Jogos Vorazes

imagem de Paula
Enviado por Paula em seg, 04/23/2012 - 01:24

Em meio à minha empolgação para a estreia de Jogos Vorazes no cinema, eu só tinha dois medos. O primeiro era que a censura (PG13) impedisse que o filme mostrasse a violência necessária para contar a história, e o segundo era como os roteiristas iriam expandir a mesma, já que, como, o livro é narrado em primeira pessoa, o filme certamente precisaria seguir outro caminho. Eu temia que parte do charme da história se perdesse sem o diálogo interno com a protagonista, considerando que o que me fisgou durante a leitura foi acompanhar a história sob a ótica da Katniss. O que eu não esperava era sair do cinema com a sensação de ter visto um filme sem emoção.

Se você conseguiu ignorar todo o hype em torno de Jogos Vorazes e não faz ideia da história do filme, parabéns! Resumindo: das ruínas da América do Norte surgiu Panem, formado pela sua rica Capital e pelos 12 distritos sob seu total e rigoroso controle. Como prova do poder da Capital, todo o ano cada um dos distritos precisa mandar dois jovens como tributos – um menino e uma menina – para participarem dos Jogos Vorazes dos quais somente um tributo sai vivo e vitorioso.

Jogos Vorazes não é um filme ruim. A adaptação acerta em vários pontos, começando pela forma como a violência foi é tratada. Obviamente que o filme não é nem de perto tão violento quanto o livro, mas quem leu sabe que um filme que tem como alvo um público jovem precisava fazer concessões nesse quesito. Ainda assim, o filme consegue lidar bem com as mortes na arena – principalmente no massacre inicial – ilustrando a crueldade dos Jogos Vorazes para o expectador.

Outro grande acerto foi o elenco. Jennifer Lawrence convence mais uma vez como a jovem que precisa tomar a frente da família após a perda do pai (lembrem de Inverno da Alma). A história pode não ser narrada pela Katniss como nos livros, mas em muitos momentos só a expressão de Lawrence já passava exatamente o que a personagem estava pensando, sem precisar de qualquer narração. Li algumas reclamações quanto ao Haymitch do Woody Harrelson, e eu concordo que ele não é exatamente o personagem do livro (no filme ele é mais simpático), mas são dele alguns dos momentos mais divertidos do longa. Gostei bastante também do Donald Sutherland como presidente Snow, do Stanley Tucci de cabelo azul, e juro que esqueci completamente durante o filme que a atriz por trás de toda a maquiagem e peruca da Effie era a Elizabeth Banks.

As cenas que mostraram as tramas paralelas à história da Katniss – que não fazem parte do livro – funcionaram muito bem em sua maioria. É interessante ver os bastidores dos jogos, a ideia de que o Haymitch sugeriu a possibilidade de dois vencedores foi muito legal, por exemplo, e se encaixa perfeitamente dentro da história. A solução de explicar pontos importantes da trama usando a própria transmissão dos jogos foi excelente, e os bilhetes do Haymitch para Katniss – no livro ela advinha as mensagens pelos presentes que recebe – foi outra ótima ideia. Minhas únicas reclamações de fã chata são o conceito de cães brotarem do chão e a revolta no distrito 11. A ideia de os controladores do jogo poderem materializar qualquer coisa na arena nunca é explicada, e passa uma ideia de que o que acontece nos jogos não é real, o que não é nada interessante para a história. Quanto à revolta no distrito 11, o problema é que ela entra na trama do livro seguinte de forma superficial e apressada. Os distritos assistem a seus tributos morrerem nos jogos ano após ano, e continuam sob o domínio da Capital. O povo está acostumado e conformado em perder seus jovens. É preciso mais do que  “mais uma morte” para causar uma rebelião.

Mas o meu maior problema com a adaptação é mesmo a superficialidade com que a trama é tratada.  Jogos Vorazes não é um filme ruim, mas é um filme nada memorável, não fosse este o primeiro capítulo de uma promissora franquia, creio que ninguém se lembraria de Katniss e Cia. depois de alguns poucos meses. Falta emoção, os conflitos são resolvidos às pressas, e muito facilmente. Nos livros, os momentos na arena são dramáticos, a Katniss e o Peeta ficam entre a vida e a morte várias vezes.  No começo dos jogos, por exemplo, a Katniss quase morre de sede antes de encontrar uma fonte de água; no filme, ela dá dois passos e tropeça naquela poça. E nada sofreu tanto dessa falta de emoção quanto a cena final.

O parágrafo abaixo contém spoilers, então se você ainda não viu Jogos Vorazes e não quer saber como o filme termina, pule para o parágrafo seguinte (e vá ver Jogos Vorazes no cinema).

A impressão que tive foi que o clímax do filme durou 15 minutos. Faltou urgência, faltou drama. E como se não bastasse o final quase sem emoção, Katniss sugerir a tentativa de suicídio no final não faz o menor sentido no cenário do filme. É muito simples, quando é anunciado que a mudança de regra era uma pegadinha e que de fato só um tributo sairia vencedor, a primeira reação tanto de Katniss quanto de Peeta é largar as armas e se recusar a lutar. Não vou entrar em detalhes, mas no livro ‘ficar parado e esperar para ver o que acontece’ não é uma opção. A tentativa de suicídio só faz sentido como o último recurso, como uma tentativa desesperada de desafiar a Capital quando não existe nenhuma outra opção. No filme, para desafiarem a Capital, Katniss e Peeta só precisam sentar, esperar e continuar vivos.  Acho muito forçada a decisão dela de pegar as frutas em menos de 5 minutos depois da notícia da troca de regras.

Antes que alguém reclame que fiquei comparando o filme com o livro e que ambos são coisas diferentes, ou que o livro sempre vai ser melhor, vou me defender. Primeiro, não acredito que o livro seja sempre melhor, afinal é tudo uma questão de como cada mídia vai contar a história – existem filmes melhores do que os livros que os inspiraram. O que me leva ao segundo ponto, eu não estou criticando as mudanças que o filme fez em relação à obra em que se baseia, de forma alguma. Mudar é necessário. Talvez o grande problema do longa seja tentar manter o máximo de fidelidade à obra ao mesmo tempo em que precisa mudar alguns detalhes por questão de tempo. Se o roteiro tivesse se comprometido com alterações maiores, mas de modo a explorar os temas da história de forma criativa, quem sabe o resultado fosse melhor. O irônico é pensar que o livro que me empolgou tanto me fazendo devorar toda a trilogia em menos de uma semana, tenha se transformado em um filme que, não fosse eu fã dos personagens e da história, já estaria no meu limbo de filmes esquecíveis.  

 

 

 

Poltronas 

3

Comentar

Plain text

  • No HTML tags allowed.
  • Endereços de páginas de internet e emails viram links automaticamente.
  • Quebras de linhas e parágrafos são feitos automaticamente.
CAPTCHA
Esse desafio é para nos certificar que você é um visitante humano e serve para evitar que envios sejam realizados por scripts automatizados de SPAM.
CAPTCHA de imagem
Digite o texto exibido na imagem.