Breaking Bad & a Narrativa Química

imagem de Giordano
Enviado por Giordano em seg, 09/30/2013 - 12:16

 

No final das contas, depois de cinco temporadas, pode parecer óbvio concluir que a série Breaking Bad, um dos maiores fenômenos da história da televisão americana, é sobre a capacidade de uma substância de se transformar em outra. Como o próprio protagonista diz no piloto, é sobre solução e dissolução. É sobre ciclos. Moléculas mudando de ligação e elétrons, de níveis de energia. No final das contas, a série não é apenas sobre o “break bad” de Walter White, o professor de química de ensino médio diagnosticado com câncer que se transforma em Heisenberg, o imperador da metanfetamina. A série talvez seja a maior ilustração já feita sobre a Lei de Lavoisier.

Apesar do que muitos afirmam, nada se perde em Walter White. Não, o homem que ama sua família, que ama química, e toda a sua essência não muda, ainda está lá. Segundo a Lei da Conservação das Massas, numa reação química que ocorre em um sistema fechado, a massa total antes da reação é exatamente igual à massa total após a reação. Ou, como se convencionou falar, na natureza nada se cria, nada se perde: tudo se transforma.

São muitas as reações em Breaking Bad: O sangue que suja a água da piscina, a metilamina que se cristaliza para se tornar metanfetamina, as células cancerígenas de Walt que se espalham por seu corpo, o ácido que corrói o teto que espalha as entranhas de Emilio pelo corredor, o excesso de heroína ao entrar em contato com o organismo de Jane, os vários corpos dissolvidos em barris no laboratório, a ricina que se dilui no chá de camomila de Lydia, o trailer RV comprimido, o preto de Schwartz e o branco de White se juntam formando a Gray Matter, o veneno que mata todo o cartel mexicano, o dinheiro sujo que entra no Lava-Rápido para sair limpo, o álcool que inebria Walter Jr na festa de aniversário do pai, o choro de Walt que se torna aos poucos uma risada demoníaca, ou mesmo uma pizza jogada no telhado, que após alguns dias enfrentando o ar seco de Albuquerque, Novo México, acaba secando e apodrecendo.

Em Breaking Bad, como na natureza, nada se perde, nada se cria, tudo se transforma. Mesmo a lente da câmera, ou seja, o espectador, se transforma em mosca, em máquina de lavar, em tubo, em máscara, em parabrisa, em pá, em aspirador, em um urso de pelúcia caolho. Os planos de pontos de vista (POV shots) de Breaking Bad são parte desse conceito de metamorfose. Kafkaesco por excelência. O termo, não por acaso, é o título de um episódio da série. Walter White, como Gregor Samsa, passa por uma metamorfose que, para ele, é natural, fluida, química.

 É interessante pensar que enquanto Walter é obcecado com a mudança química das substâncias, Hank, o cunhado policial, é obcecado por rochas – ou minerais, se assim preferirem. O imutável lhe é mais confortável. Diria que isso é até sintomático, dado o papel na sociedade que ele, sua esposa Marie, e mesmo Skyler representam: a eterna imutabilidade do homem comum que Walter ousou transcender.

Sendo uma narrativa química, a maneira como são filmados os fluidos e as substâncias (desde a metilamina, sangue, urina, café, até produtos sanitários de banheiros químicos) faz com que o espectador preste atenção no momento crucial que os reagentes se encontram. Não que, ao assistir a série, alguém identifique facilmente se o fenômeno que está presenciando trata-se de adição, decomposição, simples troca ou dupla troca. Mas é possível que, consciente ou inconscientemente, o espectador relacione facilmente os personagens a esses planos-detalhes de líquidos, sólidos e gasosos se espalhando, se misturando, reagindo. Afinal, as jornadas de Walter, Jesse, Skyler e Hank são espelhamentos do que acontece nessas reações.

Outro aspecto que me chama atenção é a relação dos personagens com os lugares que habitam, e mesmo a relação da decupagem com esses espaços comuns. Peguemos como exemplo o laboratório – de um trailer RV para um super-laboratório em um porão secreto, para um laboratório efêmero que habita diversas casas, até chegar ao laboratório nada familiar a Jesse em que este é obrigado a cozinhar nos derradeiros episódios. Aplicando uma poética do espaço (teoria desenvolvida por Gaston Bachelard que estuda os espaços físicos como campos da mente), descobre-se coisas bem interessantes.

