Frankenweenie (2012)

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Enviado por Giordano em qui, 11/01/2012 - 21:47

Antes, um preâmbulo sobre a fase atual da carreira de Tim Burton:

Nos últimos anos, tem se falado que Tim Burton está na sua pior fase, e com certeza, é verdade. Apesar de “Alice no País das Maravilhas” ser o seu maior sucesso de bilheteria, carrega também o título de ser o seu pior filme para a maioria dos cinéfilos. E concordo, é uma bomba. Seu filme seguinte não ajudou. “Sombras da Noite” não encontrou seu público, é uma comédia equivocada e inflada que cansa em seus primeiros minutos.

Muita gente insiste em dizer que o problema de Burton é estar se repetindo ou fazendo o mesmo filme. E isso, sinto contrariar, é um grande equívoco. É verdade que Alice e Sombras, ambos têm a “plástica” Tim Burton, ambos têm Johnny Depp e Helena Bonham Carter, e ambos têm um Danny Elfman nada inspirado.

Mas em sua essência, esses filmes não são o que tornaram Tim Burton um dos mais populares cineastas dos anos 90. Filmes como Frankenweenie, Edward Mãos de Tesoura, Batman – O Retorno, Ed Wood, A Lenda do Cavaleiro sem Cabeça e sua obra prima, Peixe Grande e suas Histórias Maravilhosas, não são grandes filmes somente pelo seu aspecto plástico, mas pela maneira sensível como Burton aborda seus temas: a exclusão, a incompreensão, a relação de pai e filho, e a individualidade.

Alice” e “Sombras da Noite” trazem esses temas, é claro. Mas são tratados de maneira completamente superficial e insensível, uma vez que eles são o segundo plano para o maravilhoso mundo do chroma key ou para piadas nada inspiradas. E quando os temas se prostram frente à plástica, algo está muito errado.

Eis que chega aos cinemas a animação stop motion “Frankenweenie”, um remake daquele que considero o primeiro grande filme de Tim Burton, e eu gostaria muito de interpretar esse retorno como um recomeço, ou como o final de um ciclo. Verdade, não é nada criativo fazer um remake de sua própria obra. Mas o que pesa para mim como espectador, primordialmente, não é a originalidade, mas a sinceridade. Produzir variações sobre o mesmo tema, ou mesmo “remakes”, é uma prática conhecida da história da arte e do cinema que não reduz em nada o artista que o faz. Então isso não me preocupa. Desde que a vontade do artista de mostrar aquilo de novo seja genuína e que a obra seja feita com esmero.

Dito isso, fico feliz que a história do menino que ressuscita seu cachorro seja contada aqui mais uma vez.

A opção pela animação stop motion era segura. O Estranho Mundo de Jack é um clássico cult e A Noiva Cadáver foi um sucesso e já tem seu lugar na cultura pop. Não é mais um risco para a Disney dar  sinal verde para Tim Burton, como era na época do filme original.

A história, na essência, se mantém a mesma. Claro, tornar um filme de meia hora em um filme de uma hora e meia precisa de muita linguiça. E pelo menos, é linguiça de boa qualidade. Ok, essa frase ficou estranha, mas isso não importa.

Victor Frankenstein mora com sua família suburbana em um bairro suburbano, cheia de vizinhos suburbanos irritantes. Seu único amigo é seu cachorro Sparky, que tem uma trágica morte. Em suas aulas de ciência, Victor tem uma ideia para reverter a situação.

Se o original se concentrava na homenagem ao Frankenstein de James Whale, o novo faz homenagens a vários outros filmes-de-monstros: Godzilla, O Homem Invisível, O Monstro da Lagoa Negra, A Múmia, O Lobisomem, Dracula, O Corcunda de Notre Dame e atéGremlins. A maneira que Tim Burton encontrou para encaixar organicamente essas homenagens no filme é bem bacana: o professor de ciência da escola promove uma feira de ciências. Quando a notícia da ressurreição elétrica de Sparky se espalha entre os colegas de Victor, todos também querem ressuscitar seus animais de estimação para vencer a feira. Mas é claro que as tentativas deles não dão muito certo.

O roteiro mantém o Victor apático e recluso do filme original. Mas todos os personagens coadjuvantes ganham uma importância a mais, como o professor, os vizinhos e seus colegas.

A maior mudança, além da adição dos monstros, é a relação de Victor com os pais. Se no original, os pais procuravam apoiar o filho desde o momento em que descobrem e a relação deles é trabalhada de maneira mais sensível. Nesse novo, no entanto, os pais são figuras tão irritantes quanto os vizinhos que cercam Victor. Seu pai, por exemplo, tem como maior preocupação que ele jogue baseball tão bem quanto seus colegas, sem perceber que o filho tem outras vontades.

O professor Rzykruski surge como um ponto de apoio como aquela professora que Laura Dern interpreta em Céu de Outubro. Estimula a ciência, e acaba sendo criticado pelas mentes pequenas e suburbanas por isso.

O design dos personagens está repleto de auto-referências legais. Sparky, o cachorro, é claramente inspirado no design de “Vida de Cachorro” episódio de Amazing Stories dirigido por Brad Bird, com roteiro de Burton. Elsa Van Helsing é sósia da Lydia de Os Fantasmas se Divertem (também interpretada por Winona Rider). O prefeito Sr. Burgemeister, é inspirado no Sr. Everglot de Noiva Cadáver. E a colega esquisita de Victor é a Staring Girl, do livro The Melancholy Death of Oyster Boy and other Stories. Sem falar que o professor Rzykruski é extremamente parecido com Vincent Price, ídolo de Burton.

Tudo funciona em “Frankenweenie”, talvez porque a pretensão vista no País das Maravilhas ou no filme de vampiros não apareça aqui, tampouco o excesso de chroma key e efeitos digitais. Aliás, pelo contrário. É importante ressaltar que parte do charme do filme está na qualidade de sua animação justamente pela sua... Precariedade. É, é isso. Nada dos movimentos tão fluidos e cheios de textura que parecem CGI vistos em Noiva Cadáver. Aqui, o “tosco” da animação é muito bem utilizado por Burton.

Se há problemas aqui (fora a falta de originalidade, que já disse que não considero um problema de fato), a culpa é do frequente colaborador de Tim, Danny Elfman. A falta de imaginação do compositor é de uma preguiça tamanha, que há momentos que juro tratar-se de partes da (fraca) trilha dele para Sombras da Noite. Já o “tema do filme”, que é o que fica na cabeça depois, me parece um plágio da trilha de John Williams para Os Goonies.  A não ser que alguém force e diga que Goonies é um filme de monstro e então, é uma referência. Se for, de fato, uma referência, me pareceu descabida.

Já que Tim, nesse filme, deu um tempo para sua esposa Johnny Depp e para sua parceira cinematográfica Helena Bonham Carter (ou seria o contrário?), ele poderia dar um tempo para o Oingo Boingo também e chamar outro compositor, pra variar.

Enfim, Frankenweenie não é uma obra prima. Não é do nível do média metragem original, e eu nem esperava que fosse. Mas é um ótimo retorno para Tim à sua essência, um filme muito divertido, e se destaca no meio das outras tentativas de fazer “animações macabras” esse ano (ParaNorman Hotel Transilvânia). 

 

Poltronas 

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