Jurassic World: O Mundo dos Dinossauros

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Enviado por Julia em qui, 06/11/2015 - 13:37

Dinossauros. 

Nos anos 90, após a estreia do fantástico Jurassic Park: Parque dos Dinossauros (mais especificamente em 1993), um novo universo foi criado. Nele, dinos foram “retirados” da extinção para conviver com os humanos, resultando em consequências, no mínimo, desastrosas. A produção foi feita com efeitos especiais revolucionários para a época, somando digital e animatrônicos, que causaram uma febre. Jogos, brinquedos, filmes, roupas e outros produtos foram produzidos a partir do efeito Jurassic Park. Sim, os dinos tomaram a indústria cultural.

Vinte e dois anos após o lançamento do primeiro filme, que teve mais duas sequências (o irregular Mundo Perdido: Jurassic Park, em 1997 e o bobo Jurassic Park III, em 2001), o assunto podia estar esgotado. Mas Jurassic World: O Mundo dos Dinossauros se apresenta como uma boa sequência, que renova o tema e traz a emoção do primeiro filme associada com o avanço tecnológico das duas últimas décadas. O Parque, que mostrava um CD-ROM interativo como grande novidade na década de 90, agora surge com um visual de cidade do futuro, ainda que realista, localizado na mesma Ilha do primeiro longa. Trens muito velozes, alumínio invisível, hologramas perfeitos e outras novidades aparecem em cada canto, onde a voz de John Hammond dizendo “não poupei despesas” parece ecoar. Porém, se o primeiro Parque – que o filme faz questão de citar como uma espécie de marca dolorosa na história local, já que pessoas morreram nos eventos do primeiro longa – era voltado para agradar o público acima de tudo, o segundo é declaradamente um negócio. Empresas investem e patrocinam atrações e os administradores precisam manter o índice de visitantes alto, custe o que custar. Os dinossauros assumem, perante os olhos dos gestores, o papel de peças valiosas, que diferem do modo tão amoroso que John Hammond – que estava presente até no nascimento dos dinos – olhava para os protagonistas de seu parque. Os dinossauros, inclusive, já não são vistos como uma novidade.

A partir daí, surge a necessidade de criar uma nova atração para aumentar o público, mesmo que o parque possua mais de 20 mil visitantes diários. Assim, um terrível e gigantesco dinossauro geneticamente modificado entra em cena, o Indominus Rex. Se nos outros filmes temos dinossauros clássicos como ameaças – em especial o T-Rex e os Raptors – em Jurassic World: O Mundo dos Dinossauros a experiência de duas décadas parece ter colocado-os em harmonia (entre si e com as pessoas no geral), além da experiência adquirida no trato com os animais. A questão mais assustadora do filme está ligada com aquilo que os seres humanos tiraram do estado natural ao modificar geneticamente o animal no laboratório. Nem o preciosismo científico foi totalmente eficaz, trazendo efeitos colaterais inesperados no processo de criação. Já aqui, parece que ouvimos a voz de Jeff Goldblum, no papel do Dr. Ian Malcom alegando que “a vida encontra um caminho”.

Referências – especialmente ao primeiro filme – não faltam. Além do antigo parque ser citado como um tabu, ainda temos a chance de visitar as ruínas do local e encontrar objetos clássicos da produção de 1993. Vemos a faixa que cai durante o duelo final com os dinos, os óculos de visão noturna que Tim Murphy experimenta, e os jipes que integram uma das cenas mais tensas dos filmes: o primeiro enfrentamento com o T-Rex durante a tempestade. Um dos técnicos do atual parque também veste a camiseta com o logotipo antigo, contando que pagou caríssimo no eBay, mostrando a nostalgia do antigo parque dentro do próprio universo da franquia.

