Ética profissional em Faces da Verdade: sigilo das fontes e conflitos legais

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Enviado por Julia em seg, 07/04/2011 - 22:34

 

Em um período no qual câmeras escondidas ilustram “grandes matérias” e programas (que se dizem “populares”) não economizam no acusar-sem-provas alegando “denunciar” um suposto criminoso, Faces da Verdade (2008) mostra um exemplo da responsabilidade do comunicador. Tal atitude não se dá apenas com seu público, mas também com aquele que lhe auxiliou na construção da matéria: a fonte.

No longa, o presidente dos Estados Unidos é atingido por um tiro e culpa a Venezuela pelo atentado, bombardeando o país. A jornalista Rachel Armstrong (Kate Beckinsale) com o auxílio de uma fonte anônima, descobre uma agente secreta, Erica Van Doren (Vera Farmiga) da CIA, que teria informado em relatório ao próprio presidente que o atentado não teve relação com o país sul americano. A partir dessa revelação, estabelece-se um escândalo de âmbito nacional, que leva o Estado a classificar o caso como “Segurança Nacional” passando até mesmo por cima ddda Primeira Emenda e causando problemas para Armstrong, que acaba presa por não colaborar com o caso, escolhendo manter sua fonte em sigilo.

A jornalista sacrifica não apenas sua liberdade, mas também o convívio com sua família e a atividade profissional, pelo seu princípio ético. Ela se arrepende em alguns momentos, apenas de “ter escrito” o artigo, jamais de não ter contado a fonte. Encarando juízes e promotores, que na situação parecem ameaçadores – como detentores de um poder imenso e prescrito na “lei” -, Rachel consegue manter-se firme sem se desviar do assunto principal apesar da constante e assustadora pergunta dirigida a ela: “Quem é a sua fonte?”.

Mesmo atrapalhando sua vida pessoal, Rachel Armstrong se mantém fiel ao princípio que a guiou até ali: o compromisso de fidelidade com a fonte. Porém, o filme não é tolo ao promover a idéia de que a jornalista se manteria tanto tempo apenas por fidelidade. Ela também pensa na sua integridade e futuro profissional. Afinal, como alega o advogado Alan Burnside (Alan Alda), se ela quebrar o compromisso de fidelidade, como uma outra fonte iria lhe confiar a palavra? E como conseqüência, quem acreditaria no veículo no qual ela trabalhava?

A relação entre Burniside e Armstrong também se estabelece de forma orgânica, visto que o advogado (que no início considerava o caso fácil e sem possíveis maiores conseqüências) acaba se surpreendendo com a insistência da jornalista, aceitando até mesmo defende-la de graça, quando pouco a pouco vai se apegando às concepções éticas de Rachel. Tratando de temas como a cultualização momentânea da mídia, desestruturação familiar (com a distância, vemos o quão abalada ficou a relação entre mãe e filho) e o isolamento prisional, somos surpreendidos com uma revelação final intensa e doce. Se pode ser considerada não-ética a extração de uma informação de uma fonte ingênua e ainda inconseqüente da plenitude de seus atos, a protagonista tenta, no mínimo compensar o revelador com o seu máximo e mais longo possível silêncio.

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