Livre

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Enviado por Giordano em qui, 01/15/2015 - 01:04

É possível afirmar que o conceito burguês de viagens de auto-descobrimento deriva, de alguma maneira, das peregrinações religiosas medievais. No entanto, enquanto no medievo os fiéis lançavam-se nas jornadas para encontrar Deus, na Era Moderna, como bons antropocêntricos, a burguesia desenvolve essa ideia de viagem espiritual – essa irmã siamesa do turismo – como uma maneira de descobrir a si mesmo. As raízes do conceito são bem anteriores à classe social que o cultua: a expressão latina fugere urben (fugir da cidade) já adiantava essa necessidade crescente que o fortalecimento dos burgos geraria. Quanto mais ocupado for o cotidiano comercial em sua cidade de residência, mais necessidade a burguesia tem de “espairecer”. Então, quando Christopher McCandless (Emile Hirsch) queima dinheiro antes de sair para sua jornada no filme Na Natureza Selvagem, ele não está se distanciando do capitalismo, mas reforçando uma necessidade imposta pelo mesmo.

Numa época em que o espírito do tempo demanda imediatismo, é natural que narrativas que usam esse conceito como uma “auto-ajuda” tanto para seus personagens quanto para seus espectadores sejam absorvidos como “inspiradores” pelo público-alvo, como Comer, Rezar, Amar e A Vida Secreta de Walter Mitty. O novo produto protagonizado por Reese Whiterspoon e dirigido por Jean-Marc Vallée (O Clube de Compras Dallas) segue nessa linha. A história da andarilha Cheryl Strayed compartilha com as viagens de Liz Gilbert e Walter Mitty o otimismo e a leveza de espírito proporcionada pela caminhada. No entanto, em termos de construção narrativa, Livre se aproxima muito mais do já citado Na Natureza Selvagem do que das superficialidades protagonizadas por Julia Roberts e Ben Stiller.

No verão de 1995, a jovem Cheryl Strayed, após a morte da mãe e de anos de comportamento autodestrutivo de sexo e drogas, impôs a si mesma o desafio de fazer a PCT (Pacific Crest Trail), que consiste em atravessar  a pé o  deserto Mojave, da Califórnia até Oregon, ao longo de 150 dias. O roteiro é do romancista pop Nick Hornby (Alta Fidelidade, Educação) que tem o ingrato desafio de se concentrar na trilha percorrida sem negligenciar o passado da personagem, que justifica a caminhada. Assim, Hornby se vale de certos flashbacks, à maneira da série Lost, que sintetizam o arco narrativo de Cheryl.

As intermissões do roteirista, apesar de constituírem o elemento que mais fragiliza a narrativa, são funcionais e nos apresentam a um personagem que, por si só, talvez rendesse um filme tão ou mais interessante – a mãe da protagonista, interpretada por Laura Dern, cujas lições otimistas são ridicularizadas pela filha em determinado período de sua vida, mas que, durante a caminhada, são previsivelmente absorvidos.

Obviamente, é uma narrativa que trabalha com certas obviedades pertencentes ao nicho justificadamente marginalizado da “auto-ajuda”: as citações poéticas de Cheryl apresentados pelo voice-over surgem convenientes e talvez um pouco forçadas, assim como a maneira como são plantados alguns desafios e personagens encontrados ao longo do caminho. No entanto, quando se aceita e compreende que tipo de experiência Livre proporciona, encontra-se um filme que, se não é particularmente inspirado ou impactante, é no mínimo bastante honesto. Isso já é o suficiente para diferenciá-lo da estupidez artificial de um Comer, Rezar, Amar.

A paisagem árida emoldura a figura fatigada de Reese Whiterspoon, aqui em uma de suas melhores atuações na carreira, que tenta se manter em pé com sua mochila gigantesca, é capaz de se perpetuar como uma das poucas imagens verdadeiramente icônicas do cinema americano de estúdio em 2014, e trata-se, possivelmente, da única metáfora próxima do sutil no filme. 

 

 

Poltronas 

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