Festa no Céu

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Enviado por Giordano em qui, 10/23/2014 - 18:01

O assunto das práticas funerárias, dos ritos de despedida à arte cemiterial, já foi matéria-prima para obras de arte cinematográficas incríveis - como a série Six Feet Under e o lindíssimo filme japonês A Partida. Perceber como cada cultura entende o final da vida, e de que maneira o sacraliza, é perceber que a morte não é esse conceito rígido e vilanesco que a nossa sociedade ocidental eurocêntrica nos impõe.

Notoriamente, a tradição do Dia de Los Muertos mexicano é o mais popular desses ritos que desviam do luto europeu, e desde o século XIX, quando a festa, cujas origens remontam a mitologias do período pré-colombiano dos Maias e Astecas, ganhou contornos carnavalescos, veio crescendo de maneira exponencial, e hoje é uma das maiores festividades do planeta, que hoje coincide com o Halloween do paganismo anglo-saxão e com o Dia de Finados cristão. A UNESCO declarou o Dia dos Mortos mexicano como "Obra Mestra do Patrimônio Oral e Intangível da Humanidade". No documento defendido pelo órgão, uma das justificativas afirma "esse encontro anual entre as pessoas que celebram seus antepassados, desempenha uma função social que recorda o lugar do indivíduo no seio do grupo e contribui na afirmação da identidade".

Imageticamente, a iconografia mexicana se constituiu muito em cima da produção de gravura mexicana do final do XIX, em especial no conjunto da obra de Jose Guadalupe Posada, que eternizou a personagem da caveira Catrina em centenas de imagens. A ideia dos esqueletos e caveiras "vivos" está presente desde a antiguidade, passando pelo renascimento - lembro aqui a Dança da Morte, de Bruegel - e chega até a Skeleton Dance, das Silly Symphonies da Disney. Mas a caveira Catrina atingiu o status de ícone maior da cultura e arte mexicana, junto com a Pedra do Sol maia e com a sobrancelha de Frida Kahlo. 

Agora, a caveira Catrina chega aos cinemas como uma deusa da morte, que joga com a vida dos mortais ao apostar sua posição privilegiada de soberana do "Mundo dos Lembrados" (dimensão para onde iriam os mortos que ainda fazem parte da memória dos vivos) com o soberano do "Mundo dos Esquecidos", para onde vão os falecidos que caíram no esquecimento, deus este que atende pelo nome de Xibalba, termo utilizado pelos maias para definir o submundo. A aposta consiste em acertar quem conquistará o coração de Maria, a mais bela mulher de uma villa mexicana: o valente e destemido militar Joaquín ou o sentimental e obstinado músico Manolo. A aposta levará a uma rivalidade histórica, situações trágicas shakespearianas, intrigas, viagens aos mundos dos mortos, e é claro, aos tiroteios embalados por mariachis, que não podem faltar nas incursões hollywoodianas na cultura mexicana. 

O filme surge numa bem-vinda onda de despolarização da animação americana, agora que estúdios com menos tradição ameaçam o monopólio Disney-Pixar X Dreamworks, como por exemplo, a Illumination (de Meu Malvado Favorito), a Laika (de Boxtrolls) e a Warner Animation Group (de Uma Aventura Lego). The Book of Life é resultado de uma parceria do produtor Guillermo del Toro com a Reel FX Creative Studios, uma nova linha de animação da Fox. 

Originalmente chamado Day of the Dead, a história ganhou o título de The Book of Life, um pouco mais vendável para os pais preocupados com o contato dos filhos com temas mais pesados. A versão da distribuidora brasileira, no entanto, optou pelo título ainda mais comercial Festa no Céu, que se afasta e distorce drasticamente os conceitos originais. 

O filme tem uma tendência ao paganismo, ao nos mostrar uma trama alicerçada pela rivalidade entre duas figuras divinas soberanas, o que já sugere o politeísmo. Em nenhum momento, os conceitos moralistas bíblicos de Paraíso e Inferno se manifestam. Não há Deus e Diabo, e mesmo os conceitos de bem e mal são mais maleáveis no filme. Nem o deus Xibalba, nem o prepotente Joaquín são encarnações do mal, apesar de se colocarem em posições de antagonismo em determinados momentos da trama. A figura do mal é encarnada por um personagem sim - o guerrilheiro Chakal - mas nem sequer é uma figura central da narrativa, mas apenas uma força motriz para construir o clímax. Por isso, a presença do termo cristão "Céu" no título nacional do filme fere o universo brilhantemente construído por Del Toro e pelo diretor Jorge Gutierrez. 

O título original - O Livro da Vida - também não é a escolha ideal para batizar a obra. Refere-se ao elemento mais frágil do roteiro irregular do filme. O filme utiliza mal o recurso estrutural de bookends ou moldura - uma linha narrativa de apoio que transforma toda a estória principal do roteiro em um grande flashback através de cenas no começo e no fim. No caso, um grupo de crianças norte-americanas num passeio escolar, conhecem uma mediadora que lhes mostra uma área secreta do Museu toda voltada para o folclore mexicano. A partir daí, ela começa a contar a história da vila mexicana, dos deuses Catrina e Xibalba e do triângulo amoroso de Manolo, Joaquín e Maria. O recurso acaba sendo uma sequência de preguiçosas e desnecessárias interrupções expositivas para o filme, que acaba sendo uma falha não só narrativa, como plástica. A animação desses momentos é mais dura, mais óbvia, menos criativa do que todo o resto do filme.

A grande atração de The Book of Life é o design impressionante da estória folclórica. Os personagens ganham uma textura de madeira, como se fossem bonecos típicos da arte popular da América Latina, como os ex-votos, objetos de oferenda para divindades em troca de dádivas e milagres. Os cenários possuem paletas específicas para cada "plano" (a Villa, a Terra dos Lembrados, a Terra dos Esquecidos, e os portais que levam de um a outro). O próprio diretor Jorge Gutierrez exigiu que o filme realmente se parecesse com as artes conceituais originais, algo que muitas vezes não acontece. Eventualmente, vemos os desenhos da primeira fase da pré-produção, e depois, ao assistir o filme, nos frustramos. Nesse caso, ao compararmos as artes conceituais e o resultado, temos um satisfatório deleite visual. 

O roteiro tem seus problemas estruturais, às vezes apela para soluções fáceis e previsíveis, e eventualmente, cai na escola Dreamworks de humor rasteiro. No entanto, o respeito e fascínio pela cultura mexicana (ainda que trabalhado de maneira desajeitada pela leitura pós-moderna proposta por Gutierrez e Del Toro), juntamente ao design delirante e aos personagens cativantes, The Book of Life junta-se a Uma Aventura Lego, Como Treinar seu Dragão 2 e Boxtrolls para tornar 2014 um ano de excelentes animações bem realizadas, divertidíssimas e corajosas em temática ou em forma. 

Poltronas 

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