O Filho de Saul

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Enviado por Ghuyer em sab, 02/27/2016 - 15:57

Volta e meia aparece um candidato a ganhar Melhor Filme Estrangeiro no Oscar com milhas de vantagem sobre a concorrência. Geralmente, o favoritismo já começa em Cannes. E de vez em quando o filme em questão é de fato muito bom. O Filho de Saul (Saul Fia, Hungria, 2015) é o dito cujo da temporada.

A trama gira em torno dos prisioneiros de campos de concentração nazistas que eram submetidos à ingrata e pavorosa função de recolher os corpos e limpar as câmaras de gás. Em específico, O Filho de Saul se concentra em Saul (Géza Röhrig) e na missão que ele impõe a si mesmo: encontrar um rabino disposto a ajudá-lo a conseguir enterrar o corpo de um jovem que ele assume como seu próprio filho. E quando digo “assume como seu próprio filho”, é porque o filme de fato deixa em aberto esse detalhe. Saul se mostra determinado a tudo que for necessário para enterrar o corpo, mas todos os personagem ao seu redor questionam sua motivação (“Você não tem filhos, Saul”, diz um personagem em determinado momento).

Em qualquer outra situação, seria possível abraçar essa dubiedade como uma riqueza da narrativa, tornando O Filho de Saul um fascinante estudo de personagem. E tenho certeza que muita gente encara o filme por esse ângulo. Infelizmente, a jornada de Saul Ausländer pode não cativar a todos. “Cativar” até não é a palavra adequada, visto que o filme não procura ser melodramático em nenhum momento, muito pelo contrário. O fato é que o drama que move a narrativa não se sustenta.

A motivação de Saul se torna absurda e sem qualquer coerência a partir de certo instante. Há uma trama paralela na qual outros prisioneiros organizam uma fuga. É oferecida a Saul uma chance de participar. Mais do que isso, ele aceita integrar pequenas missões imprescindíveis para o sucesso da empreitada. Porém, invés de as tomar como prioridade e seriedade, ele apenas as usa como meios de seguir na sua busca pessoal de encontrar um rabino. Nesse caminho, Saul põe diversas vidas em risco e deixa oscilando ao vento do acaso a pequena chance de seus colegas de prisão conseguirem fugir. Ele está simplesmente pouco se importando com tudo que acontece a seu redor. Ele só quer o rabino para recitar a oração judaica quando ele enterrar seu (suposto) filho. Toda essa obstinação do personagem poderia funcionar positivamente para o filme. Um homem que encontra um subterfúgio qualquer para ter alguma motivação em vida, colocando isso acima de tudo. Aliás, essa parece ser a intenção do diretor e roteirista László Nemes. E ele seria muito bem sucedido caso o subterfúgio em questão não fosse tão tolo: enterrar um corpo.

Aqui talvez entrem em jogo as crenças e os ideais do espectador. Eu simplesmente não consegui simpatizar com Saul durante a maior parte do filme. Encarei ele como um ser humano extremamente egoísta. Sua motivação de enterrar o corpo não me soou convincente de modo algum. Ele abre mão de diversas chances de salvar a si mesmo para tentar enterrar um cadáver. Isso tudo depois de (SPOILER) observar passivamente o garoto morrer na sua frente. Saul toma a missão de enterrar o corpo como uma chance de redenção para si? É apenas uma desculpa que abraça para se motivar a continuar vivo (mesmo, como dito, abrindo mão de chances de se salvar)? Ou ele é de fato brutalmente religioso a ponto de berrar um grande foda-se para tudo a seu redor desde que ele consiga um funeral espiritualmente adequado? São questões interessantes, e que até tornam rica a temática do filme. Mas é complicado contemplá-las como pontos relevantes quando o personagem que as cativa é extremamente inume à empatia do espectador.

O que mais chama atenção e diferencia O Filho de Saul, porém, não está em seu personagem ou sua trama, e sim no modo como o diretor László Nemes constrói a narrativa e enfoca seu protagonista. Invés de estruturar a montagem com planos abertos e gerais, Nemes e o diretor de fotografia Mátyás Erdély enquadram todos os planos do filme no rosto de Saul, e ainda submetem a janela de projeção a uma razão de aspecto reduzida e quadrada, confinando o espectador junto ao terror que rodeia o personagem. Não há chance de fugir. Planos sequência com câmera na mão indo de lá para cá também reforçam essa intenção, sempre enquadrando o rosto de Saul ou seu ponto de vista. Há um trabalho de zoom e de rack focus muito perspicaz tentando tornar a mise en scène compreensível, e o ator Géza Röhrig, que vive Saul, entrega uma performance carregada e cheia de sutis nuances de expressão. Aliás, por mais que o personagem seja ingrato e chato, a atuação de Röhrig é absolutamente admirável e digna de palmas. Merecia uma vaga no Oscar, muito mais do que Bryan Cranston (Trumbo: Lista Negra) e Matt Damon (Perdido em Marte), por exemplo.

No entanto, ainda que essa abordagem estética seja interessante e cheia de méritos, ela invariavelmente acaba soando cansativa e confusa. Em cenas mais movimentadas, por exemplo, é muito difícil acompanhar a ação, caótica demais. E mesmo em momentos mais calmos fica complicado de compreender qual personagem está em quadro conversando com Saul. Em dado instante, já não era possível distinguir nada em cena. E se o drama pessoal de Saul já estava me jogando para fora do filme, esses momentos de confusão visual apesar serviram para me afastar ainda mais.

Ou seja, até aquilo que torna o filme curioso e diferencial acaba se mostrando problemático. O que é uma pena. O Filho de Saul está longe de ser um filme ruim. Mas seu arco dramático tende a simplesmente não funcionar para certos espectadores. E sua abordagem estética é tão cheia de pontos positivos quanto negativos.

Poltronas 

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