, o Condado, entre outros.

A direção de arte de Dan Hennah merece destaque absoluto ao conseguir recriar tão perfeitamente a Terra-média idealizada por Tolkien, tendo lugar aqui na Nova Zelândia. Os cenários foram cuidadosamente escolhidos de modo a ficarem o mais próximos possível do original. Os corredores das Minas de Moria e a ponte de Khazad-Dûm, por exemplo, são realizados à perfeição. As equipes de maquiagem e figurino também estão de parabéns, pois nada escapa aos seus olhos, cada detalhe parece ter sido desenvolvido com esmero.

Outro fator a ser destacado, é claro, são os incríveis efeitos visuais desenvolvidos pela WETA, trazendo mais realidade e dinâmica ao longa. Como não mencionar também os ângulos de câmera escolhidos por Peter Jackson no que diz respeito a Gandalf? A câmera o mostra sempre como sendo ele um ser mais poderoso, que detém o conhecimento de Eras, o que de fato é verdade. Destaco a cena em que ele orienta Frodo com relação ao Anel, conforme ele vai falando, a cada tomada a câmera vai se aproximando de seu rosto, até fechá-lo em close com um ar severo e... aflito?

Mas voltando ao contexto da história, depois de herdar o Anel de Bilbo, Frodo se vê na missão de tirá-lo do Condado, já que ali não é mais um local seguro, e que em breve os Espectros virão atrás dele. Em função de algumas confusões (Hobbits sempre estão metidos em uma), Frodo parte com Sam, Merry e Pippin, indo parar na Estalagem do Pônei Saltitante em Bri. Aqui podemos perceber Peter Jackson fazendo uma pontinha em seu próprio filme, ele aparece andando na chuva enquanto os pequenos se dirigem à Estalagem.

No Pônei Saltitante eles são interpelados por Passolargo, que os tira dali em segurança rumo à Valfenda. Posteriormente, em uma emboscada dos Espectros no Topo do Vento, Frodo é seriamente ferido por uma lâmina amaldiçoada de Morgul, logo precisa urgentemente de cuidados, antes que se transforme em um espectro, como os outros. Comentando mais sobre os Espectros do Anel, eles são os Nazgûl, nove Reis do passado que caíram em desgraça, consumidos pelo poder e por sua submissão ao Um, e consequentemente à Sauron. Eles sentem o poder do Anel e são atraídos a ele. Seu líder é o Rei Bruxo de Angmar, o mesmo que atacou Frodo no Topo do Vento.

Enquanto os Hobbits seguem sua jornada, Gandalf enfrenta problemas com Saruman, que cedeu ao domínio de Sauron e se tornou seu servo. Diante de todos os acontecimentos, temos em Valfenda o Conselho de Elrond, onde todos reunidos discutem o destino do Anel e forma-se daí A Sociedade do Anel, composta por nove companheiros que saem rumo à Mordor (em rara cena onde Peter Jackson ignora toda e qualquer sutileza, com Elrond falando o óbvio sobre a Sociedade). Na versão estendida temos, durante o Conselho de Elrond, o momento em que Gandalf recita parte do verso do Anel na língua negra de Mordor - em minha opinião uma das cenas mais tensas do longa.

Enquanto isso, Saruman está construindo um complexo sob Isengard, onde conta com o trabalho de orcs e outros servos de Sauron. Ali são forjadas armas e um exército está se formando. Cabe aqui citar o travelling que começa a partir da cena do voo da mariposa com a qual Gandalf ‘dialoga’ no topo da Torre de Orthanc, pois a câmera acompanha o início do voo e continua descendo até as profundezas de Isengard e todas as maldades que ali habitam.

Em função dos acontecimentos em Caradhras – vide a nevasca provocada por Saruman – a Comitiva decide descer para as Minas, onde o Anão Gimli espera encontrar seu parente Balin, que os receberia com todo conforto. Nos Portões de Moria (uma das imagens mais fantásticas que presenciei neste universo de Tolkien, e que se me fosse possível faria uma pintura dos Portões na parede do meu quarto) eles são atacados e precisam adentrar as Minas, onde descobrem que não somente tudo está devastado, como Balin está morto, um momento singular para o Anão Gimli. É chegado o momento que comentei lá no início, em que Gandalf confronta o Balrog e cai com ele nas profundezas de Moria. Aqui temos outra escolha genial de Peter Jackson ao mostrar os companheiros de Gandalf em câmera lenta, afastando-se do local onde o Mago caiu. Como se com esse recurso ele quisesse nos mostrar o quão difícil está sendo para eles se separarem de Gandalf. O que de certa forma traz maior emoção à cena.

A trilha sonora de Howard Shore tem vida própria. É impossível ficarmos imune ao efeito que ela nos causa, e cada música casa perfeitamente com a cena na qual está presente, como nesse caso do confronto na ponte de Khazad-Dûm. Algumas melodias são suaves e descontraídas, as presentes mais no início do filme, já as que escutamos mais para o final, são um tanto sombrias e tristes. Um trabalho de gênio.

Uma cena da versão estendida que julgo seria importante ter constado na versão de cinema, é a cena em que Galadriel presenteia os integrantes da Comitiva, pois lá adiante, no segundo e terceiro filmes, eles farão uso de seus presentes e o espectador pode ficar com a impressão de que perdeu algo, pois como eles vieram a possuir tais artefatos? Uma cena delicada e carregada de sentimentos.

Falemos então das atuações, pois não posso deixar de mencionar (mais uma vez) o excelente trabalho de Ian McKellen como Gandalf. Ele empresta ao Mago todo seu carisma e determinação, transformando-o em um personagem ao mesmo tempo severo e amigo. Ian Holm está perfeito como Bilbo, ao mesmo tempo em que Sean Bean também merece destaque como Boromir. Aliás, todo o elenco está de parabéns, todos desempenharam muito bem seus papéis, e só têm a melhorar ao longo da trilogia.

No auge do terceiro ato do filme, temos a batalha às margens do Rio Anduin, onde eles param para descansar e são atacados por Uruk-hais, momento em que há o rompimento na Comitiva que fará com que Frodo tome a decisão de seguir sozinho para Mordor. Aqui nessa luta morre um bravo guerreiro que foi brevemente seduzido pelo Anel, mas que se arrependeu em tempo de defender os seus, mesmo que com a própria vida. A virada para o segundo filme ocorre com esse afastamento de Frodo, que acompanhado de seu fiel amigo Sam, segue rumo à Mordor, a fim de destruir o Um Anel e livrar a Terra-média dos domínios de Sauron. Mas isso já é assunto para o próximo filme.

Para finalizar, o trabalho magnífico de Peter Jackson à frente desta obra conquistou ainda mais o coração dos fãs de Tolkien, pois ele conseguiu transferir para as telas não só um mundo fantástico em um filme épico, mas conseguiu trazer a alma, a essência da história contida no livro e nos personagens. E como bem sabemos suas duas sequências não deixam em nada a desejar, só fazem acrescentar mais maravilhas e alegrias aos olhos e aos corações dos apaixonados pela Terra-média e pelo Universo de Tolkien.

Poltronas 

5

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