Isto Não é Um Filme

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Enviado por Maza em dom, 03/04/2012 - 00:33

Muito pode se falar sobre o processo de criação, elaboração, execução e outros de um filme: como filmar, qual o roteiro, atuações, cenários, planos a serem utilizados. Mas e quando você é proibido de fazer um filme, o que é de fato um filme e não um filme? O que é apenas um vídeo e o que podemos considerar uma obra elaborada e com determinado propósito? Em Isto Não é Um Filme muito desse dilema é observado em cena. A conclusão poderá variar para cada espectador, mas é inegável o esforço da realização de uma obra, mesmo que isso nem sempre seja mostrado de forma clara ou direta.

No longa observamos inicialmente um plano aberto em uma cozinha. Poucos segundos depois uma pessoa surge e começa a tomar seu café da manhã. O celular toca. Ele fala com alguém, chama-o para ir a uma casa resolver algumas ideias, mas não pede para avisar outras pessoas. Aos poucos, descobrimos que quem está observando em terceira pessoa é Jafar Panahi. Angustiado, teve sentença decretada pelo seu país de que ficará 06 anos em prisão domiciliar, e 20 anos sem o direito de trabalhar. O que vamos observar nos cerca de 75 minutos do longa é isso: um dia na vida do atormentado e angustiado Panahi. Uma pessoa que tem seu ofício proibido, sua vida, sua razão de viver proibida. O que fazer? Jafar Panahi chama seu amigo (Mojtaba Mirtahmasb, nome vagamente citado no terceiro ato da obra) para então documentar seu último roteiro não filmado, o de uma estudante que ganha o direito de entrar na faculdade, mas que é mantida em casa pelo seu pai que não a deixa estudar (inegavelmente, de uma forma ou de outra, algo que Panahi vem sofrendo).

Jafar faz a simulação de como seria seu filme, indicando cada pequeno pedaço de sua casa para a simulação da obra: um carpete é a casa, uma cadeira será uma espécie de janela, uma grande fita amarela no chão delimita tal espaço, pequenos trechos de fitas são as escadas... É impossível não associar tais momentos com Dogville, é como se Lars Von Trier estivesse, em um mundo paralelo, indicando como seus atores deveriam atuar, quais os seus posicionamentos em cena, tudo de forma milimétrica. E incrível como Panahi mostra tudo em detalhes, mesmo sabendo que não será filmado: ao ler o roteiro, ele se transforma em locutor de suas intenções de direito e que lhe foram abnegadas, uma voz ativa e quase isolada em uma situação bizarra, em que o estado político em que vive lhe retira do direito de uma comovente luta de seu trabalho, sua paixão. Tal narrativa e desenvolvimento/leitura de roteiro quando fala a respeito de determinado personagem (uma senhora, de idade já avançada) que está prestes a cometer suicídio: a voz tranca, a reação fica estagnada e o “diretor/roteirista/pessoa qualquer” sai de cena. Pode parecer um exagero para alguns, mas entendo claramente a associação da personagem com a vida atual de Panahi, uma pessoa que sem saber o que fazer trancafiado em casa, isolado da sociedade por um estado ditatorial, praticamente o que lhe resta, viver sem ter motivações, viver mais 20 anos sem ter a certeza que ao final deste período estará com vida, ou ainda lúcido para exercer sua profissão? Talvez a morte seja a mais cruel, mas a mais fácil das soluções.

Se afastando um pouco da ideia de narrar seus roteiros, observamos trechos de obras do diretor, tais como O Espelho, em que observamos uma menina com o braço engessado, sendo filmada em um ônibus, quando de repente ele se revolta e diz que não quer mais filmar. O ônibus para, ela fica na rua sentada, imóvel e o diretor não interrompe a gravação, segue registrando tudo isso. Novamente a relação de sua filmografia com sua vida se misturam e Panahi afirma que precisa parar com a forma dos registros, que se sente acuado, falso, precisa quebrar o gesso, se libertar. E a partir dali observamos o diretor muito mais seguro, pouco se importando com as consequências que suas palavras poderão gerar. Palavras estas, que invariavelmente caem sobre a política do Irã.

