A Fera

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Enviado por Maza em dom, 12/25/2011 - 20:00

Repaginagem, adaptações, remakes. Tudo parece ser motivo para uma nova versão de algum filme antigo – ou até recente – sendo este de qualidade ou não. Assim sendo, não é surpresa um filme recriando a clássica história de A Bela e a Fera. Como também não é surpresa que o projeto seja um desperdício de tempo e plenamente desnecessário.

Adaptado do livro homônimo de Alex Flinn (que por sua vez também é uma adaptação de A Bela e a Fera), em A Fera acompanhamos a história de Kyle Kingbury. Sarado, boa pinta, roupas sempre adequadas, escancara sem o menor pudor que beleza é o que importa. Sua namorada segue o mesmo perfil: de beleza ser tudo. Em sua escola ele é eleito para o comitê de ecologia. Na festa da escola, após humilhar a garota estranha Kendra, a mesma avisa que ele terá que se conformar. Na verdade a garota estranha é uma bruxa (ohhhh!) e lhe lança um feitiço que o deixa feio, com cicatrizes pelo corpo e tudo mais. Se em um ano ele não encontrar uma garota que realmente goste dele e o ame, o feitiço nunca será revertido e como a bruxa disse antes, ele terá que se conformar com seu novo ‘jeito de ser’. Obviamente existe uma garota excluída da escola (Lindy) que vê em Kyle um cara que no fundo tem um bom coração, e será através dela que ele enxergará esperanças para reverter o feitiço.

Alex Pettyfer tenta e faz o que pode com seu papel de Kyle/Fera, mas é nitidamente limitado, e suas expressões de choque quando da transformação e durante o período de Fera não convencem. Vanessa Hudgens por sua vez não é tão insonsa quanto se esperaria no papel de Lindy Taylor, mas é notório que parece o tempo todo deslumbrada por Kyle, mesmo após sua transformação. Mary-Kate Olsen no papel de Kendra, a bruxa, na verdade não encarna o papel de uma feiticeira com lições de moral, e sim uma versão teen de Lady Gaga, visto suas roupas, cabelos e olhares. E ainda no tocante às atuações, é no mínimo frustrante observar o papel de Rob como pai de Kyle, uma pessoa que, mais que o filho, só valoriza a beleza e ao perceber que nenhum tratamento irá reverter o quadro atual do filho, o manda para uma casa isolada (tanto para não encarar o filho de frente, como para não manchar sua imagem impecável de apresentador de televisão,e ter um filho monstro na mídia, seria algo inadmissível). A frustração se dá pela interpretação de Peter Krause, outrora ótimo ator na excepcional série A Sete Palmos e aqui, em papel que beira o constrangimento.

   

O roteiro de Daniel Barnz (que também dirige o filme) é raso em questões importantes do longa: ora, sendo Kyle (agora Hunter, Kyle é o que ele era, uma pessoa feia...que bonito isso) uma Fera e sabendo que o pai de Lindy é um drogado  que vive atrapalhando a vida da filha, é proposta a seguinte resolução: o pai entrega a filha aos cuidados da Fera, em troca de dinheiro e de uma vida mais digna. Sim, Lindy fica aprisionada em uma casa afastada da sociedade, longe de seus amigos, escola, planos de seguir sua vida, fica presa a uma pessoa que mal conhece e sua primeira reação é com certa naturalidade, como se não fosse nada absurdo ir morar na casa de um estranho. Ainda pior que isso são as tiradas que nos mostram Hunter tentando conquistar Lindy que não sai do quarto, com a trilha sonora de Marcelo Zarvos alegre ao fundo, e criando uma sensação absurdamente errônea de que aquilo é uma diversão e não uma situação tensa, e por que não dizer, angustiante do ponto de vista da garota.

Se não bastassem os pontos negativos já salientados, o longa trabalha com uma montagem bastante irregular (de Todd E. Miller e Thomas J. Nordberg), e isso é muito perceptível, principalmente na questão do ritmo do longa. Pouco tempo sepassa entre o feitiço lançado e a festa de Halloween, momento ideal para “a Fera” reencontrar seus antigos colegas de colégio, ex-namorada e claro, Lindy Taylor. Nisso, através de um diálogo expositivo é que notamos a passagem do tempo: “Já se passaram 5 meses desde que você lançou o feitiço”. Posteriormente, observamos a Fera montando uma estufa para suas flores (visto que Lindy gosta de flores, e isso é uma forma de fazê-la gostar dele, muito original), quando a ideia de tempo passando é mostrar uma Nova York ao fundo da casa, uma Nova York que apenas se nota passar dia e noite, mas a vegetação continua a mesma, aparentando que mal se passaram vários dias ou semanas desde o começo até o término da criação da estufa. Ainda sobre o ritmo, observamos que em menos de 1 minuto, enquanto Hunter e Lindy declamam poemas um para o outro, as rosas desabrocham, nascem, morrem, ao fundo observamos praticamente as 4 estações acontecerem na “Grande Maçã”, mas claro, isso é apenas uma falha – mais uma – do filme, visto que se isso tivesse acontecido, mais de 7 meses teriam se passado e o feitiço estaria enraizado para sempre.

Sobre as locações do filme, mesmo que sejam vários ambientes distintos (centro de Nova York, casa afastada da região central, casa do lago), a fotografia de Mandy Walker não nos passa em momento algum essa mudança de ares, tudo parece ter sido filmado no mesmo lugar, no mesmo ambiente de todo o restante do filme. 

Aquele que deveria ser o principal aspecto do filme, a maquiagem, é bem realizada, embora de forma muito mal aproveitada. Ora, em nenhum momento ao observamos Kyle/Hunter ficamos com a sensação de um monstro, de alguém feio na tela, e sim uma pessoa doente, debilitada. Os cortes e cicatrizes de fato são bem feitos, mas pessoas assim podemos encontrar no cotidiano, diferente de um monstro que sofreu algum tipo de feitiço.

Sendo seu clímax algo plenamente previsível, o filme ainda desperdiça uma oportunidade para realizar – ou tentar, ao menos – levantar um debate sobre a questão da beleza em detrimento da inteligência. Apenas no começo do filme observamos isso, pois de resto, tudo soa artificial (inclusive no início é algo muito vago, diga-se de passagem). Mesmo que A Fera seja uma produção que tente ser bonita por fora, no fundo é oca, desnecessária, descartável. E isso nenhuma bruxa feito Lady Gaga consegue mudar.

Poltronas 

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