Drive

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Enviado por Luciana em qua, 02/29/2012 - 23:11

Alguns filmes infelizmente são injustamente ignorados nas indicações ao Oscar, ou são indicados em uma única categoria, não fazendo jus a toda a sua plenitude como obra cinematográfica, como é o caso de Drive.  Dirigido por Nicolas Winding Refn, mesmo diretor do excelente Bronson (2008), Drive acompanha os passos de um exímio piloto de automóveis – magnificamente interpretado por Ryan Gosling, e injustamente esquecido na citada premiação – que trabalha como dublê em filmes de ação e mecânico durante o dia, e dirige em trabalhos avulsos para criminosos na noite de Los Angeles. Já nos minutos iniciais do filme podemos perceber a sincronia que o motorista tem com a direção, e tamanho o seu timing e discernimento das situações. Não há dúvidas de que é um profissional.

O personagem de Gosling já nasce quase como que de forma emblemática em cena, chegando a lembrar de Clint Eastwood em seus clássicos faroestes, e dando os ares de cowboy errante enquanto leva seu pequeno palito ao canto da boca. Ele é extremamente intrigante, calado – só fala quando realmente acha que vale a pena dizer algo, e o que diz sempre pesa muito – não sabemos nada de seu passado, nem de seu presente, suas motivações e de onde vem toda a sua experiência, tanto para dirigir, quanto nos momentos em que precisa colocar em prática uma faceta mais violenta do personagem. O piloto interpretado por Gosling tem uma aura de mistério e que por sinal nunca sabemos o seu nome, algo que o torna ainda mais fascinante e enigmático.

Quando conhece sua vizinha Irene (Carey Mulligan) e o filho dela Benício (Kaden Leons), ele não imagina que rumo sua vida tomará a partir dali. Irene vive com o filho enquanto aguarda a volta de Standard (Oscar Isaac), seu marido, que está na prisão. Aos poucos o piloto e Irene vão se tornando mais próximos, o que torna as coisas bastante complicadas quando Standard sai da prisão antes do tempo previsto.

O marido de Irene deve muito dinheiro, e para tentar proteger a moça e o garoto, o piloto decide ajudá-lo, dirigindo para ele durante um grande roubo, que por um detalhe ou outro, acaba em tragédia, fazendo com que ele seja alvo de um bandido temido e procurado, que domina boa parte da criminalidade na cidade. Aliás, pontos para esta cena do roubo em especial, as atuações de todos os envolvidos, contando ainda com Christina Hendricks em uma atuação interessante como Blanche, estão excelentes. Além de todo o contexto da cena, é claro. Ainda no tocante às atuações, vemos Albert Brooks criando um personagem que foge dos clichês de bandidão habitual, um personagem com tom de voz marcante, centrado e incisivo em suas ações. Sem dúvida nenhuma, uma lástima a sua não indicação como ator coadjuvante ao prêmio mais “badalado” da indústria do cinema.

O acertado uso da câmera lenta em determinados momentos, e a excelente montagem de Matthew Newman – inclusive, e principalmente nesta cena do roubo – transmitem um clima de maior tensão, fixando o espectador na poltrona a cada instante. Outro ponto positivo – e são vários a serem citados – é a excelente trilha sonora de Cliff Martinez (ex-baterista do Red Hot Chili Peppers), que ora mais leve, ora mais tensa, contribui para o clima perfeito do filme, contrabalanceando a tensão e a harmonia das cenas.

E o que dizer da fotografia intensa de Newton Thomas Sigel, que nos presenteia com desde as belíssimas tomadas aéreas da cidade de Los Angeles (em especial suas tomadas aéreas noturnas, fazendo com que Michael Mann com certeza fique orgulhoso após observar tal filme), até o interessante “jogo de sombras” que envolve o protagonista? Percebam como o personagem de Gosling passa boa parte das cenas encoberto pelas sombras, e mesmo nas cenas com a maior utilização de luz, ele projeta sombras, o que contribui para o que comentei antes, da natureza intrigante, meio mística mesmo do personagem, do tão e simplesmente “piloto”. Uma das cenas mais belas – em minha opinião – se utiliza desse contraste “mais luz, menos luz”, que é a cena do elevador, em que no momento em que o piloto beija Irene eles são envolvidos por um clima de baixa iluminação, de sombras, quebrando a ideia clássica e por vezes errônea, de que a escuridão revela a podridão, o lado sórdido e por que não dizer, obscuro do ser humano. Nas sombras observamos a paixão, a aproximação dos dois. Ao fim das sombras e por consequência com a luz mais forte em cena, voltamos a observá-lo tomando uma decisão drástica, mas inevitável, uma decisão imediata de sobrevivência da própria pele e também de sua garota. Em sua vida não há meio termo, não há como conciliar paixão e violência em um mesmo plano, em um mesmo momento. O que acontece no elevador? Tenha a certeza de que é algo perturbador, e que não convém esclarecer aqui. Mas vale salientar que no momento imediato a essa cena vemos a garota a observá-lo, metade do seu corpo na luz, outra metade envolto pelas sombras, deixando claro o momento de indecisão em que se encontra.

Nas cenas em que os diálogos são quase ausentes é que percebemos o quanto essa escolha do diretor foi acertada, como por exemplo, uma das cenas finais entre o motorista e seu algoz, ou na cena em que vemos um assassinato em uma praia pouco iluminada. O uso de poucas palavras concede um clima especial de tensão à cena.

O roteiro de Hossein Amini é uma excelente adaptação a partir do livro de James Sallis, que consegue transmitir toda a complexidade do personagem e da história de uma forma mais linear, sem os saltos temporais, as idas e vindas constantes no livro. Está aí um belo trabalho, pois Hossein conseguiu o que poucos roteiristas conseguem que é fazer com que o filme seja melhor do que o livro a partir do qual foi adaptado.

Culminando em um final arrebatador (e percebam aí a movimentação das câmeras envolvendo a ação de dois personagens principais e entenderão o rumo que cada um irá tomar), Drive entrará tanto para a lista de melhores filmes do ano, quanto para a lista de filmes injustiçados pela Academia, pois convenhamos, uma pérola do cinema como essa não poderia passar batida, sendo indicada a somente, e tão somente categoria de Edição de Som, igualmente excelente, por sinal.

 

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