Batman - O Cavaleiro das Trevas Ressurge

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Enviado por Julia em qui, 07/26/2012 - 23:51

Cuidado, leitor! Spoilers no texto...      

            Após sete anos de saga e dois filmes considerados excelentes, Christopher Nolan consegue se superar em Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge. A conclusão épica da saga é forte e inteligente, nos mostrando ainda mais claramente a face humana de Bruce Wayne, não em contraste com o seu lado “símbolo”, mas de uma forma complementar. A partir de sua dor, de suas dúvidas e de suas intenções, o espectador se deixa levar e sentir o mesmo que Batman sente ali. De uma forma mais expressiva que nos outros longas, o homem Bruce Wayne e o símbolo Batman se unem, tornando em certos momentos difícil separar exatamente um do outro.

            O longa mantém o ritmo mais realista e urbano que foi adotado no segundo filme da trilogia, revelando uma Gotham mais otimista. Devido às ações do falecido Harvey Dent (agora herói local, já que a população desconhece seus feitos após o acidente que o transforma no vilão Duas Caras) e as leis que seguiram sua morte,  um grande número de criminosos foi preso, deixando a cidade em uma época de paz. Contrariamente, Bruce Wayne vive um período de depressão após a morte da amiga Rachel, que ele acreditava estar esperando por ele. E Nolan retrata os sorrisos e cores das festas dadas por Wayne (que ele nunca não comparece) em contraste com a depressão e escuridão na qual a mansão se encontra, parecendo, muitas vezes, um mausoléu.

            E se nos dois primeiros filmes Bruce Wayne era totalmente amparado por seu dinheiro, por Rachel e por Alfred, em Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge, ele se vê sozinho. Após se desentender com Alfred e sofrer um golpe financeiro que o leva a falência, Wayne percebe o peso de ser o símbolo que é. Além disso, desconforta o espectador saber da solidão e da vulnerabilidade do personagem. E talvez esse desamparo seja ainda mais necessário para mostrar a força do herói: mesmo sem recurso nenhum, ele é capaz de ascender após perdas que, como Batman, tiraram sua boa reputação e, como Bruce Wayne, a mulher que amava. A belíssima cena que mostra Wayne escapando da prisão conhecida como “o poço” pode exemplificar a independência e a força do personagem. Ali, ele enfrenta um de seus maiores medos durante a subida e, ao mesmo tempo, ascende para enfrentar a cruel situação que Bane impôs à Gotham City e para seguir o destino que o próprio se dá a partir do momento que decide voltar como o herói local.

            Christian Bale, que já havia mostrado sua capacidade de assumir o papel de Bruce Wayne/Batman nos filmes anteriores, agora se supera retratando com sensibilidade e melancolia a inicial decadência do personagem. Ele demonstra que os anos passados entre os dois filmes não significaram apenas um envelhecimento físico para o personagem, mas também um grande desgaste emocional, devido aos traumas vividos no segundo longa. Se antes Bruce Wayne precisava se disfarçar de “socialite bilionário” (saindo com modelos, comprando hotéis, entre outros) para esconder sua verdadeira identidade, agora ele afunda junto com a reputação de Batman, mesmo que o homem já não vista a máscara. E o ator é bem sucedido ao demonstrar a influência dos conflitos internos (e externos, como o acidente com Gordon) no personagem e que pouco a pouco o levam a retomar a identidade secreta. O restante do elenco fixo continua desempenhando com propriedade os papéis que assumiram. Gary Oldman encarna Jim Gordon com a seriedade de sempre, representando o principal foco de esperança em Gotham após o exílio forçado de Batman por Bane, e Morgan Freeman continua dando rosto à brilhante mente de Lucius Fox. E como não se emocionar com Michael Caine, que nos mostra um Alfred que, já cansado em tanto apoiar o homem para o qual trabalhou desde o nascimento, preocupa-se com não apenas a sobrevivência do personagem título, mas principalmente com a sua felicidade?

