A Visita

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Enviado por Giordano em qui, 11/26/2015 - 14:40

O nome de M. Night Shyamalan tornou-se motivo de piada na indústria, na crítica americana e nas redes sociais depois dos conflitos de bastidores da realização de A Dama na Água (2006) e da péssima recepção de Fim dos Tempos (2008). As duas produções, além de fortalecer a persona narcisista e irredutível do autor, demonstraram extrema dificuldade de comunicar-se com o público, depois de suas obras anteriores (Sinais e a obra-prima A Vila) já terem causado impressões divididas, longe da unanimidade gerada pelos seus dois primeiros sucessos (O Sexto Sentido e Corpo Fechado). Alguns raros admiradores, como esse que vos fala, defende a grande maioria das escolhas em todos esses seis filmes. Não vejo muitos cineastas trabalhando hoje em Hollywood com tamanho domínio de câmera que Shyamalan demonstra nesses filmes, mesmo que seus talentos como roteirista possam ser um tanto questionáveis.

Nos últimos anos, o cineasta indo-americano parece ter feito tudo o que havia ao seu alcance para realmente justificar as piadas que faziam com sua carreira ao engajar-se em dois projetos comerciais pouco pessoais, um da Nickelodeon e outro de Will Smith. Enquanto O Último Mestre do Ar resultou em um constrangedor desastre, Depois da Terra não passou de uma experiência insípida com ares de videogame.

2015, no entanto, parece marcar um ponto de virada. Primeiro, concebeu e produziu a boa série Wayward Pines, uma grande miscelânea das questões do seu A Vila com Twin Peaks e Lost. Mas o trunfo veio com o excelente A Visita, contribuindo para um ano de bons exemplares de horror, como Amizade Desfeita, o austríaco Ich Seh Ich Seh e o impressionante Corrente do Mal.

Voltando a sua investigação estética do sobrenatural, depois de pensar fenômenos como fantasmas, super heróis, alienígenas, monstros, contos de fadas, e epidemias, agora Shyamalan lança um olhar sobre a gerontofobia, o medo irracional de idosos e senilidades. A história é bem simples: duas crianças que nunca conheceram seus avós (devido a uma séria e misteriosa discussão que sua mãe teve com eles antes de fugir de casa) são convidados para passar alguns dias na casa dos aparentemente simpáticos velhinhos. Na madrugada, no entanto, percebem que há algo de errado acontecendo.

O gênero do pseudo-documentário de horror (também conhecido como found footage, ainda que o termo confunda-se com a técnica de colagem do cinema experimental) já rendeu obras primas como Canibal Holocausto e A Bruxa de Blair. No entanto, desde que Atividade Paranormal (2007) tornou-se o filme mais lucrativo de todos os tempos, em termos de retorno, o subgênero saturou-se de uma quantidade enorme de filmes medíocres, como é comum em qualquer tendência de horror. O formato parecia ter se esgotado a ponto de duvidarmos de que há algo a ser explorado.

No entanto, Shyamalan utiliza-se da linguagem da câmera diegética e da vocação documental das crianças do filme para mover a câmera de sua maneira singular. Uma sequência em particular, que envolve uma entrevista e um leve zoom in demonstra muito bem isso. Todo posicionamento de câmera do filme parece ter sido pensado pelo diretor por uma razão, que geralmente difere-se da intenção das crianças, o que me parece um uso bastante sofisticado do recurso. A construção de tensão que nos trouxe icônicas cenas de A Vila e O Sexto Sentido também aparece aqui, fugindo da solução fácil dos jump scares, e invocando uma linguagem por vezes hitchcockiana. A sequência do esconde-esconde é particularmente desconfortável. Contanto com um elenco excelente, formado pelas crianças  e pelos idosos, o filme prende a atenção do início ao fim, equilibrando o drama de personagem com o suspense e o já conhecido, nem sempre bem aceito, humor ridículo do cineasta.

Com essa história simples, com ares de um João e Maria da contemporaneidade, Shyamalan volta a ser o cineasta que, no sucesso e no fracasso, arrisca-se em prol de sua linguagem e dos temas que se propõe a estudar. Espera-se que, depois desse filme, o diretor mantenha-se nos projetos mais pessoais do que retornar às pretensões orçamentárias e à falta de personalidade das últimas obras. Para quem aprecia a obra do cineasta, trata-se de um belo exercício de estilo. Já os que não compram a oscilante estranheza de sua produção, mas gostam do gênero do horror, talvez se surpreendam e se divirtam com esse exemplar, que oferece entretenimento de qualidade bem superior à maioria dos que infestam as telas dos cinemas comerciais. 

Poltronas 

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