Já que citei a política do Irã, fica notória a indignação, uma até então revolta silenciosa que Jafar Panahi enfrenta com toda a situação. Observamos uma interlocutora falando com ele e dizendo: a sentença dificilmente será anulada, você sabe como as coisas funcionam aqui, isso não é uma questão legal, é uma questão política. Em outro momento, observamos sua ironia com sua condição atual, na qual ele cita: 20 anos sem atuar, roteirizar, dirigir, sem nada... ”Deus seja louvado”. Aos poucos os registros tomam o formato de algo extremamente pessoal, de como essa pessoa consegue viver e tentar se impor a uma decisão de um estado opressor como o Iraniano. Tais registros aleatórios inicialmente estão por virar um filme... Mas seria de fato um filme?

Por mais que o próprio diretor não admita em nenhum momento, tudo foi pensado para ser um filme sobre a liberdade de expressão, sobre a tristeza de um ser humano trancafiado em sua própria morada e impedido de suas obrigações trabalhistas por assim dizer, de sua rotina, de seu prazer que é fazer cinema. Mas, se fossem apenas registros documentados, por que desde o início do longa observamos que todas, TODAS as conversas (por aparelhos de comunicação) de Jafar, seja via fax ou ainda celular, todas elas são feitas através de viva voz? A meu ver fica nítida a intenção de a plateia interagir com maior facilidade com o diretor e sua desilusão, angústias e outros sinônimos. Entretanto, mesmo que a decisão tenha sua razão, isso acaba enfraquecendo nitidamente a ideia inicial do foco em Jafar Panahi.  O que dizer então dos pequenos cortes em seu terceiro ato, que deixam claro que os vídeos, as tentativas eos registros deixam de ter um registro meramente informal e até documental, para de fato se tornarem um esboço de um filme? Mesmo que de certa forma Jafar e Mojtaba Mirtahmasb se defendam, e depois falem que tudo isso poderá ser utilizado justamente em um processo de montagem, que o “importante é documentar tudo”, tais situações, mesmo que sejam assim justificadas, diminuem o impacto, enfraquecem o caráter dramático e de sufoco do cineasta.

Mesmo com algumas falhas, a tentativa de Jafar Panahi é fundamental e necessária para o mundo conhecer ainda mais a situação absurda em que vários cineastas e profissionais da área sofrem no Irã. Finalizando a obra com uma cena filmada pelo próprio diretor com praticamente ausência de iluminação (denotando assim uma ótima pista-recompensa solta no início da obra), Isto Não é Um Filme é mais do que uma tentativa de registros aleatórios, de pequenos vídeos documentais ou até de fato um filme, contrariando o irônico título da obra (um tapa na cara do estado ditatorial Iraniano). Isto Não é Um Filme caracteriza-se assim em um ótimo exercício de um personagem real em um mundo ficcional (ou seria um personagem de ficção em um mundo real? Ou ainda, uma pessoa real e comum, tal qual como outra qualquer, em um mundo cruel e sem esperança, como todos nós vivemos). Acima de tudo o registroem películaé principalmente uma obra de libertação, de soltura, um grito em meio a um silêncio eloquente. É a liberdade de expressão em meio a uma jaula solitária de uma morada. Isto Não é Um Filme é, enfim, um filme de um apaixonado por cinema com várias camadas, que mostra um cidadão até então anônimo, no começo da obra, se revelando aos poucos como roteirista, montador, cinegrafista e finalizando como diretor. Jafar Panahi e seu cinema precisam ser descobertos ou, dependendo do ponto de vista, redescobertos. E o que o diretor faz aqui é algo único: mesmo com suas falhas, é o direito de exprimir suas visões, suas opiniões através da película. E sem isso, é possível que talvez a solução seja mesmo o destino daquela velhinha: o fim da vida.

Poltronas 

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