A Bruxa

imagem de Ghuyer
Enviado por Ghuyer em sex, 03/04/2016 - 13:19

Em algum momento de 2015, após o sucesso que fez no festival de Sundance nos Estados Unidos, ganhando o prêmio de melhor direção, aliás, A Bruxa (The Witch, EUA/Brasil/Canadá/Inglaterra, 2015) rondou a Internet com um trailer tenso até não poder mais e que prometia um filme de terror como há muito não se via (pelo menos no grande circuito comercial de cinema). E dito e feito.

No entanto, o espectador médio de filmes de terror não vai gostar de A Bruxa. Aquele cara que acha Tubarão (Jaws, 1975) e O Bebê de Rosemary (Rosemary’s Baby, 1968) “chatos”, sabe? Esse cara vai detestar o filme. Pois, na trilha desses dois clássicos, A Bruxa busca estabelecer uma atmosfera de tensão crescente invés de apostar em sustos forçados e baratos.

No início da projeção somos apresentados a uma família de extremistas religiosos que são considerados fanáticos demais até mesmo pela população puritana alucinada que veio para a América do Norte nas primeiras levas de colonização britânica. Exilada da comunidade, a tal família segue para o meio do nada e constrói seu lar às margens de um pequeno riacho ao lado de uma floresta. A partir dali, acompanhados estranhos acontecimentos que assombram a vida daquelas pessoas, a começar pelo desaparecimento do filho mais novo, ainda bebê.

A sequência que sucede o sumiço da criança talvez esteja entre os momentos mais diabólicos que tive a chance de ver no cinema. Ali dá para se ter certeza que A Bruxa trata-se de um filme de terror para gente grande. É com certeza a cena mais gráfica do filme todo, ainda que boa parte dela se dê nas sombras. Provável que a decepção impere sobre a cabeça dos desavisados que esperam sangue jorrando para todo o lado. Porém, é justamente por revelar apenas o necessário que a cena funciona tão bem, nos deixando literalmente no escuro quanto à identidade da ameaça.

Ao mesmo tempo em que a bruxa do título lança horrores para cima da família religiosa, acompanhamos como essa lida com tal situação. O amigo e crítico Yuri Correa fez o perspicaz comentário sobre o filme: “A BRUXA conta a típica história de uma família tradicional cristã. Ou seja, é aterrorizante”. E ele não poderia estar mais correto. Em ternos de insanidade, o modo como o pai (Ralph Ineson) e a mãe (Kate Dickie) lidam com as supostas ações da bruxa está pau e pau com as mesmas.

Dono de um vozeirão digno de narradores de trailers, Ralph Ineson faz do patriarca William alguém profundamente entregue à palavra bíblica, e quase completamente desligado da realidade que o cerca. O “quase” é o que torna o personagem, a atuação de Ineson, e o filme como um todo, mais interessante. É notável que, por mais religioso e crente no desejo divino que William seja, ele tem algum bom senso, ainda que mínimo. Quando a plantação começa a morrer, ele vai para a floresta tentar caçar invés de ficar choramingando ajoelhado pedindo arrego para deus. Da mesma forma, Kate Dickie (a doida do Vale de Game Of Thrones) transforma Katherine em mais do que apenas uma mãe em luto que começa a perder a razão aos poucos. Se no começo William parece ser o razoável do casal, aos poucos Katherine lança comentários que desmontam a ideia mais íntegra que tínhamos de seu marido. Mas não há bom ou mal aqui. Ambos são pessoas muito falhas que utilizam a religião como desculpa para seus erros.

Mas o filme é mesmo sobre a filha mais velha, Thomasin, interpretada com competência por Anya Taylor-Joy. A adolescente que começa a ter corpo de mulher, que começa a se tornar adulta e a pensar por si mesma. O grande foco do filme é esse. E como a sociedade não consegue lidar com isso. Em dado momento, Thomasin decide assustar a irmã mais nova dizendo que ela mesma é a bruxa que levou e devorou o irmãozinho mais novo delas, que ela dança nua de noite para o demônio ver, e outras coisas mais. É um pequeno monólogo maravilhoso de ver. Claro que ela estava brincando, para aterrorizar a peste que tem como irmã, mas há algo no modo como ela diz aquilo tudo que mostra como, em alguma instância, ela gostaria que fosse verdade, como ela gostaria de ser ver livre das amarras familiares opressoras...

Mantendo a mão firme sobre a narrativa o tempo todo, o diretor e roteirista Robert Eggers demonstra controle total sobre sua criação, imergindo o espectador no terror absoluto que cerca aqueles personagem, criando em uma crescente atmosfera de tensão que é incrementada pela fotografia fria de Jarin Blaschke e pela trilha sonora inquietante de Mark Korven. Ainda contando com uma recriação de época impecável (não por acaso, Eggers era designer de produção), A Bruxa é um sinistro retrato da Nova Inglaterra que é tanto fiel, com diálogos retirados quase integralmente de documentos da época, quanto criativo, ao compor uma das narrativas sobrenaturais mais competentes dos últimos anos.

Poltronas 

4

Comentar

Plain text

  • No HTML tags allowed.
  • Endereços de páginas de internet e emails viram links automaticamente.
  • Quebras de linhas e parágrafos são feitos automaticamente.
CAPTCHA
Esse desafio é para nos certificar que você é um visitante humano e serve para evitar que envios sejam realizados por scripts automatizados de SPAM.
CAPTCHA de imagem
Digite o texto exibido na imagem.