Goosebumps - Monstros & Arrepios

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Enviado por Giordano em qui, 10/22/2015 - 13:06

Revivais sempre foram uma recorrência entre os autores de Hollywood. Em cartaz nos cinemas nesse momento, temos A Colina Escarlate, de Guillermo del toro, e Um Amor a Cada Esquina, de Peter Bogdanovich, duas obras que se apropriam de estéticas de gêneros um tanto anacronizadas, como o romance gótico e a comédia screwball, para dar voz às intenções particulares de seus cineastas. Mas não é com esse tipo de revival que dialoga a nova adaptação da série de livros criada por R. L. Stine. Não, esse produto se identifica mais com a tendência comercial dos remakes, uma febre que marca o cinema do século XXI, e que segue no caminho inverso dos revivais: se apropria de marcas já estabelecidas na cultura pop e criam essas efemérides que muitas vezes partem dos elementos originais sem preservar sua estética ou essência.

Goosebumps: Monstros e Arrepios segue a linha de outras adaptações recentes de séries, como O Homem da U.N.C.L.E. e Anjos da Lei, ao trazer acenos familiares para os apreciadores da matéria-prima, mas com uma autoconsciência cínica cara à contemporaneidade: a autoparódia parece ser pré-requisito para a fantasia, para a aventura, para o horror. Parece não haver pouco ou nenhum espaço para a imersão e suspensão de descrença que exigia boa parte da cultura popular de décadas atrás.

 A coleção de mais de sessenta livros escritos por R. L. Stine vendeu mais de 400 milhões de cópias e foi adaptada nos anos 90 para uma fiel série da Nickelodeon, que funcionava como um Twlight Zone para crianças. Tratavam-se de histórias de horror leves, mas contadas com uma atmosfera constante de estranhamento e desconforto, muitas vezes inclusive terminando de maneira ambígua ou amarga, e tudo isso contribuía para o sucesso entre as crianças, muitas vezes atraídas pela adrenalina do medo. Horror infantil é um gênero muito difícil de se abordar no cinema. Não bastaria se apropriar da iconografia para desenvolver as narrativas típicas do filme comercial direcionado às crianças (como faz a franquia Hotel Transilvânia ou o universo do Gasparzinho), afinal, monstros e fantasmas já são naturalmente elementos visuais de apelo às crianças. O que torna Gremlins, de Joe Dante ou Convenção das Bruxas, de Nicolas Roeg, tão adequados a essa categoria é o equilíbrio entre o desconforto da estranheza e a diversão que proporciona às crianças. A série Goosebumps também atingia esse equilíbrio.

Essa nova adaptação dirigida por Rob Letterman, no entanto, não atinge esse equilíbrio, que parece passar longe das reais intenções do filme. Nem poderíamos esperar isso do criador de O Espanta Tubarões, Monstros vs Alienígenas e As Viagens de Gulliver. A verdade é que o filme jamais tenta evocar qualquer tipo de desconforto ou horror, a não ser em uma ou outra aparição de Slappy, o boneco de ventríloquo que tirou o sono de muitas criança dos anos 90. O tom aqui é de humor escrachado, como era de se esperar pela presença do comediante Jack Black interpretando o autor R. L. Stine. No lugar da persona austera e esquisita que o "Stephen King das crianças" construiu para si, Black só entrega mais um exemplar da sua galeria de enfezados irritantes. Os protagonistas, que nas histórias originais eram crianças carregadas de culpas e inseguranças típicas da idade, aqui surgem como típicos heróis adolescentes perfeitos, que poderiam facilmente ter sido importados do Disney Channel. 

A troca da idade dos personagens centrais já indica que o filme não pretende passar insegurança alguma, já que adolescentes crescidos como os do filme são menos vulneráveis do que frágeis e imaturas crianças. A história é menos ameaçadora: as criaturas de Stine literalmente escapam dos livros para a vizinhança, depois de anos aprisionados. Cabe ao autor e aos jovens capturá-los de volta. O tom aventuresco e mesmo a estrutura da história remete diretamente a Jumanji, Zathura e aos filmes do Scooby Doo dos anos 2000. Alguns efeitos de computação gráfica, aliás, parecem ter saído desses filmes também, o que também deixa a sensação agoniante de chance perdida de usar efeitos de maquiagem bacanas, afinal, criar lobisomens e outros monstros humanóides em CGI surge como uma opção bastante gratuita. Nem sequer a música do filme, previsivelmente composta por Danny Elfman, evoca em algum momento o levemente assustador tema de abertura da série da Nickelodeon.

O filme responde bem ao que se propõe, considerando que segue uma fórmula rígida. As piadas devem funcionar com o público-alvo, Jack Black está surpreendentemente moderado, os jovens são carismáticos e bonitos o suficiente para atingir também a um público mais próximo da adolescência (a menina é uma sósia mais jovem de Mila Kunis) e são envolvidos em conflitos amorosos teen. E de quebra, ainda há acenos a vários monstros clássicos dos livros: além do já citado boneco, temos o Abominável Homem das Neves, os Gnomos, o Lobisomem do Pântano da Febre, o Menino Invisível, a Garota Fantasma, a Bolha que comeu Todo Mundo, o Louva-deus Gigante, entre dezenas de outros.

A presença dessas criaturas garante vislumbres de nostalgia, mas também cometem o pecado de nos lembrar que o filme poderia agradar muito mais se fosse um pouco menos agradável, por mais paradoxal que isso possa parecer. Assim, como produto, Goosebumps: Monstros & Arrepios deve atingir suas metas: divertir o público, fazer bom números e garantir sequências. Mas perde-se a oportunidade de oferecer à nova geração aquele sentimento que as crianças dos anos 90 ainda tinham de assistir um desconfortável e divertido conto de horror, que nos dava a sensação de que estávamos vendo algo que não deveria ser visto. Hoje, esses mesmos contos pode nos parecer bobo, e alguns talvez até sejam, mas eram conduzidos de maneira a nos envolver de uma forma única.

Hoje, a conexão do público muitas vezes parece mais ligada ao cinismo da autoconsciência e às espertas metalinguagens que parecem se desculpar pela fantasia do que se entregar a ela.

P.S.
Se quiserem apenas relembrar um pouco da série, ao invés de ver o filme, curtam esses vídeos:

Top 10 - Melhores Episódios de Goosebumps:  https://www.youtube.com/watch?v=LndN54dQIuM

Abertura da Série Goosebumps: https://www.youtube.com/watch?v=gXiYpfR-cRE

 

 

 

Poltronas 

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