As Aventuras de Tintim

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Enviado por Giordano em dom, 01/22/2012 - 20:05

Sempre comento que transpor desenhos animados para cinema é uma tarefa difícil, quase impossível. Temos uma enorme lista de resultados ruins ou péssimos: Scooby Doo, Popeye, Zé Colméia, Garfield, Smurfs, Dragonball, Alvin e os Esquilos. Alguns – raros – estão num lugar confortável na minha memória pois só os assisti na infância: Os Flintstones, A Família Addams, Gasparzinho. Já as Tartarugas Ninjas são um caso a parte, porque acho os filmes antigos um grande achado do cinema trash. Continuo afirmando que o único live-action de um desenho animado que funciona é Speed Racer, dos irmãos Wachowski. Trata-se de um filme quase experimental esteticamente, que utiliza a liberdade de linguagem de um desenho animado para o cinema, sem no entanto, deixar de lado a trama, que envolve, por mais boba que seja (e deve ser boba para manter o espírito do desenho). Encontrar a medida certa nesse tipo de empreitada é um feito admirável para um filme. Speed Racer, no entanto, foi um fracasso de público, diferente dos esquilos cantores e do homenzinhos azuis.

“As Aventuras de Tintim” era provavelmente um dos meus desenhos favoritos. Tintim não é tão popular no Brasil – embora provavelmente seja mais popular aqui do que nos EUA. Trata-se de uma série de quadrinhos belga dos anos 30 que se tornou desenho animado. Nunca tive muito contato com quadrinhos, mas o nome do criador Hergé (assim como de Peyo e de Jim Davis) sempre esteve muito presente no meu imaginário devido às séries de animações. A história é bem simples – um repórter e seu cachorro se metendo nas maiores confusões investigativas. Há os personagens secundários carismáticos – o alcoólatra Capitão Haddock, os agentes da Interpol Dupond e Dupont, o cientista professor Girassol, e a intrometida e aleatória cantora de ópera Bianca Castafiori.  A história, embora seja totalmente inocente e infantil, jamais limou as drogas, o alcolismo, morte ou a violência do cotidiano de Tintim. As posições sócio-políticas da série sempre geraram mal entendidos, levando Hergé a ser taxado de conservador, racista, antissemita, mas nada disso afetou a popularidade europeia da série. Tintim é provavelmente o maior ícone literário da Bélgica, e o responsável pelo florescimento da indústria de quadrinhos europeia, sem falar que sempre gerou a admiração de nomes importantes da cultura, de Dalai Lama a Andy Warhol.

Quando Steven Spielberg e Peter Jackson anunciaram os filmes de Tintim, vibrei e gelei ao mesmo tempo. O meu cineasta favorito adaptando um de meus desenhos animados favoritos. Tudo parecia certo, mas o fator “adaptação de desenho animado” me assustava. E então foi anunciado que seria uma animação em CGI e motion capture. Fiquei feliz, embora eu não seja dos maiores fãs de CGI. Uma animação 2D com os traços de Tintim, por mais charme que tenha, dificilmente atrairia público aos cinemas hoje em dia. E um live-action ia ficar uma aberração esquisitíssima. (vale lembrar que Tintim já teve tentativas de live-action em seu país de origem... tem no youtube... é estranho).  A melhor solução parecia realmente o 3D. Mas tecnicamente precisava ser uma das melhores animações 3D do cinema para justificar o pedigree que tem. E de fato, é.

A animação mistura perfeitamente o CGI puro com a técnica de captura de movimento (que espero não precisar explicar depois da repercussão de Planeta dos Macacos: A Origem) e contando com Jamie Bell e Andy Serkis (sempre ele.) como os protagonistas Tintim e Haddock. A qualidade da animação de fluidos – como água e poeira – rivaliza com Rango, outra grande animação da Nickelodeon esse ano. No entanto, em “movimento de câmera” e “mise-en-scene” (se é que esses termos podem ser aplicados a essa técnica), Tintim reina sozinho como a animação em CGI mais virtuosa desde que Toy Story abriu caminho. Os planos-seqüências são lindíssimos, a qualidade da textura de todos os materiais do filme, o movimento fluído de todos os personagens são triunfos do CGI – até agora, já que essa técnica está em constante evolução. Cortesia da WETA, que Peter Jackson botou no mapa com a trilogia do Anel.