No geral, há quase uma renovação total do casting. Chris Pratt é Owen, um treinador de Velociraptors. Mostrando-se versátil, Pratt não reproduziu seu Starlord de Guardiões de Galáxia (como muitos temiam). O herói é carismático, bem humorado e está sempre usando cores voltadas para o verde e o marrom (como a natureza). Ao lidar com os dinos, ele se mostra confortável, adaptado e seguro, como se aquele também fosse o seu ambiente natural. As atuações de Ty Simpkins e Nick Robinson (Gray e Zach, respectivamente) são razoáveis, mas diferentes do padrão de crianças independentes e decididas que estávamos acostumados a ver nos filmes da franquia. Já o amigo de Owen, Barry (Omar Sy) é essencial por ser o principal apoio do protagonista com os Raptors. E BD Wong volta como Dr. Henry Wu, o mesmo responsável pelo laboratório de embriões do primeiro filme.

E o destaque é Claire, a doce workaholic interpretada por Bryce Dallas Howard. Responsável, metódica, asséptica e sempre de branco, a administradora do Parque é quase o oposto de seu ambiente de trabalho. O filme peca ao reproduzir algumas breguices (spoiler: ela e Owen já tiveram um encontro românticozzzzz e estão sempre em conflitozzzzz) na dinâmica entre os dois protagonistas, mas Claire se mostra uma mulher profissionalmente respeitada, decidida e independente da ajuda masculina. Porém, diferente de Jurassic Park: Parque dos Dinossauros (onde Ellie e Lex salvam o dia religando a energia e usando seus conhecimentos sobre tecnologia) e em Mundo Perdido: Jurassic Park (na cena em que Sarah finalmente doma o T-Rex) em Jurassic World, a protagonista fica em designações secundárias durante determinadas situações nos dois primeiros atos, como, por exemplo, cuidar dos sobrinhos ao invés de participar do combate. Aliás, ela nem gosta de dinos, inicialmente. E como ela é a única mulher entre o grupo principal que mais interage com animais, “curtir dinossauros” fica restrito ao clube dos meninos até que ela, devido ao convívio com Owen, começa a se interessar pelo estilo de vida dos animais que habitam a Ilha.

Há também o envolvimento de um grupo paramilitar na ilha. Porém, por mais que tais questões desemboquem em eventos importantes, eles parecem estar sempre deslocados do real problema (o dinossauro geneticamente modificado), atuando nas bordas do longa sem integração com o que acontece ali. O suposto divórcio dos pais de Gray e Zach, que é apenas rapidamente mencionado, também não tem função nenhuma na narrativa além de justificar os ataques de choro da mãe dos garotos, Karen (Judy Greer).

Os dinossauros de Jurassic World protagonizam cenas fantásticas, mas há mais violência, sem dúvida. Relações entre humano e dinossauro e entre os dinossauros em si chocam o espectador. A cena entre Owen, Claire e os aeolossauros é digna de lágrimas, assim como a “hora do almoço” do dinossauro aquático, que se alimenta de um tubarão – um animal já assustador na nossa realidade. Com o Parque famoso há dez anos, os cientistas puderam desenvolver diversas espécies, que são reconstruídos de forma belíssima a partir de efeitos impecáveis.

A direção de Colin Trevorrow – iniciante na franquia – é certeira justamente por conseguir inserir novidades de forma orgânica sem arruinar um universo já concebido há vinte anos (e adorado pelos fãs). A trilha clássica também está no longa e emociona ao ser executada especialmente nas tomadas abertas, onde vemos a imensidão e beleza da ilha que abriga os dinos. O final apresenta problemas por cair em uma obviedade que tenta evitar durante o próprio terceiro ato, mas não chega a comprometer a obra como um todo.

Jurassic World: O Mundo dos Dinossauros é uma agradável continuação que certamente acrescenta (bons) elementos às histórias, apesar de passar longe de ser impecável. E se Claire, em certo momento, justifica a criação do terrível Indominus Rex alegando que “ninguém se impressiona com dinossauros hoje em dia”, ela precisaria admitir que o novo longa veio para desmentir a ideia.

Poltronas 

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