Capitão América: O Soldado Invernal

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Enviado por Giordano em sab, 04/12/2014 - 03:06

          É um tanto impressionante o que os estúdios Marvel conseguiu construir em um pouco mais de cinco anos, desde o lançamento do primeiro Homem de Ferro, passando pela sua compra da Disney em 2009, pelo valor de quatro bilhões de dólares. É um feito digno de nota não só do ponto de vista comercial, mas também do ponto de vista conceitual.

            Talvez esse feito ainda careça de um nome apropriado. Franquia é um termo muito limitado, já que a manifestação do universo Marvel no cinema é, na realidade, um conjunto de franquias, que possuem suas diretrizes plásticas e narrativas próprias, mas que juntas, formam uma única estética. Marca é um termo muito empresarial, e que abrangeria também os personagens cujos direitos fogem da associação entre Marvel e Disney, e que continuam rendendo filmes, como os X-Men e o Quarteto Fantástico (propriedades da Fox) e o Espetacular Homem Aranha (propriedade da Sony), e que envolve os diferentes e complexos contratos feitos com esses estúdios, cheios de exceções e negociações de royalties. O termo mais comum a ser usado é "universo cinematográfico Marvel", que significaria algo mais ou menos equivalente ao que se construiu nos quadrinhos, e que já chegou ao final de sua primeira "fase" com o já clássico Os Vingadores. 

             E não, não acho um exagero chamar Os Vingadores de novíssimo clássico do cinema. Não que eu considere um filme tão excelente assim, uma vez que nem sequer é o melhor da linha (esse título ainda pertence ao primeiro Homem de Ferro). Mas vivemos em tempos em que pouquíssimos sucessos de bilheteria exercem verdadeiro impacto, num sentido mais longevo. Avatar fez três bilhões de dólares, e não chegou nem perto de construir algum tipo de culto ao redor de si. Eu, pessoalmente, adoro o filme, mas jamais conheci um verdadeiro fã, daqueles que sabem os nomes de todos os personagens ou sabem palavras no idioma n'avi. Na verdade, a maior parte dos espectadores nem lembra o que é um n'aviOs Vingadores, no entanto, apesar de não ter ambições de ser algo além do que o maior big mac do cinema, conseguiu consolidar rostos novos para personagens extremamente populares no imaginário popular (como Capitão América, Thor e em menor grau, Homem de Ferro), e construiu algumas das cenas mais icônicas do cinema recente, o plano sequência que mostra os heróis lutando suas próprias batalhas, e culminando em seguida no momento em que todos estão em círculo, em posição de defesa, com o Capitão como o mais próximo de um líder que podem ter. 

            Toda essa introdução foi necessária para que cheguemos a essa fase 2, e percebamos que nem o universo cinematográfico da Marvel está a salvo da crise criativa do blockbuster que faz com que o impacto dos filmes seja tão efêmero. Homem de Ferro 3, apesar de ter um roteiro bacana do Shane Black (Máquina Mortífera), ter feito um lero-lero para os fãs com o "vilão" Mandarim, e de ter feito grandes números nas bilheterias, meio que já foi esquecido. O segundo, Thor: O Lado Sombrio, é um filme muito melhor do que o primeiro filme do deus nórdico (que é o único filme que realmente desgosto até agora), mas não me peçam para explicar a trama, pois lembro mais das piadas do Loki do que do conflito em si. E ainda por cima, amargam o fracasso de público e crítica da série Agents of Shield, derivada diretamente dos filmes. É nesse contexto que Capitão América: O Soldado Invernal surge.

            Como falei anteriormente, cada franquia que compõe esse universo possui suas próprias diretrizes plásticas e narrativas. Temos o egocentrismo narrativo dos filmes do Homem de Ferro, em que as tramas são apenas suporte para o show do Tony Stark, mas garantindo algum espaço para comentários acerca dos discursos bélicos e armamentistas. Já Thor é o único herói desse grupo cuja força não se origina da ciência e da tecnologia, mas na hereditariedade e na magia divina. Seus filmes exigem uma explanação maior sobre a mitologia e as relações de poder de Asgard e dimensões vizinhasA recém consolidada franquia do Capitão, no entanto, apresentou maior dificuldade em construir essas diretrizes. 