            Entre os novos nomes, Marion Cotillard encara Miranda Tate com doçura, o que justificaria o interesse de Bruce Wayne por ela, visto que o contrário parece inicialmente forçado (mas que, claro, o filme se encarrega de justificar). Porém, os principais (novos) destaques da produção são, sem dúvida, Anne Hathaway como a ladra Selina Kyle, Joseph Gordon Levitt como o correto policial Blake e Tom Hardy como o terrível Bane. A química de Hathaway com Bale é perceptível, e a atriz combina de forma orgânica sensualidade, esperteza e bom-humor com uma dose necessária de “trapaça”, que caracterizam a personagem. Levitt, graças à boa atuação e ao seu carisma, fornece ao órfão Blake características importantíssimas para que o final do filme funcione, deixando os espectadores animados ao invés de uma possível decepção. Blake é corajoso, decidido, honesto e acima de tudo, esperançoso, tornando vazias possíveis críticas ao importante papel que seu personagem encontrará para si no final do filme. Aliás, mesmo dando diversas pistas ao longo de toda a projeção, a forma que Nolan encontrou para nos revelar quem, finalmente, era (ou quem será) Blake foi curiosa e inteligente.

            Tom Hardy interpreta Bane, um vilão não apenas forte, mas também incrivelmente inteligente, sem escrúpulos para a execução de seus objetivos. Segundo Alfred, o vilão é “Nascido e criado no inferno da Terra” e com o auxílio da trilha sonora de Hans Zimmer (excelente), Bane é assustador em todo o tempo no qual aparece na tela. Enquanto em Batman: O Cavaleiro das Trevas o vilão Coringa gabava-se de conseguir mexer com a cidade apenas com balas e galões de gasolina, Bane preocupa-se em estar fortemente militarizado, já que seus objetivos são motivados por um ideal, enquanto os do vilão de Heath Ledger eram, aparentemente, guiados pela loucura do personagem. Os crimes de Bane inicialmente parecem empresariais, que ele executaria por ser um mercenário, mas logo revelam sua verdadeira intenção, e isolam a cidade de Gotham de qualquer proteção, inclusive policial. A polícia, aliás, é uma instituição que muda consideravelmente após os dois primeiros filmes. Vista anteriormente como corrupta, agora a instituição é eficiente no combate ao crime de Gotham, como mostra Blake ao dizer no início da película que “quando você limpou as ruas, você limpou bem. Em breve, estaremos perseguindo os livros atrasados da biblioteca”.

            E o que será que mais causa medo ao estilo de sociedade criada por Bane? Enquanto, em um regime democrático, existem diversas instituições que protegem o cidadão, no regime de Bane todas elas são derrubadas. A queda dessas instituições que garantem conforto ao indivíduo são, sem dúvida, um dos aspectos mais assustadores, causando um clima de guerra civil em Gotham. O vilão cria um tribunal arbitrário (que conta com a participação de um curioso juiz) e leis ditas “do povo”. Claro que, somado a isso, Bane atua como um déspota e a ameaça da explosão da bomba é a causadora de tal “revolução”, não partindo diretamente de uma demanda popular. Promovido a detetive, Blake e o comissário Gordon atuam como os focos de resistência, agindo a partir das brechas que encontravam no modelo de sociedade criado por Bane. E é essa capacidade que o ex-mercenário tem de destruir a organização social que o torna ainda mais assustador.

            Apesar da excelência do filme, algumas poucas questões incomodaram, como por exemplo, como Bruce Wayne entrou em Gotham estando a cidade cercada? Eu não questiono a fuga da prisão com poucos suprimentos (afinal, a resistência de Wayne pode ser vista já em Batman Begins, quando este procura a Liga das Sombras), mas se todos buscavam sair da cidade ameaçada de algum modo, qual foi a forma encontrada por Wayne para entrar? Além disso, como ele confiaria em Selina Kyle após ela entrega-lo para Bane? E como ela se interessou tão rapidamente por ele, se desconhecia partes essenciais de sua natureza como Batman ao questionar o porquê de ele ter voltado para a catastrófica Gotham quando poderia ter ido para qualquer lugar? Como Blake deduziu que Bruce Wayne era Batman apenas pelas expressões?

            Fora isso, Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge é uma conclusão fantástica para a saga que começamos a acompanhar em Batman Begins. Mesmo com algumas modificações dos quadrinhos originais, Nolan tentou readaptar histórias e personagens, ligando-os todos a algum objetivo que justifique os conflitos que a história causa, possibilitando que o espectador entenda e sinta as motivações das pessoas que vê presentes na tela. Assim, o diretor não tentou apenas usar muitas histórias independentes, mas juntá-las, costurando-as com o talento já mostrado em outros longas e tornando O Cavaleiro das Trevas Ressurge o final digno para toda a trajetória de Bruce Wayne.