No princípio, o trailer RV, tratava-se de um laboratório móvel, pequeno, mas que podia ser conduzido pelos personagens para onde bem entendessem, apesar de percorrem caminhos equivocados. Por enquanto, o inconsciente ainda está sob o controle de seus dois motoristas, Jesse e Walt, por mais contraditório que isso possa parecer. No momento em que o trailer é comprimido até se tornar um cubo retangular de metal, os dois já estão em um laboratório novo. Agora, há todo tipo de recurso e conforto que precisam, mas não é um ambiente familiar, não é deles. Eles são dispostos ali como em um reality-show, o controle definitivamente não é seu. Mas, no entanto, não tarda para que tanto os personagens quanto os espectadores se acostumem com a ilusão de conforto que o lugar oferece. Mas um porão, por mais iluminado artificialmente que seja, é sempre escuro no que diz respeito a luz natural. Se no trailer, nem a bagunça nem as janelas e portas abertas eram um problema muito sério, aqui, a presença de uma mosca no espaço controlado já se torna uma ameaça para o consciente de ambos: é o catalisador de uma reação mais forte.  Quando o laboratório explode, nosso sentimento como espectador não é nada parecido com a sensação de despedida que ficamos ao assistir o trailer sendo esmagado. Agora, é uma sensação de liberdade. O próximo laboratório, no entanto, gera um desconforto ainda maior, uma falta de controle total – eles são obrigados a se adequar à casa que está sendo dedetizada naquela semana, os personagens já não tem mais uma constância psíquica. A cada semana, eles devem se sujeitar aquilo que lhes aparece, independente do que seja – a linearidade emocional já é passado. Por falar em linearidade, o último laboratório que nos é apresentado, além de sujo e nada convidativo, tem uma geografia que parece permitir apenas um movimento em linha reta, para frente e para trás, e que o mecanismo no qual Jesse está preso faz questão de ressaltar. Agora, os personagens não tem mais escapatória, a não ser cumprir o destino e percorrer o caminho ao qual estão condenados.

Existem dezenas de temas pelos quais poderia discorrer no que diz respeito a Breaking Bad. Tudo é narrativo e atrativo: a edição lúdica dos episódios com fast-motion e jump cuts, o uso de filtro na fotografia, as composições de quadro, a trilha em contraponto e, é claro, o diálogo com vários gêneros: western (só o cenário do Novo México já é perfeito para isso), filmes policiais de dupla (tanto com Hank e Gomez quanto Walt e Jesse), a estética caricata dos vilões que às vezes lembra quadrinhos (os gêmeos mexicanos, Tio Salamanca e a morte de Gus Fring são exemplos claros disso) e mesmo o diálogo com o Teatro do Absurdo que ocorre em The Fly, meu episódio favorito, por sinal.

Breaking Bad se despede com um final surpreendentemente feliz. Tudo está bem. O mal está morto. O dinheiro, que desde o início já deveria ir para a família, está encaminhado. E Jesse Pinkman, o mais próximo de um herói que temos, está livre. E principalmente, nesse último episódio, Walter White prova que não se tornou Heisenberg, por mais que o reflexo no metal diga o contrário. Como uma reação química, Walter White se misturou com outra (ou outras) substância, gerando uma terceira, mais complexa que as que lhe antecederam. Mas a essência de ambas ainda estão lá. Tanto o bromo quanto o bário já são tóxicos por natureza. O brometo de bário, no entanto, é ainda pior.  

Certa manhã, ao despertar de sonhos intranqüilos, Gregor Samsa viu-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso (...) ‘O que aconteceu comigo?’ pensou. Não era um sonho.”

Kafkaesque.

Bitch.

Comentar

Plain text

  • No HTML tags allowed.
  • Endereços de páginas de internet e emails viram links automaticamente.
  • Quebras de linhas e parágrafos são feitos automaticamente.
CAPTCHA
Esse desafio é para nos certificar que você é um visitante humano e serve para evitar que envios sejam realizados por scripts automatizados de SPAM.
CAPTCHA de imagem
Digite o texto exibido na imagem.