            O Capitão América, um dos primeiros grandes super heróis dos quadrinhos do século XX. Surgiu em meio à Segunda Guerra Mundial, como reflexo direto do ufanismo americano como os grandes salvadores do mundo. Sua inserção no mundo cinematográfico atual era complexa e peculiar, uma vez que o personagem havia deixado de ser popular há muito tempo para se tornar um símbolo um tanto ridículo do patriotismo americano, já em crise desde antes do 9/11.  Posto isso, a verdade é que admiro bastante as escolhas assumidas em Capitão América: O Primeiro Vingador, do diretor Joe Johnston, que assumiu influências de matinê à maneira de Indiana Jones, construindo uma brincadeira retrô em que o Capitão América é autoconsciente do quão ridículo é em sua função simbólica. Ao mesmo tempo, não solucionou o problema da franquia, já que a história dos anos 40 se encerrava por ali. O arco do personagem continua nos Vingadores, em que o capitão Steve Rogers surge deslocado no tempo, um homem dos anos 40 perdido no novo milênio. Mas qual seria a continuidade para seus filmes solo?

            Não há, nesse segundo filme, uma herança plástica do primeiro, pois aquelas opções de aventura matinê não fariam nenhum sentido em um filme de tempo narrativo contemporâneo, a não ser em sequências específicas, como uma exposição de museu que traz a iconografia original do Capitão América, ou a seqüência que revela um dos vilões do filme através de tecnologias aparentemente ultrapassadas. É natural que aqui vejamos aquele Steve Rogers deslocado de Os Vingadores lidando com consequências de seus dramas de O Primeiro Vingador. O próprio Soldado Invernal do título é um desdobramento dos acontecimentos na Segunda Guerra Mundial, assim como a própria Hydra ou a solidão do personagem, contemplada em uma bela cena em que o Capitão reencontra seu par romântico original, Peggy Carter, agora bastante idosa em uma cama de hospital. 

            Esse novo filme se afasta da vibe de aventura anos 40 para se aproximar dos thrillers políticos dos anos 70, apesar de se passar no mundo contemporâneo. Dentro do mundo Marvel, A maior influência para esse drama urbano parece ser a Era de Bronze dos quadrinhos, a fase politizada, em que os personagens lidavam com questões morais e políticas caras ao contexto em que eram publicadas. O cenário é Washington, e as grandes corporações de defesa nacional estão em conflito. A crise interna da S.H.I.E.L.D. é o que move a trama, dando aos personagens Nick Fury e Viúva Negra suas maiores participações no cinema até agora. A história ainda introduz o personagem Alexander Peirce, interpretado por Robert Redford, grande ator já habituado a filmes sobre conspirações políticas, desde Três Dias de Condor, obra que parece ser forte influência para esse roteiro. Fecham o grupo dos protagonistas o clássico e misterioso espião das HQs, o tal Soldado Invernal do título, e o super herói Falcão, notoriamente conhecido por ser o primeiro super herói negro na história dos quadrinhos. 

            Capitão América: O Soldado Invernal talvez seja o filme mais eficiente da Marvel em questão de desenvolvimento de personagens. O conflito do Capitão America como deslocado no tempo vai além de não entender tecnologias ou ter ficado uns setenta anos sem sexo: é um conflito de valores obsoletos e valores contemporâneos, a mudança nas relações de confiança. Chris Evans está naquela que é provavelmente a melhor atuação da sua carreira até agora, dando a Rogers uma certa frustração no que diz respeito aos tempos atuais. Natasha Romanoff, a Viúva Negra, também ganha uma complexidade maior do que o estereótipo Charlie`s Angel blasé em roupas de couro que os filmes anteriores construíram para Scarlett Johansson. O mesmo acontece com Nick Fury, que além de finalmente mostrar o olho esquerdo e falar um pouco sobre seu passado, participa de cenas de ação, protagonizando uma das melhores e mais simples do universo Marvel, uma ótima perseguição de carros. Esse filme também permite a Samuel L. Jackson uma não tão sutil brincadeira com seus tempos de Pulp Fiction.

            Enfim, os diretores Anthony e Joe Russo, famosos pelo trabalho na genial série Community (o que justifica a participação do Abed em uma cena), surpreendem nesse excelente e maduro trabalho ao consolidar Capitão América como mais uma franquia segura dessa linha de filmes, com questões temáticas e identidade próprias. Claro, não é perfeito. Os problemas recorrentes da Marvel (falta de profundidade nos personagens femininos e carência de vilões realmente marcantes) ainda persistem, e às vezes o filme se rende a soluções previsíveis. Mas isso não chega a diminuir o entretenimento e a consistência da obra.

         Dando continuidade a essa "fase II" da Marvel, mas agora finalmente arriscando, teremos esse ano os Guardiões da Galáxia, trazendo personagens desconhecidos do grande público, mas que pelo trailer, talvez seja um dos mais divertidos e despretensiosos filmes da linha, trazendo para o cinema o conceito das aventuras intergalácticas, tão presente nos quadrinhos, e que provavelmente dará as caras também em Os Vingadores II. 

Poltronas 

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