O Senhor dos Anéis - As Duas Torres (versão estendida)

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Enviado por Luciana em sex, 12/07/2012 - 12:14

Seguindo a mesma linha de O Senhor dos Anéis – A Sociedade do Anel, O Senhor dos Anéis – As Duas Torres não deixa a desejar. Também dirigido por Peter Jackson e baseado no segundo volume da Trilogia, este filme funciona quase como o segundo ato da narrativa, ou seja, a preparação para o grande final. Apesar de coisas extremamente importantes e definitivas ocorrerem ali.

A obra tem início naquilo que parece ser um sonho de Frodo a respeito do embate entre Gandalf e o Balrog, momento épico de A Sociedade do Anel. De cara observamos parte da mesma estrutura do filme anterior: o começo através de um flashback, mas que posteriormente avança para aquilo que alguns poderão considerar como um sonho de Frodo ou o que de fato ocorreu, após o demônio do Mundo Antigo laçar Gandalf para as profundezas de Moria. A trilha sonora mantém-se na mesma linha, tendo o acorde clássico de início e avançando para um tom de batalha. Mais adiante reencontraremos o velho Mago, naquilo que o Cinéfilo Maza define como o momento: “Gandalf morre e acorda branco”. Mas sobre isso tratarei nos próximos parágrafos.

Os acontecimentos neste filme são apresentados de forma dinâmica, pois ao mesmo tempo em que acompanhamos a jornada de Frodo e Sam à Montanha da Perdição, percebemos também a engrenagem girar em vários pontos da Terra-média, como Saruman desferindo seu primeiro grande golpe contra os povoados no Folde Ocidental, enquanto em outro local Merry e Pippin sofrem como prisioneiros dos Uruk-hais. E ainda temos Aragorn, Legolas e Gimli correndo em seus calcanhares. Nesta parte, por mais que a tensão predomine durante a busca deles pelos hobbits prisioneiros, temos Gimli para fazer o contraponto, quando é colocado à prova em sua resistência com relação a um Elfo e um descendente dos Dúnedain, raça de Homens agraciada com uma vida bastante longa. O anão tem boas tiradas, chegando a tornar a cena engraçada em determinados momentos.

Em contraste a isso, temos Saruman como uma espécie de fantoche de Sauron, suas maldades e destruição são evidenciadas também por mais um vertiginoso travelling aéreo, que mostra toda a formação dos orcs em preparação para o confronto do Abismo de Helm. Aliás, por falar em Saruman, Christopher Lee está muito além de seu já excelente desempenho do primeiro filme, trazendo um personagem extremamente cruel e determinado, disposto a matar, pilhar e destruir tudo o que for necessário para chegar a seu objetivo, servir ao seu senhor Sauron.

O roteiro agora escrito por quatro pessoas (além de Peter Jackson, Frances Walsh e Philippa Boyens, se junta a eles Stephen Sinclair) – e novamente quebrando aquela regra de que muitos roteiristas podem resultar em algo não muito satisfatório – é especialmente cuidadoso ao revelar aos poucos os detalhes que vão construindo a grande virada da história, que no caso é a volta de Gandalf, não entregando de imediato que o Mago Branco seria ele, e não Saruman. Depois de enfrentar seu pior inimigo, aquele contra o qual ele ainda não havia sido testado, e conseguir subjugá-lo, Gandalf acaba morrendo, mas a seu espírito é permitido retornar no mesmo corpo de antes, pois seu papel ainda não havia sido cumprido na Terra-média. Como Saruman foi corrompido pelo poder do Anel, e sendo ele o Mago Branco (o maior em poder dentro da Ordem dos Istaris), Gandalf assume o seu posto, o que o leva a posteriormente o expulsar da Ordem no terceiro filme. Mas isso é assunto para mais adiante.

Ainda sobre o roteiro, trata-se de uma adaptação que foge bastante no que diz respeito à obra na qual foi baseada. Neste filme Peter Jackson e sua equipe tomam certas liberdades, alterando alguns pontos e inserindo outros. Em minha opinião, esse segundo filme é o menos fiel dos três com relação aos livros, mas isso não me incomoda. O que me incomoda de certa forma é a quebra de narrativa que ocorre quando, por exemplo, a cenas dos Ents são intercaladas com as cenas da batalha no Abismo de Helm, tira um pouco da tensão da cena. Voltando ao que comentei antes, com relação às pistas lançadas pelo roteiro quanto à volta de Gandalf, o próprio sonho de Frodo pode ser encarado como uma pista: Gandalf não morreu quando caiu, ele lutou com o Balrog. Outro ponto que pode ser citado é quando Éomer comenta que o Mago Branco anda pela floresta à espreita, ele estava falando do novo Mago Branco, e não de Saruman.

A trilha sonora de Howard Shore repete a excelência apresentada em A Sociedade do Anel, trazendo canções belíssimas, que complementam perfeitamente as cenas do filme. Agora uma trilha um pouco mais sombria, e mais tensa, mas ainda assim muito bela. Ainda com relação a isso, e se tivesse que destacar um único momento em todo o longa, onde a trilha se mostra de forma quase épica (o que é difícil, visto a qualidade do trabalho), seria a cena ao final da batalha do Abismo de Helm onde Gandalf surge ao nascer do sol com o exército de Éomer.

