Trapaça

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Enviado por Ghuyer em qua, 01/22/2014 - 12:03

Apenas adequado que a primeira música que começou a tocar no meu iPod após a sessão de Trapaça (American Hustle, EUA, 2013) tenha sido “Master Of Illusion”, do Gotthard.

Há uma similaridade temática evidente. Trapaças, truques e ilusões estão em cena durante todo o novo trabalho de David O. Russell, que sabe muito bem passear pelo universo cheio de enganações no qual vivem os protagonistas dessa história passada no final dos 1970, e que pretende de forma pouquíssima pretensiosa narrar um caso real.

Invés do tradicional, presunçoso e em alguns momentos ofensivo letreiro “Baseado em fatos reais”, Trapaça, ao menos nesse quesito, é honesto com o espectador e apenas comenta que “Algumas coisas mostradas aqui realmente aconteceram”. Já na primeira cena, ao acompanharmos um Christian Bale assustadoramente barrigudo aplicar uma peruca à sua careca, a temática do filme fica clara. Não só o vemos tentando mascarar sua aparência, como isso é retratado em uma sequência de planos que alternam o foco no ator e em seu reflexo no espelho, simbolizando a natureza falsa do personagem, sua tendência em iludir os outros.

O filme começa já em meio à operação “real” do FBI, comandada pelo agente Richard DiMaso (Bradley Cooper), que contou com a ajuda do falsário Irving Rosenfeld (Christian Bale) e de sua parceira Sydney Prosser (Amy Adams) para prender outros golpistas em atividade na cidade de Nova York. Porém, tão logo ocorre algo inesperado no plano deles após Irving se maquiar no banheiro, o roteiro abre espaço para a narração de Bale, que rebobina a narrativa até o início da “carreira” de seu personagem, e leva um bom tempo desenvolvendo a relação entre ele e Sydney enquanto desenrola todo o rolo até voltarmos onde o filme havia parado.

O roteiro de Eric Warren Singer e do diretor David O. Russell, embora enrolado em certa medida, é mais do que feliz em traçar essa narrativa in medias res, ao começar pelo meio da história. Além de reverenciar a estrutura dos filmes de Martin Scorsese que a direção de Russell tenta a todo o momento emular, os dois roteiristas conseguem explorar as narrações dos três personagens centrais de modo funcional e divertido na maior parte do tempo. Ainda que, no final das contas, essa estratégia narrativa acabe se mostrando conceitualmente falha em função de certa reviravolta no terceiro ato, até lá ela funciona muito bem. Tanto Irving quanto Sydney e Richard são narradores em algum momento de Trapaça, e o acerto de Singer e Russell é construir essas passagens de modo a ilustrar os diferentes pontos de vista dos personagens, invés de apenas utilizá-las como um artifício de roteiro para descrever eventos da história – o que acaba acontecendo eventualmente.

Assim como em seu trabalho anterior (que era menos ambicioso e mais delicado), David O. Russell consegue extrair o máximo de seu elenco, enriquecendo o filme com personagens ricos e cativantes graças às ótimas e calorosas performances – ainda que ovacionadas além da conta por premiações em geral. Aliás, um dos aspectos mais interessantes e respeitáveis do cineasta é justamente sua capacidade de fazer um cinema autoral focado em personagens, e ao mesmo tempo operar dentro do esquema industrial de Hollywood ao fazer filmes leves, divertidos e de amplo apelo de público. Essa é uma característica óbvia de Trapaça, tanto em termos de roteiro quanto de direção, visto que o foco do longa é totalmente direcionado para a relação entre os personagens, deixando a trama em segundo plano.

Por um lado, essa tática é interessante e feliz, pois permite aos atores investirem mais emoção e complexidade a seus papeis, o que acaba tornando os conflitos da história muito mais críveis e eficientes do ponto de vista dramático. Porém, o roteiro de Russell e Singer acaba se apoiando mais do que deveria no drama romântico vivido pelos protagonistas, e perde um tempo grande demais que teria sido melhor aproveitado, por exemplo, no desenvolvimento do esquema final montado por Irving e DiMaso para enfim incriminarem Carmine (Jeremy Renner) e companhia.

Pois, entre outros momentos, como quando Bradley Cooper esperneia ao telefone em legítimo ato de overacting que, embora marque uma das cenas mais engraçadas do filme, é completamente gratuito, o longa perde força ao insistir em convencer o espectador da necessidade de os personagens conseguirem reservar o andar inteiro de um hotel, apenas para (possível spoiler a seguir) poucas cenas depois abrir espaço para a narração de Irving convenientemente explicar que no final eles não precisaram da tal suíte porque o mafioso interpretado por Robert DeNiro jamais aceitaria se encontrar em outro local que não o escritório de seu advogado. É um desdobramento tolo e uma longa passagem do roteiro que poderia ter sido facilmente melhor trabalhada.

Vale atentar que em uma participação pequena, porém marcante, DeNiro surge como uma referência viva do cinema de Scorsese, não só pela divertida introdução de seu personagem, mas principalmente pelo histórico do próprio ator, cuja parceria com o veterano cineasta rendeu obras-primas como, em particular, Os Bons Companheiros e Cassino, dois filmes bastante homenageados em Trapaça, seja pela montagem entrecortada do trio formado por Alan Baumgarten, Crispin Struthers e Jay Cassidy, ou pela fotografia dessaturada do sueco Linus Sandgren. Aliás, até mesmo a ótima seleção de canções da trilha sonora remete às coletâneas musicais ecléticas dos trabalhos de Scorsese – e nos faz suspeitar que David O. Russell seja um grande fã dos Bee Gees, pois não deixa de ser curioso que, assim como ocorria em O Vencedor, a sequência de maior densidade dramática de Trapaça seja embalada ao som dos irmãos Gibb (dessa vez, por “How Can You Mend A Broken Heart”).

Contando ainda com uma boa recriação de época por parte da direção de arte de Judy Becker, e especialmente pelos figurinos de Michael Wilkinson, que refletem muito bem às índoles dos personagens, Trapaça só tropeça mesmo no exagerado tempo gasto com as birras românticas dos protagonistas. De forma que a boa reviravolta que finalmente mostra a cara dos verdadeiros trapaceiros vem tarde demais, depois que o longa já diluiu sua energia em excessivos afagos e tapas entre Irving e sua esposa Rosalyn (Jennifer Lawrence), Rosalyn e Sydney, Sydney e DiMaso, DiMaso e seu chefe Stoddard (Louis C. K.), e principalmente entre Irving e Rosalyn.

Poltronas 

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