As Aventuras de Tintin” faz sentido dentro da filmografia de Spielberg, uma vez que o arqueólogo Indiana Jones é frequentemente comparado ao repórter. E aqui, o cineasta não nega em nenhum momento a fonte do personagem. Aliás, pelo contrário. A introdução, embora não seja a música original, é uma linda homenagem ao 2D (e que me lembrou diretamente Prenda-me se for Capaz). Hergé surge como um personagem, e a primeira vez que vemos Tintin é em um desenho seu, com o traço original.

A história mistura as três primeiras aventuras do repórter em uma só, concentrando o segredo do navio Licorne, da família de Haddock, como macguffin (elemento que move a trama), mas utilizando situações envolvendo navios, desertos, aviões, cantoras de ópera, entre outras que aparecem nos episódios de Tintin. Como no desenho, tudo no filme é de uma confortável previsibilidade. Sabemos o que vai acontecer com Tintim e Milu, sabemos como Haddock vai reagir, e sabemos que os Dupondts vão tropeçar e repetir as frases um do outro. Mas em nenhum momento, essa previsibilidade é um problema. Ela joga a favor do filme, gerando nostalgia ao ver cada gag, ou reconhecer cada elemento da iconografia do personagem, ou mesmo quando vemos o rapaz falando sozinho, chegando a conclusões lógicas e fazendo perguntas retóricas. A nostalgia chega ao máximo na excelente dublagem em português, que assim como em Speed Racer, remete às vozes originais.

O maior problema do filme talvez seja também o seu maior trunfo. A busca da verossimilhança na animação é sempre uma via de mão dupla. Isso se deve ao fato de uma regra básica, uma curva que diz que quanto mais próximo do real é a animação, mais temos dificuldades em aceitá-la. Quanto mais estilizada, mais nos envolvemos. Nos planos abertos e seqüências de ação, não há crítica alguma. Já nos closes de Tintim, há, com certeza, uma estranheza, como nos recentes filmes de Robert Zemeckis (O Expresso Polar, Beowulf, Os Fantasmas de Scrooge). Sem falar que a bidimensionalidade da trama e inocência dos personagens em 2D entram em conflito com o 3D, gerando algo distante da maturidade da Pixar e da anarquia da Dreamworks, estéticas as quais estamos acostumados nesse formato.

De qualquer maneira, e purismo a parte, “Tintim” é uma excelente diversão, um ótimo passeio de montanha russa que talvez pudesse ter mais desenvolvimento de personagens e tempos de respiro no roteiro, que emenda uma cena de ação em outra, mas a técnica e a nostalgia são tão sedutoras que esses problemas passam quase despercebidos. Belíssimas imagens em movimento são acompanhadas de uma edição de som sensacional e de uma trilha inspiradíssima de John Williams (embora eu tenha sentido falta da trilha do desenho animado). A direção de arte tem como base os desenhos, mas os transcende em perspectiva e textura, e a fotografia conta com os travellings, a câmera baixa e o flare característicos de Steven Spielberg, que aqui ganham um charme a mais por tratar-se de uma animação.  

A crítica Ana Maria Bahiana considerou o filme uma volta à era da inocência através de tecnologia de ponta. E não só Tintin representou isso esse ano, já que tivemos uma série de filmes à moda antiga, que remetem à ingenuidade de outros tempos em que o cinema estava menos cínico, alguns fracassos e outros sucessos como Muppets, Cavalo de Guerra, Capitão América, A Hora do Espanto, O Artista, Hugo, Super 8 e até Woody Allen brincou com nostalgia em Meia Noite em Paris. E toda a novela ao redor do duelo de formatos na adaptação de Tintim só nos prova que 2D, Live Action, CGI ou Motion Capture, no fim, o que interessa são os personagens e as histórias, e de que maneira eles se adequam ou não a determinadas técnicas. E Tintim encontrou um excelente espaço na animação 3D e espero que o fracasso nos EUA não coloque a franquia em escanteio. 

 

Poltronas 

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