Poltronas 

5

Comentários

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Enviado por Rafael em sab, 07/28/2012 - 22:23

Eu acabei montando, de certa forma, uma teoria sobre cada uma das que tu aponta, mesmo eu concordando que o filme deveria ter trabalhado melhor elas:

  • Fox no início cita as filiais das indústrias Wayne. Calculando que provavelmente elas estariam espalhadas pelo mundo, quase certo que teria uma pela  Europa e ele poderia tentar conseguir um meio de levar ele de volta pelos EUA, e de lá ele planejar um jeito de voltar para Gotham. Presumo também que ele deva ter contas bancárias em outros países, o que seria outra opção. Ainda podemos lembrar que ele pode ter simplesmente invadindo um navio que ia para o EUA, algo que fez em Begins, e de lá foi para Gotham, seja atravessando a  única ponte de noite ou embaixo de um caminhão de provisões.
  • Quando ela o traiu, foi porque não sabia que Batman era Bruce. Com Bruce, ela já tinha estabelecido uma relação melhor,  tanto que ele pediu a confiança dele como Bruce e não como Batman, como tinha sido o caso anterior.
  • Na primeira vez também questionei a desculpa do Blake de ter identificado o Bruce, mas revendo o filme até que ela soa razoável. Aliás eu não sei como não descobriram antes,  ele se isolou bem no momento que o Batman desapareceu. Sem contar que o Batman era apaixonado pela Rachel, sendo ela amiga próxima de Bruce, entre outros coisas que o tornam obvio.

Estas minhas conclusões são fraquinhas, mas foram a forma de meu cérebro tornar melhor o filme. O que não foi o caso quanto a o tempo (prefeito quase ditador, semanas que se tornam horas, etc.) e a montagem  - "Miranda" tá sendo julgada, depois tá com Bruce, Batman salva Gordon, mesmo tempo salvava Blake.

 

Ps.: Julia, excelent crítica, deveria escrever mais.

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Enviado por Ghuyer em sab, 07/28/2012 - 23:12

(spoilers abaixo, então te manda daqui se ainda não foi ver o filme - e vá ver de uma vez)

Eu sinceramente não sei porque a dúvida de como Bruce conseguiu voltar a Gothan. Acho que esse é um detalhe tão pequeno que de fato não precisou ser explicado. Cabe ao espectador simplesmente deduzir que, porra, ele é o Batman. Penetrar em uma cidade sitiada, ainda mais a cidade dele, não é um problema. E as teorias do Rafael são perfeitamente plausíveis quanto a esse ponto.

Sobre a relação de confiança de Bruce/Batman-Selina Kyle, além de assinar em baixo do que o Rafael disse, eu penso que Bruce deve ter imaginado que, depois do que Selina fez com ele, ela deveria estar carregada de culpa, e estava mesmo.

Já a descoberta de Blake sobre a identidade do Batman eu vejo como o único ponto realmente contestável do roteiro, mas que passa batido graças à sensibilidade da performance de Joseph Gordon-Levitt, e a todo resto do filme.

O tempo. Do meu ponto de vista, todo tempo que Bruce passa na prisão, com a narrativa adequada e inevitavelmente mais lenta, bastou para dar impressão de várias semanas transcorridas na história. Da mesma forma, acredito que a crescente tensão no terceiro ato, se não justifica, pelo menos sublima o questionamento de como Batman aparece tão rápido em locais diferentes. Nesses casos, creio que a suspensão da descrença se sustenta sem problemas quando simplesmente nos lembramos de que, apesar da abordagem realista de Nolan... é o Batman, porra! E nesse aspecto ajuda muito o fato de que THE DARK KNIGHT RISES. Depois de subir aquela muralha enterrada na Terra, o Batman está física e simbolicamente mais poderoso, então fica mais fácil de aceitar sua fodacidade que, em outro momento, talvez realmente soasse forçada.

imagem de Rafael

Enviado por Rafael em sab, 07/28/2012 - 23:47

Falo do tempo, por causa mais da montagem. Personagem em dois lugares diferente em mesmo tempo, para mim fica difícil de engolir, ainda mais levando em conta que tudo ocorre em 45 minutos.

Aliás, a personagem da Marion é completamente mal trabalhada.

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