Histórias Cruzadas

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Enviado por Rafael em dom, 02/05/2012 - 17:49

Bastou liberarem as indicações para o Oscar para uma discussão começar: afinal quem realmente merecia estar ali concorrendo a prêmios? À medida que os filmes acabam estreando, se torna possível ver os que mereciam concorrer e os que deveriam ser excluídos da lista. E entre todos, Histórias Cruzadas é um que não merecia, já que se trata de um longa intencionado para concorrer ao prêmio, focado desde seu início para este objetivo, e que se no futuro próximo ganhe algo, sua existência só acabaria provando a já conhecida e famosa incompetência dos membros da academia.

Adaptada do livro The Help (A Resposta, no Brasil), de Kathryn Stockett, a trama ambientada dos anos 60 nos leva a Jackson, pequena cidade do Mississipi, onde vive a independente e jovem jornalista  Eugenia Skeeter (Emma Stone). Recém-contratada pelo jornal local para escrever uma coluna sobre limpeza, Skeeter vê no dominante preconceito da cidade uma forma de emplacar sua carreira, e decide escrever um livro do ponto de vista das empregadas. Relatando a dura vida de Aibileen (Viola Davis) e Minny (Octavia Spencer) e ainda tentando conseguir mais relatos, Skeeter acaba confrontando Hilly Holbrook (Bryce Dallas Howard), a presidente da liga feminina e sua melhor amiga, que vê as empregadas como meras escravas.

Desde o seu início, Histórias Cruzadas já surge com intenção de emocionar, abraçando cenas forçadas e pouco se importando em criar uma narrativa verossímil, assumindo de vez seu maniqueísmo. Tentando abranger o maior número de dramas (desde violência contra mulheres até problemas familiares, passando por doenças terminais), o longa insiste em criar uma série de subtramas descartáveis, que não conseguem ser suportadas pela falta de uma estrutura narrativa, desaparecendo da história quando é necessário, servindo apenas para engrandecer ainda mais os atos “heróicos” de seus personagens principais quando estes passam longe de o serem.

Com a “morte” dos arcos narrativos, os personagem que surgem acabam tendo a mesma função, apenas alavancar a dura vida da protagonista, tornando seu ato interesseiro e sua vida banal nas  principais qualidades de mulher que, no fundo, pouco se importa com o racismo. A insistência em aumentar a bondade e a maldade de seus personagens acaba transformando todos eles em figuras infantis e tirando o espaço para os atores trabalharem. Apenas Viola Davis consegue entregar uma boa atuação ao dar dimensionalidade a sua personagem superficial, sabotada pela história mal concebida na qual está presa. A atuação de Davis acaba sendo apenas um respiro, uma salvação em meio a bobagens emocionais que surgem cena após cena.

E uma vez que os personagens não acrescentam nada ao filme, o diretor Tate Taylor trata de desaparecer com eles sempre que conveniente, de modo que nenhum deles consegue ser trabalhado com eficiência ou adicionar algo à história, servindo apenas como uma forma de prolongar o desfecho, procurando deixá-lo mais bonito e glorioso do que realmente é. Histórias Cruzadas ainda tenta terminar de forma positiva usando uma narração para passar o clima de que tudo está perfeito – e se antes era apenas um melodrama razoável, ao final acaba se tornando piegas, tamanho é o seu desespero em emocionar.

Acaba sendo irônico o fato de Morgan Freeman ter sido homenageado pelo Globo de Ouro ao mesmo tempo em que Histórias Cruzadas era indicado. Enquanto um contribuiu para a História do cinema, combatendo o racismo na indústria cinematográfica, o outro nada traz de novo além de um disfarce recheado de clichês para esconder sua mensagem preconceituosa

Poltronas 

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