Histórias Cruzadas

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Enviado por Giordano em dom, 02/05/2012 - 23:32

Para um cinéfilo geek que acompanha os filmes desde o início de sua produção, o conteúdo das obras se tornam parte do imaginário dele muito antes de ser assistidos, e querendo ou não, cria-se uma expectativa quase um ano antes desse espectador sequer  ter a chance de vê-lo. Como um representante desse nicho, devo dizer que a estética de The Help (que aqui recebe o péssimo título de Histórias Cruzadas) passou por varias expectativas ao longo da espera por assistir o filme. Fui da empolgação ao ler os nomes que estavam no elenco à mais baixa das expectativas nos minutos antes de entrar na sala de cinema. Cada filme tem a sua curva de expectativa comigo, uns mais constantes, outros são quase uma parábola de função de segundo grau. E fiquei feliz de ter entrado no filme com a expectativa baixa, pois me surpreendi com a maneira como os personagens me conquistaram.

The Help é um “filme de elenco”. Um “filme-de-elenco” é aquele filme em que não importa o quão afinados estejam todos os outros aspectos, desde o roteiro até a mixagem de som, o filme tem uma gama de personagens tão fortes que o time de atores escolhido acaba chamando atenção demais para si como grupo. E me faz todo sentido que um “filme-de-elenco” ganhe o prêmio da guilda de atores, que esse ano fora entregue a The Help. A única opção mais justa seria O Espião que Sabia Demais, mas não consigo discordar do prêmio para esse divertido filme de Tate Taylor. 
 
 
Realmente, as mulheres de The Help nunca deixam de ser tipos. E como já falei em outras críticas, eu não tenho problemas com o estereótipo quando este é bem conduzido. E é o caso. O roteiro não é grande coisa, embora seja eficiente. A maioria das situações são óbvias, e os pontos de virada são bastante marcados. Apela para o melodrama em alguns momentos certos e em alguns momentos pesa a mão, enquanto o humor permanece constante. A artificialidade é assumida no filme. Em vários momentos, a impressão é que estamos vendo Hairspray numa versão sem canções. E a comparação é válida em todos os sentidos: o tipo de humor, os tipos nos personagens, o design de produção quase camp em alguns momentos, o tema do racismo.
 
E sou obrigado a fazer uma relação inevitável, evidente desde o trailer. Um dos melhores trailers da história do cinema é de um filme de temática semelhante, A Cor Púrpura, que pode ser visto aqui, simplesmente por que enfatiza somente a força dos personagens (e que personagens!).  E quando me deparo com o trailer de The Help – Histórias Cruzadas, percebo que tenta evocar isso. E sempre acho louvável quando os personagens se mostram tão fortes. E não! Não estou dizendo DE MANEIRA ALGUMA que esse The Help chegue aos pés da obra prima de Steven Spielberg, mas acho uma comparação válida, sem dúvida.

                                                   

 
Bom, feitas as comparações inevitáveis, vamos ao filme em si. Ao invés de contar a história, como seria de praxe, vou descrever os personagens. Temos Aibeleen, a personagem da indicada ao oscar Viola Davis, uma sofrida e reservada empregada doméstica e uma babá dedicada; Hilly Holbrook (Bryce Dallas Howard), a vilã da história, é uma mulher mimada, uma espécie de desperate que recém se tornou housewife; assim como sra. Leefolt, a patroa de Aibeleen que se importa mais com a visão que Hilly tem de sua vida familiar do que com a própria filha. Aí temos a impetuosa Minny Jackson (da favorita ao oscar Octavia Spencer), que costumava ser a doméstica de Hilly até ser demitida e difamada pela vilã, e que precisa de um emprego rapidamente para sair da violenta vida que leva com seu marido e filha. Outra personagem de destaque é Celia Foote (personagem da atriz que mais trabalhou no ano, Jessica Chastain), uma dona de casa odiada por todas as outras, e que não tem a menor aptidão para as funções domésticas. Yule Mae é a nova doméstica de Hilly, que pretende fazer com que seus filhos entrem na faculdade. Charlotte é uma respeitada senhora que enfrenta uma grave doença e que só quer que sua filha, Skeeter, se case de uma vez. E Constantine era a velha doméstica que criou Skeeter e que saiu da casa em circunstancias misteriosas. E no meio disso tudo, a verdadeira protagonista é claramente Skeeter, ao contrário do que afirmam as campanhas para o oscar ou os veículos de comunicação que concentram tudo na figura de Viola Davis. A Skeeter de Emma Stone é uma wannabe jornalista/escritora, que diferente das outras garotas da sua idade, não está obcecada com a idéia de se casar, e se coloca em situação de risco: em pleno apartheid, se propor a escrever o ponto de vista de domésticas negras sobre suas patroas. 
 

