A Travessia

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Enviado por Giordano em sab, 10/10/2015 - 20:11

Robert Zemeckis é um tipo muito especial de cineasta. Remontando a artistas circenses e mágicos de palco, Zemeckis compartilha desses e dos homens que construíram o primeiro cinema (como George Meliès) o interesse em se apropriar da tecnologia para construir novas ilusões que não visam muito mais do que o puro entretenimento de seus espectadores. O diretor, mais do que mero pupilo de Steven Spielberg, encontrou sua autonomia nesse interesse em desafiar os limites técnicos do cinema. Demonstra isso diversas vezes na trilogia De Volta para o Futuro, na mescla de animação e live-action na obra prima Uma Cilada para Roger Rabbit, nas montagens históricas do oscarizado Forrest Gump e mesmo em suas três tentativas frustradas de trabalhar com animação de captura (O Expresso Polar, Beowulf e Fantasmas de Scrooge), que apesar da vanguarda da técnica, acabaram não se conectando com público algum.

Zemeckis voltou ao live-action em 2012 com O Voo, irregular drama de aviação com Denzel Washington, e esse ano, volta à plena forma com o espetacular A Travessia, que narra a aventura do artista equilibrista Philippe Petit para clandestinamente atravessar de uma torre a outra do World Trade Center nos anos 70. O roteiro conta, com bom humor, clima farsesco e um quê motivacional, o passo-a-passo que culminou na grande ação de Petit. Joseph Gordon Levitt transborda carisma e encarna um excelente sotaque francês ao nos apresentar o causo, falando diretamente com o público como um mestre de picadeiro.

Para investigar os meandros mais profundos e a repercussão do desafio de Petit, vale a pena assistir ao documentário vencedor do Oscar O Equilibrista (Man on Wire, 2008), de James Marsh.  O que Zemeckis oferece é algo bem diferente. Num primeiro momento, evoca a ingenuidade da Paris idealizada dos artistas de rua para contar as origens de Petit, e resume sua biografia até então. Num segundo momento, depois que o personagem tem a epifania daquilo que estaria predestinado a realizar,  o filme ganha um clima de filme-de-assalto-a-banco, com os preparativos para a invasão aos prédios, e as estratégias para realizar o ato. Tudo isso contado com uma leveza Zemeckiana e uma simpatia que não estaria deslocada em uma sessão da tarde: num momento é fabulesco, em outro flerta com comédia romântica, ora com história de mentor-aprendiz, ora com slapstick do cinema mudo.

No entanto, é o terceiro ato que coroa o entretenimento  proporcionado pelos primeiros terços do filme: é o momento em que, através da vertigem, Zemeckis atinge o sublime. Num dos usos mais inteligentes da tecnologia 3D do cinema, o cineasta realiza o impossível ao nos colocar no topo de uma das construções mais famosas do século XX, destruída logo no início do novo milênio, num dos episódios mais marcantes da história recente.  Através da mistura de cenários, maquetes e computação gráfica, fazendo uso da profundidade de campo para conceber a Nova York dos anos 70 e também para nos proporcionar uma efêmera acrofobia, a travessia do título pela qual esperamos todo o filme supera as expectativas naquela que é uma das sequências cinematográficas mais impressionantes do ano. A sequência dilata e sintetiza o tempo simultaneamente: se em determinado momento, para que Petit dê um passo, somos levados a uma série de epifanias e projeções de seu consciente, em outro percebemos que já se passaram quarenta minutos em tempo diegético, e Petit ainda está na corda bamba entre as torres.

O uso do novo 3D pelo cinema levanta certas questões. Sua utilização mais comum, e mais estúpida, é a conversão dos grandes blockbusters para o formato com o interesse de dobrar sua arrecadação, garantindo uma série de experiências inócuas e às vezes até incômodas. No entanto, como qualquer técnica artística, pode ser usada como parte de diferentes poéticas e pesquisas formais. James Cameron utilizou a técnica como ferramenta de imersão em seu Avatar, Martin Scorsese resgatou a magia do cinema silencioso através da perspectiva de campo em A Invenção de Hugo Cabret, Wim Wenders e Werner Herzog exploram a técnica com função documental em Pina e em A Caverna dos Sonhos Esquecidos, Ang Lee a conjuga com misticismo em seu As Aventuras de Pi, e Godard tenta esgotar o tema em um ensaio estético sobre a própria natureza da relação entre dimensões imagéticas em Adeus à Linguagem. Aqui, o uso do 3D Zemeckis tem a função de transportar o espectador para ambientes em que jamais havia se imaginado, onde o público jamais chegará. Aproxima-se bastante do uso de Alfonso Cuarón em Gravidade ou do recente drama Evereste, de Baltasar Kormákur. Todos esses estão entre os raros cineastas autores que invocam a técnica para construir algo através ou a partir dela, e não como parte de um processo industrial fordiano de lucro.

Philippe Petit, brevemente, imbuiu as torres - símbolos de um progresso urbano frio e desumanizado - de uma energia estética, artística, humana. Mais do que uma acrobacia, do que um mero stunt, Petit foi capaz de fazer com que nova-iorquinos mudassem a maneira como olhavam para aquele monumento econômico, nem que por um dia, fazendo uso de um dos mais maravilhosos atributos da arte, a capacidade de nos fazer desver e rever aquilo que já conhecemos.  Infelizmente, é um atributo que a arte compartilha com uma tragédia da magnitude do 11 de Setembro, elemento presente que nos faz ver de outra forma o filme de Zemeckis e a performance de Petit. Tudo converge para fazer de A Travessia uma reflexão sobre a natureza da arte e o poder de determinadas imagens, que a princípio parece superficial, mas desvia de soluções fáceis para essas questões.

Poltronas 

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