Capitão Phillips

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Enviado por Ghuyer em sex, 11/01/2013 - 00:10

Em agosto de 2009, um cargueiro norte-americano do grupo de negócios Maersk foi sequestrado por piratas ao passar pela costa da Somália, zona que é notória pelos constantes casos do tipo. No comando do navio, o capitão Richard Phillips tentou ao máximo resolver a situação, buscando a solução mais pacífica possível para fugir do perigo instável que a presença dos violentos somalis a bordo representa.

Os eventos dessa história foram relatados pelo próprio Richard Phillips em seu livro Dever de Capitão, que agora é adaptado para o cinema no excelente Capitão Phillips (Captain Phillips, EUA, 2013), filme que resgata o talento de Tom Hanks e comprova mais uma vez que Paul Greengrass é um dos melhores diretores da atualidade.

Ao estabelecer o cotidiano familiar do protagonista nas primeiras cenas, que também passam a falsa sensação de que aquele é apenas mais um dia de trabalho para o capitão Phillips, a escalação de Tom Hanks para viver o protagonista se mostra uma das mais sábias escolhas de casting do ano, dado que o ator emula perfeitamente a aura do “americano comum”, conceito importante para o filme, que trata do contraste do homem comum enfrentando uma situação extrema.

Dentro desse quadro, Hanks dá vida a seu Rich Phillips com uma energia que há muito não se via vindo do astro que um dia nos brindou com algumas das melhores performances da década de 1990, mas que nos últimos anos se encontrava no conforto de papeis que pouco exigiam de seu grande talento. Com uma barba grisalha e óculos, o capitão de Hanks é um legítimo norte-americano padrão, um sujeito normal, corajoso e determinado, porém consciente de suas limitações, aspecto que o ator trabalha no tom de voz que pretende determinado, mas que não deixa de transparecer uma insegurança.

Ciente do possível perigo representado pelo trajeto do seu navio, o capitão logo trata de instruir a tripulação para tomar as medidas preventivas adequadas, e Hanks demonstra a preocupação do personagem com olhares decididos a certos detalhes como as portas destrancadas, e mais tarde ao surgimento de duas lanchas não identificadas no radar, que terão importante papel na construção da tensão na cena da tomada do navio pelos piratas. Pois, a princípio não suficientes para representar um grande impacto isoladamente, pelo menos frente aos olhos leigos do espectador, esses pequenos elementos como as grades, as mangueiras e a simulação de situação de risco vão ganhando uma relevância enorme ao passar do primeiro ato do filme, na medida em que o ótimo roteiro de Billy Ray situa para o espectador como até o menor detalhe pode fazer toda a diferença no mar. Assim, depois de tantas tentativas frustradas de despistá-los, o espectador é tomado de um medo crescente ao ver os quatro piratas finalmente conseguindo adentrar o barco.

Nessa dinâmica, a direção de Paul Greengrass tem o mérito de fazer da tensão uma constante no filme todo, com eventuais picos que levam ao limite os nervos do espectador. Recriado perfeitamente pelo designer de produção Paul Kirby, o navio cargueiro tem sua peculiar geografia corretamente delimitada pelo diretor de fotografia Barry Ackroyd, que, situando bem o lugar de cada personagem em cada compartimento do navio já nos primeiros minutos de filme, permite que Greengrass explore a cenografia com liberdade a partir do segundo ato, quando o diretor não poderia mais precisar explicar onde cada um está. Tendo consciência de que o público já está informado das particularidades geográficas do Alabama-Maersk (algo também garantido pelo excepcional trabalho de mixagem de som), Greengrass pode se focar em temperar as cenas com suas recorrentes doses de realismo e intensidade dramática, essas que são marcas autorais do cineasta. Estão ali todas as características que fizeram do diretor britânico um dos realizadores mais competentes em matéria de encenações de eventos reais, como comprovaram os excelentes Voo United 93 e Zona Verde: a câmera na mão, a fotografia granulada e a montagem seca operam sob a supervisão do maestro para criar mais um espetáculo cinematográfico.

Parceiro habitual de Greengrass, o montador Christopher Rouse mais uma vez faz um trabalho digno de aplausos ao misturar os abertos planos aéreos que mostram ao navio solitário rodeado pela imensidão azul do oceano com aqueles mais fechados dentro das embarcações sem, com isso, faltar com a continuidade visual nas cenas mais movimentadas e que envolvem vários barcos. Pelo contrário, Rouse apenas reforça o caráter urgente das situações retratadas ao, por exemplo, montar várias ações paralelas intercaladas pelas imagens do radar, que denotam a velocidade crescente em que tudo aquilo está ocorrendo, ou ao alternar as cenas de um mesmo local sob pontos de vista diferentes.

