Zoolander 2

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Enviado por Ghuyer em qui, 03/03/2016 - 21:25

Se o rosto da comédia hollywoodiana da década de noventa era aquele do sorridente e maleável Jim Carrey, os anos 2000 encontraram seu brilho no semblante humilde e adoravelmente idiota de Ben Stiller. Pois, sim, gostemos ou não, pelo menos até 2006, Stiller talvez tenha sido o maior nome da comédia do cinema dos Estados Unidos. E não por acaso.

Stiller não apenas é dono de um timing cômico exemplar, sendo também competente ao desempenhar diversas personas cômicas, desde bom moço (Entrando Numa Fria, e a maioria de seus papeis, verdade seja dita) até vilão (Com a Bola Toda). Mais do que isso: Stiller é um bom autor de comédia que entende as sutilezas do gênero. Seu terceiro trabalho atrás das câmeras, Zoolander (EUA, 2001), lançado longos quinze anos atrás, trouxe essa verdade à tona. Depois de estrear com Caindo na Real (Reality Bites, 1994) e tropeçar com o pavoroso O Pentelho (The Cable Guy, 1996), Stiller encontrou seu norte com a história do modelo masculino absolutamente estúpido que sofre lavagem cerebral para matar o primeiro ministro da Malásia. Com uma trama corretamente abobada, personagens maravilhosamente idiotas, e inúmeras participações especiais, indo de Billy Zane a David Bowie (este responsável pelo melhor momento do filme), Zoolander foi um belíssimo tapa na cara do mundo da moda, evidenciando e escrachando sem dó a futilidade que gere o mesmo.

Eis que, uma década e meia depois, temos a tão aguardada sequência Zoolander 2 (EUA, 2016). Especulada faz anos, tornou-se realidade após Stiller finalmente ter se dado trabalho de conceber uma história ainda mais insana e absurda que a do original (com a cooperação dos roteiristas John Hamburg, Nicholas Stoller e Justin Theroux - que faz uma ponta no filme, repetindo seu papel como o Evil DJ). Na trama, a detetive da Divisão de Moda da Interpol (sim, exatamente), Valentina Valencia (Penélope Cruz) percebe uma conexão entre as mortes prematuras de jovens astros da música pop - todos exibem no rosto a famosa expressão Blue Steel de Derek Zoolander (Ben Stiller) -, e parte em busca do famoso e desaparecido modelo, na esperança de que ele a possa ajudar. Sim, é um plot retardado a esse ponto, e essa é apenas a pontinha do iceberg, há muita mais besteira pela frente.

Após o mistério principal da narrativa nos ser apresentado, segue-se, na forma de reportagens bombásticas, uma recapitulação dos momentos mais importantes na vida de Zoolander desde os eventos do filme anterior, para que possamos entender porque o modelo de moda “barra” fashion se afastou de tudo e de todos. Recluso em uma cabana em algum canto remoto de alguma região nevosa dos Estados Unidos, Zoolander recebe uma visita inesperada (uma das participações especiais do primeiro filme cuja identidade não deixa de ser um spoiler) que o convence a voltar às passarelas e participar de um evento de moda em Roma.

Lá, ele, Hansel (Owen Wilson) e Valentina (Cruz) se metem em altas confusões do barulho enquanto o primeiro tenta se reaproximar do filho, o segundo lida com uma crise de identidade, e a terceira segue em busca do vilão da história. Mais ou menos isso. E no meio de tudo, se desembaralha a trama maligna por trás da morte dos popstars jovenzinhos, a mitologia por trás dos modelos masculinos ganha novos e misteriosos contornos, e muitas participações especiais aparecem no meio do caminho.

Ben Stiller parece que não se separou de Derek Zoolander em nenhum momentos dos últimos 15 anos. Ele resgata todos os maneirismos de expressão do personagem como se o primeiro filme tivesse sido lançado pouco tempo atrás. Desde os olhares icônicos (Blue Steel, Magnum…), até o tom de voz brando e a dicção pausada e acentuada em fonemas específicos, Zoolander continua o mesmo idiota adorável de antes. O mesmo pode ser dito de Owen Wilson, que resgata o hedonista Hansel do armário sem dificuldades, ganhando até mais espaço em cena para desenvolver os dramas do sujeito. E se Penélope Cruz aparece meio perdida (POR QUE contratar uma espanhola para interpretar uma italiana?) no papel feminino central da história (posto ocupado com mais competência por Christine Taylor no original), o mesmo não pode ser dito sobre Will Ferrell, que volta a brilhar loucamente como o insano Mugatu.

E como se, no primeiro filme, criar um vilão que estivesse determinado a fazer lavagem cerebral em um modelo para que ele matasse o primeiro ministro da Malásia já não fosse idiota o suficiente, aqui na sequência temos o maquiavélico Mugatu se superando na complexidade de seu plano do mal, e rendendo as melhores gargalhadas do filme. O que torna a atuação maravilhosamente diabólica de Ferrell tão admirável, e o personagem tão divertido, é que, por mais forçado e absurdo que Mugatu seja, tanto temperamental quanto visualmente, ele no final das contas é o ser mais racional daquele universo nonsense todo, e seus comentários incrédulos frente à imbecilidade latente de Zoolander são a encarnação na tela do que o espectador tem vontade de dizer ao protagonista.

E embora não haja David Bowie dessa vez (RIP), Zoolander 2 compensa esse desfalque com o dobro de participações ilustres, muitas delas de figurões do mundo da moda que (corretamente) aceitaram rir de si mesmos e de certa forma comprovar o ponto do filme: as tendências e futilidades da moda não fazem o menor sentido e não devem jamais ser encaradas com seriedade. Até os estilistas estão rindo do culto que vocês fazem a eles.

Portanto, mais uma vez Ben Stiller acertou na mosca. Zoolander 2 é mais um deboche divertidíssimo justamente por se levar a sério demais e ao mesmo admitir a estupidez atroz intrínseca ao projeto, que dessa vez expande ainda mais o conceito de “a zuera não tem limites”. Nesse aspecto, o compositor Theodore Shapiro merece palmas por ironizar sutilmente temas de diversos filmes de super heróis recentes, incorporando essas melodias “épicas” à trilha sonora zombeteira do longa, que várias vezes se baseia em elementos “quadrinescos” para montar sua própria mitologia de bem vs. mal.

Eis aqui uma comédia que é um prato cheio para adoradores do humor idiota, repleto de referências às cenas mais marcantes do primeiro filme, com a reciclagem de algumas piadas, bem como a esperta subversão de outras, na medida certa. Sem contar, claro, que o brilhantismo dos diálogos cunhados por Stiller e seu time de roteiristas rende novos momentos sensacionais, como quando, em uma cena a princípio dramática, Derek olha intensamente para o filho e lhe diz que não tem palavras para expressar o quanto este o magoou… complementando a sentença com “é sério, eu não tenho o vocabulário necessário para isso”.

Olha, eu fiquei realmente surpreso com tanta idiotice. Esperava bobagem, mas não tanta. Amei.

Poltronas 

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