Falando mais sobre os Ents, os acho criaturas encantadoras, apesar de a maioria pensar o contrário. Eles são capazes de passar uma eternidade adormecidos em suas florestas, apenas vivendo ali, mas também podem se tornar criaturas extremamente perigosas dependendo de como são afrontados, como é o caso da destruição que causam em Isengard, por conta das maldades que Saruman espalhou ao redor de seu domínio, derrubando a floresta e matando animais e árvores. Ok, essa intervenção das cenas com os Ents quebram um pouco a narrativa como comentei antes, mas acho válido que estejam presentes no filme.

Sobre a batalha do Abismo de Helm, para conhecimento antes de chegar onde quero, temos o Rei Théoden, rei de Rohan – que estava sob o domínio de Saruman e após ser libertado deste por Gandalf, O Branco, em uma cena especialmente fantástica de exorcismo, recuperou sua força e consciência – que decide diante do iminente ataque vindo de Isengard evacuar o povo da cidade de Édoras para o Abismo de Helm, julgado como intransponível. Depois dos percalços da travessia e confinados no Forte, eles se preparam para a grande batalha, todos em suas armaduras, homens e Elfos lutando juntos mais uma vez. A batalha ocorre à noite, e em pouco tempo começa a cair uma forte chuva e o som dos pingos nas armaduras chega a causar arrepios, uma sinfonia de medo (mérito para a equipe de som, com seu excelente trabalho), pois estão diante de um imenso exército, o qual pode ser apenas parcamente vislumbrado no momento dos relâmpagos.

   

A direção de arte que já havia realizado um trabalho invejável em A Sociedade do Anel, repete em As Duas Torres seu magnífico feito, retratando com perfeição as cavernas do Abismo de Helm, bem como as dependências do Forte. Mas não é só isso, além dos cenários impecáveis, incluindo é claro as florestas, ainda ressalto a beleza dos Pântanos Mortos, por onde Frodo e Sam atravessam na companhia de Gollum, que já os vinha seguindo desde antes de entrar em Moria, e agora os guia até os portões Negros de Mordor. Com relação à fotografia mais alegre e colorida do filme anterior, não se repete neste: aqui Andrew Lesnie se utiliza de uma paleta mais fria e sombria, onde os tons azulados e as sombras predominam em muitas das cenas.

Sobre Gollum, ele que teve pouca participação no primeiro filme, mas que começa a ganhar espaço agora, já que o seu papel na Demanda só tende a aumentar, acredito que ele tenha desenvolvido em sua mente esse outro ser com quem ele pode conversar e quem ele sente que o protege. Os diálogos que trava com o outro dele são incrivelmente bem escritos, e isso não se deve somente ao roteiro, ou à imaginação de Peter Jackson, pois Andy Serkis, quem deu vida e alma a Gollum, participou ativamente da construção do personagem, resultando em um ser que não podemos dizer que é digital, tamanha a perfeição. Aproveito o gancho para comentar brevemente sobre o trabalho da WETA nesse segundo filme, algo realmente fantástico.

Falando mais sobre os diálogos de Gollum, gostaria de destacar o que ocorre ao final desse filme, onde os dois debatem sobre como se livrarão de Sam e Frodo para ficar com o Anel. É fantástica a conversa entre eles, pois enquanto um deseja ardentemente matar os hobbits, o outro sente medo, pois percebe que Sam é esperto e pode descobrir o que eles estão tramando. E se me permitem, aí estamos recebendo de Gollum uma pista de como poderão ser as coisas no terceiro filme, onde obviamente Sam crescerá em seu papel.

No tocante às atuações, sinto que nessa segunda etapa, os atores também passam por uma fase de transição, pois não tenho muito a destacar em termos de atuação, excetuando Christopher Lee, sobre o qual já comentei, que cresceu em seu papel em As Duas Torres e Ian McKellen que retorna mais enigmático que nunca com seu novo Gandalf. Não me interpretem mal, todos estão muito bem em cena, mas não oferecem nada “a mais” que possa ser destacado. Talvez possa dizer que Sean Astin começa a ganhar terreno com Sam, e que infelizmente Elijah Wood não vai muito além de deixar Frodo ser consumido pelo Anel e guiado por Sam.

Por fim, saliento que o já excelente trabalho que Peter Jackson realizou em A Sociedade do Anel, só fez melhorar aqui em As Duas Torres. Outro diretor talvez não conseguisse manter tão firmemente as rédeas em mãos construindo um longa onde são desenvolvidas várias histórias ao mesmo tempo, e entregando ao espectador um resultado plenamente satisfatório, onde não nos sentimos perdidos ou deslocados durante a narrativa. Conseguimos acompanhar perfeitamente Frodo, Sam e Gollum, que rumam para Mordor, topando em seu caminho com Faramir e seus homens que lutam para defender seus domínios, da mesma forma que acompanhamos Gandalf, Legolas, Gimli e Aragorn em busca de forças e recursos para conter Saruman e Sauron, e batalhando ao lado de Théoden para defender o Abismo de Helm. E ainda temos o outro ponto, o alívio da tensão, onde entram Merry, Pippin e os Ents, que apesar de atrapalhar um pouco quando inserida na hora errada, ainda assim não confunde quem está assistindo.

Agora mais uma etapa foi finalizada, em que tudo está se preparando para o momento final, aquele que podemos presenciar em O Retorno do Rei. Encerrando novamente com uma rima visual, fazendo um paralelo com A Sociedade do Anel, (onde observamos um plano aberto, mostrando que a jornada de Frodo rumo à destruição do Anel ainda está longe do fim), As Duas Torres, apesar de inferior ao seu antecessor, é um filme acima da média.

E como disse sabiamente Gandalf, “A batalha pela Terra-média está para começar”.

Poltronas 

5

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