Ainda na questão referente à direção de arte do longa, vale comentar a importância de um detalhe pernicioso que a direção de Greengrass soube contornar muito bem. Visto que o cargueiro é de um tamanho absolutamente descomunal se comparado às mirradas lanchas que tentam alcançá-lo, à primeira vista seria possível se perguntar como é que apenas quatro assaltantes representariam um perigo tão grande para um navio com uma tripulação com cerca de trinta homens. A resposta está tanto no roteiro inteligente de Billy Ray, que joga pistas sobre a índole violenta dos piratas nos minutos iniciais, quanto na mão segura de Greengrass no comando do projeto, que busca um enfoque realista em que cada ação gere uma consequência séria, de forma que os quatro homens empunhando metralhadoras realmente soem realmente ameaçadores no exato segundo em que botam os pés no barco. O tamanho do cargueiro de nada adianta depois que os infratores se encontraram a bordo.

Tal equivalência de tamanhos e poderes encontra ecos no tratamento temático do filme, em que o Alabama-Maersk representa claramente os Estados Unidos e a alta elite capitalista de “primeiro mundo”, ao passo que as pequenas lanchas somalis caindo aos pedaços são a representação perfeita da miséria do lado subdesenvolvido do globo. Aliás, embora o discurso do filme fuja de qualquer julgamento de valor mais evidente, a escalação de não atores da Somália, bem como o retrato cru da motivação dos personagens interpretados por estes, é o suficiente para jogar uma inquietação na cabeça do espectador, que talvez se faça a pergunta de quem são os verdadeiros culpados pela situação lastimável do país africano e pelas consequências que essa opressão acarreta.

Portanto, Capitão Phillips se sobressai em sua discreta crítica política, desenvolvida a partir dos diálogos entre o capitão vivido por Tom Hanks e o líder dos piratas, Muse, em marcante interpretação do estreante Barkhad Abdi. Ao ser questionado por Phillips sobre suas escolhas, sobre o porquê de ter escolhido a pirataria no lugar de outra fonte de renda, a resposta do somali arremessa na cara do espectador uma realidade que passa ignorada pela maior parte do mundo: não existe outra opção. Para os somalis, literalmente não há o que fazer em matéria de "trabalho honesto", com a pirataria se sobressaindo como opção de renda. Mesmo com todos os contras, os somalis escolhem arriscar suas vidas sequestrando cargueiros internacionais. Por quê? Porque eles gostam? Não. Porque é o que resta. As cenas iniciais que mostram os jovens somalis selecionando aqueles irão para a missão mostra a miséria opressora com qual precisam lidar diariamente, mas é mesmo na categórica resposta que Muse dá ao capitão Phillips que a questão fica evidente. “Existem outras formas de trabalho além de pescar e sequestrar navios”, indaga o capitão. "Talvez nos EUA. Talvez nos EUA" rebate Muse. E o tom da fala, e o contexto do filme todo, jogam por água abaixo qualquer possibilidade de ver um ufanismo norte-americano na sentença. Pelo contrário, antes de enaltecer o saudoso Governo dos Estados Unidos, o roteiro de Billy Ray escancara, com classe, que é por culpa do imperialismo ianque que a Somália se encontra na merda.

Construindo a dinâmica tanto da tripulação do Alabama-Maersk quanto dos somalis que se juntam para atacar o navio, e depois a interação entre as duas, Ray evita criar estereótipos, preferindo investir em personagens com motivações próprias e ações verossímeis, de modo que até aqueles mais rasos e sem grande desenvolvimento soem coerentes dentro do contexto intenso no qual a história se passa. Um contexto que ganha em verossimilhança ao contar com a já citada escalação de não atores somalis, uma constante nos trabalhos de Greengrass. Aqui, sob a orientação precisa do diretor, os estreantes entregam performances fortes e enfáticas, não devendo em nada aos pontuais atores profissionais do longa. Mais do que isso, nenhum deles surge intimidado pela presença de um superastro como Tom Hanks, que aparece em igual intensidade a seus demais colegas de elenco, não tentando se sobrepor a eles em nenhum momento.

No entanto, é impossível fugir do fato de que Capitão Phillips é sobre... o capitão Phillips. E a realidade é que aqui Tom Hanks rouba a cena não só em função de seu protagonismo, mas por entregar uma das melhores performances da sua carreira, equiparando-se em composição e temática àquela de Náufrago, talvez seu último grande trabalho, mais de dez anos atrás. Através da postura corporal, do olhar e da enunciação das palavras, Hanks mescla com alto grau de complexidade as diversas emoções que perpassam pelo protagonista ao mesmo tempo, um misto da responsabilidade de proteger a tripulação, a vontade de buscar uma solução pacífica, a tentativa de ajudar o inimigo, o medo da morte e a vontade de viver. Como se não fosse suficiente, o ator ainda opta por uma decisão corajosa nos minutos finais da narrativa ao aparecer desabando em lágrimas, como que jogando para fora todo o peso do abalo psicológico que foi sendo acumulado dentro de Richard Phillips naqueles últimos momentos, que foram sem dúvida os mais intensos e drásticos de sua vida.

Fechando a narrativa com um terceiro ato que rivaliza com o de Voo United 93 em termos de tensão crescente, e o supera em termos de escala e complexidade visual, Paul Greengrass realiza em Capitão Phillips mais um filme de ímpar força dramática, equilibrando aventura e suspense na dose certa e entrando com facilidade na lista dos pontos altos do cinema em 2013.

Poltronas 

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