 
Wow, esse parágrafo anterior foi meio grande, mas necessário, pois são os personagens e seus intérpretes que carregam o filme e que o tornam uma experiência divertida. Emma Stone aparece cool como sempre em um personagem não muito desafiador, mas bastante carismático. As lindíssimas Bryce Dallas Howard e Jessica Chastain (minha favorita no elenco, pessoalmente) confundiram vários espectadores devido a sua semelhança física, mas os personagens são opostos e inconfundíveis. Octavia Spencer merece sua indicação ao oscar (o favoritismo já é outro assunto) já que sua Minny Jackson é um personagem muito marcante sem cair totalmente no estereótipo, evitado por algumas pequenas cenas que lhe dão uma profundidade maior, como na cena em que ensina afazeres domésticos para a filha. Todo o elenco esta afinadíssimo, mas é difícil não chamar atenção para a sensacional atuação de Viola Davis. É a atual favorita na disputa do oscar (passando de Meryl Streep e Michelle Williams), mas está na categoria errada, já que ela é coadjuvante em The Help, apesar da primeira e da última cena afirmarem o contrário. No entanto, Aibeleen é o que há de mais interessante e contido no filme, seja nos momentos de drama, ou seja em pequenos sorrisos que a personagem dá. Podemos perceber em cada gesto dócil que faz para seus patrões, muita raiva contida. 
 
Fora o elenco, que realmente é excelente, outro destaque é o design de produção, que como falei antes, quase se aproxima da estética camp, uma estilo artificial ao qual muitos recorrem para retratar os subúrbios dos anos 50 e 60 e que sempre tende ao humor, a começar pelos cabelos das mulheres, figurinos, objetos e atuações exageradas. As várias cores vibrantes do filme ajudam na artificialidade a que o filme se propõe, e que foi tão criticada. E ao mesmo tempo que tem essa opção, o filme também tem referências do período rural escravagista na composição dos ambientes em que se passa a história. 
 
O roteiro do filme realmente tem vários problemas de estrutura. A quebra da linearidade no início, por exemplo, é completamente desnecessária. E o filme perde a mão do melodrama no terceiro ato e acaba apelando para um maniqueísmo que não funciona. Mas fui tão cativado por Skeeter, Aibeleen, Hilly, Minny e Celia que esses problemas não me incomodaram em nenhum momento. E se por mais de duas horas, acreditei, acompanhei e me envolvi com os arcos dos personagens e as situações pelos quais eles passam (ainda que algumas sejam muito bobas), está cumprida a missão do filme.

p.s. - THE HELP, RACISMO E A CRÍTICA

O filme tem sido muito criticado e chamado de “racista” pela benevolência de algumas mulheres brancas no filme e pela artificialidade com que trata os problemas das domésticas, mas eu pessoalmente considero uma visão boba e tendenciosa por parte desses críticos, por mais engraçado que eu ache a brincadeira com o pôster do filme (white people solve racism) ou o apelido que deram (the real housewives of Jackson, Mississipi). E com todo respeito aos críticos que afirmam isso sobre o filme, acho uma besteira sem tamanho acusá-lo disso.

Na verdade, acho quase racista afirmar que um filme é racista só por se tratar de brancos ajudando negros. Considero um comportamento ridículo e defensivo demais por parte da Associação de Historiadoras Afro-Americanas repudiar o filme e o livro (que provavelmente iniciou essa polêmica).  

A estrela do filme, Viola Davis, afirmou ela mesma ter tido preconceito com "The Help" por tratar-se de uma autora branca escrevendo sobre a história das mulheres negras, mas que foi conquistada pela humanidade dos personagens e que percebeu que ela mesma estava sendo racista ao ter esse preconceito.

Sobre esse assunto, estou com esse jornalista - http://www.tnr.com/article/film/93779/the-help-black-racism#

Poltronas 

4

Comentários

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Enviado por Ghuyer em seg, 02/06/2012 - 01:42

De fato, o filme não é racista. Quase longe disso - a palavra chave aqui é o "quase". Em todo caso, pelo menos na minha opinião, um tema tão sério quanto o racismo merecia um tratamento menos.. bobo como o empregado por Histórias Cruzadas. Se o filme tivesse ao menos me envolvido emocionalmente com as "histórias cruzadas" da trama e com os personagens, eu relevaria esse detalhe. Porém, ao contrário do que aconteceu contigo, eu não me vi ligado àquelas mulheres em momento algum. Quero dizer, quando eu estava quase me conectando com a coisa, uma piadinha saltava no roteiro e acabava com tudo. E não estou falando de piadinhas sem graça. O humor de Histórias Cruzadas é muito bom. Isoladamente, talvez seja a melhor coisa do filme. Mas, em conjunto com o restante do longa, acaba diluindo consideravelmente o efeito do drama, que supostamente era proposta do projeto.

Portanto, não demonizo Histórias Cruzadas como muitos têm feito, porém tão pouco o defendo.

Só acho inacreditável (e lamentável) que as pessoas aplaudam um filme como esse - sim, ao final da minha sessão uma velhinha emocionada começou a bater palmas, e logo foi acompanhada por outros pagantes do ingresso sênior.

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Enviado por Giordano em seg, 02/06/2012 - 02:23

Lamentável e Inacreditável é que aplaudir Crepúsculo. Aí já é um problema psicológico em massa. Mas não tem nada de lamentável em pessoas da terceira idade altamente envolvidas com um filme que apesar dos problemas, é... eficiente. 

O problema do filme não é o humor diluir o efeito do drama, o problema é que o drama não é muito bem executado. E não acho que o drama cru fosse a proposta de maneira alguma, como falei... acho que a proposta do filme está mais para Hairspray do que para A Cor Púrpura.

Acho que não tem por que levar a sério demais. 

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