Cinquenta Tons de Cinza

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Enviado por Julia em sex, 02/13/2015 - 00:52
O desbravamento da sexualidade humana e como ela se relaciona diretamente na nossa vivência cotidiana já foi matéria prima para diversas obras, como os longas Vicky Cristina Barcelona (Woody Allen, 2008), Educação (Lone Scherfig, 2009), Ninfomaníaca parte I (Lars Von Trier, 2013) e parte II (Idem) e diversos outros.
 
O longa de Sam Taylor-Johnson, Cinquenta Tons de Cinza (inspirado no livro de E. L. James de mesmo nome) poderia ser uma contribuição para a discussão, já que aborda práticas sadomasoquistas, especificamente com a prática do Dominador e do Submisso. O tema é um grande tabu, especialmente porque levanta questões polêmicas sobre a nossa autonomia como seres humanos, a herança histórica relacionada à opressão (especialmente) feminina e as polêmicas regras e limites que são aplicadas aos participantes desta prática, especialmente aos submissos.
Porém, o que nos é apresentado na tela é um clichê, preparado apenas para arrancar suspiros dos mais românticos. Anastasia Steele (Dakota Johnson), uma jovem estudante de literatura inglesa, entrevista Christian Grey (Jamie Dornan, que curiosamente interpreta um predador sexual em The Fall), um famoso bilionário para o trabalho final de sua colega de quarto, que está doente. Durante o encontro, por alguma razão misteriosa, eles se interessam um pelo outro e logo se relacionam.  O envolvimento e a descoberta de um novo mundo começa para os dois. Enquanto Anastasia revela-se sexualmente, a mesma ensina Christian Grey a se entregar sentimentalmente para alguém. 
 
 
Com esta premissa, pode parecer que o filme oferece uma troca entre o casal de protagonistas. Apesar disso, a relação que se percebe é o constante controle de Grey sobre todas as ações de Anastasia. Antes mesmo de qualquer envolvimento romântico, este manda (isso mesmo, no imperativo) que Anastasia pare de beber imediatamente quando ela liga para ele bêbada em uma noite com as amigas. E quando esta parece não se importar com a ordem, ele faz mais: vai buscá-la diretamente na noitada. Ainda antes de virarem um casal, Grey também indaga de uma forma ciumenta e controladora sobre os amigos homens e chefes com quem Anastasia se relaciona. No mundo, atualmente, 38% dos assassinatos de mulheres são realizados por um parceiro íntimo (dados: Organização Mundial de Saúde), com ciúme e delírios de possessão muitas vezes surgindo como as principais causa desses crimes. Portanto, não parece nada interessante observar a reprodução de um relacionamento doentio e abusivo como o de Christian e Anastasia como se fosse um verdadeiro conto de fadas.
 
E falando em conto de fadas, é claro que Anastasia encarna a mocinha perfeita. Linda, virgem, amante de livros, que desmaia se bebe demais e reclama se a amiga passa muita maquiagem no rosto dela. Ela é docemente desengonçada e soa sempre tola, apesar de alegar que tem um Q.I alto. A roteirista do filme, Kelly Marcel, até tenta mostrar Anastasia tendo alguma voz no relacionamento com Christian Gray, mas, para isso, limita-se a descrevê-la demorando para responder os pedidos do “amado” de forma engraçadinha. No fim, Anastasia sempre se submete às vontades do outro, que controla todas as ações da jovem. Grey encarna o macho estereotipado que, em função de traumas na infância, não gosta de contato humano, dorme sozinho, e não faz o tipo romântico. Além disso, é louco, possessivo, segue a namorada nas viagens, vende seu carro sem consultá-la, escolhe seus vestidos, controla o que ela come e bebe e está sempre usando o imperativo quando se dirige à ela. E isso, no filme, é chamado de romance.
 
 
A química entre os dois atores também não é das melhores. Existe carisma, e isso faz com que eles não sejam odiados, mas o constante medo nos olhos de Dakota Johnson e a sobrancelha arqueada de Jamie Dornan se tornam cansativas, já que é o que vemos em 80% da projeção.
 
Por outro lado, alguns aspectos técnicos do filme são interessantes. A direção de arte de Laurel Bergman, por exemplo. Enquanto o mundo de Christian Grey é todo retratado em tons de branco e cinza (obviamente), Anastasia é apresentada dentro de um ambiente colorido e acolhedor, que ilustra o calor humano ela tentará oferecer a Christian. E a fotografia (de Seamus McGarvey) investe em planos fechados para tentar aumentar a tensão do ambiente, deixando as cenas um tanto claustrofóbicas.
 
Também são nas questões sobre sexo, onde o filme deveria se mostrar mais livre e sem pudores, que ele demonstra seu conservadorismo. Afinal, está aparentemente ok Christian ser um louco possessivo e controlador na vida real (alegando várias vezes que “é o jeito que eu sou”), mas, ao revelar sua predileção por práticas sadomasoquistas (e desempenhar o papel obsessivo e controlador dentro do quarto), ele, de repente, se torna um homem bizarro aos olhos de Anastasia. E há um certo tom bipolar no filme: se em certos momentos a jovem está gemendo e fazendo caretas de prazer ao ser controlada pelo namorado, em seguida eles têm uma grande discussão sobre o porquê de Christian ter prazer em puni-la. O momento, porém, não levanta pontos realistas sobre como a prática é realizada, o que ela pode desencadear e ao que está ligada. 
 
Logo, Cinquenta Tons de Cinza é uma experiência morna: frustrante ao propor novas discussões sobre sexo, e fracassando ao apresentar um casal muito desinteressante, o filme não traz o envolvimento e a excitação que promete. Se a obra não fosse baseada em uma série de livros famosa mundialmente – da qual só li trechos – provavelmente seria apenas mais um filme que logo cairia no esquecimento até mesmo de seu próprio público alvo.

Poltronas 

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