Kurt Cobain: Montage of Heck

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Enviado por Felipe em qua, 06/24/2015 - 00:44

A primeira vez que eu realmente ouvi Nirvana foi com 12 anos de idade. Claro que eu já conhecia, mas acredito que nunca tinha prestado atenção de verdade. “You Know You’re Right”, música até então inédita, tinha sido lançada numa coletânea da banda. Eu assisti ao videoclipe na MTV e vi aquelas imagens caóticas de um cara se jogando pelo palco, por quartos de hotéis, tocando, pulando e destruindo instrumentos. Eu acho que, até aquele momento, nunca tinha sido muito consciente do quanto a música era importante pra mim (nessa época eu ainda não pensava em fazer cinema, achava que queria ser ator...). O clipe se repetia na programação do canal e eu parava tudo que estava fazendo para assistir. No verão, enquanto passava uma quinzena (ou mais) na praia de Oasis do Sul, resolvi percorrer as barraquinhas dos camelôs no centrinho. A grande maioria dos CDs era de bandas do momento ou mix de axé que eram os “hits” daquele verão específico. Para minha surpresa, acabei encontrando essa recém-lançada coletânea do Nirvana com sua capa preta e com o nome da banda em letras brancas numa impressão bem vagabunda e claramente feita em casa. Comprei na hora. A partir daí, a música de Kurt, Krist e Dave (e Chad...) passou a me acompanhar.

                     

Conheci Nirvana no melhor e pior momento possível. Melhor, pois fiz amizades naquele ano que tinham entre um dos principais assuntos de discussão a banda e, claro, foram se espalhando para outros interesses e outros tipos de músicas que íamos apresentando uns aos outros. Pior, pois foi bem em um ano onde muita coisa começou a desmoronar naquilo que eu conhecia como família e lar. Meus pais acabaram se separando. Para um guri que passava mais tempo com os filmes do que com as pessoas, esse, acho, foi o primeiro grande baque que tive na vida. Não que eu tenha feito um grande caso sobre o assunto. Foi a partir disso que pude compreender melhor a obra de Kurt Cobain, daquelas músicas que eu ouvia repetidamente. As coisas deixaram de ser tão preto no branco e passaram a ter mais e mais camadas. Eu comecei a perceber que as pessoas sofrem de verdade e pelos motivos mais variados possíveis. E falo disso como um observador do mundo ao meu redor naquele momento.

Cobain era pesado. Seu som era pesado. Mas seu jeito dócil tentava mascarar o peso (as pessoas geralmente fazem isso, não?). É possível perceber analisando as letras das músicas desde o primeiro álbum “Bleach” até “In Utero”, um sentimento de inadequação com tudo e todos. E assistindo ao documentário “Kurt Cobain: Montage of Heck” isso fica extremamente explícito. Trazendo animações, páginas de diário, gravações em fitas cassete do próprio Cobain e vídeos caseiros de sua família e de sua esposa, o filme é, talvez, o mais próximo que nós fãs podemos chegar de quem realmente foi Kurt Donald Cobain. E o porquê de o admirarmos além de sua música.

                      

Muito além do ícone que me foi apresentado, Nirvana foi a banda que realmente me introduziu a música. Acredito que todos nós temos uma, aquela banda que desperta os nossos gostos e deixa mais claro pra nós qual o terreno musical em que vamos caminhar mais tranquilamente e com mais gosto. Nirvana hoje não é mais o meu conjunto favorito. Já foi. É um dos. E sempre vou ter um carinho muito especial por eles, mas acabei realmente me casando com os Rolling Stones.

O documentário de Brett Morgen (diretor de “Crossfire Hurricane”) peca por sua longa duração e por trazer intervenções visuais acompanhadas de músicas que, ou se repetem demais, ou se estendem por mais do que deveriam. Com um ritmo um tanto quanto incerto, “Montage of Heck” poderia também trazer mais algumas informações sobre a banda, ao invés de se focar apenas na relação de Courtney e Kurt que, apesar de ser um dos pontos altos do longa (junto à narração em off feita pelo próprio Kurt em que ele fala sobre si na juventude), é um tema que também se alonga um pouco demais. Vemos muito rapidamente as gravações de “In Utero” (e é sabido que o disco tem várias histórias bacanas de sua época de produção), há um breve aceno para “Incesticide” e pouco se fala sobre o MTV Unplugged gravado pouco antes da morte de Cobain. Mas o maior pecado do filme, a meu ver, é nos privar da repercussão da morte de Kurt. Eu entendo que o diretor tinha em mente celebrar o homem e não o mito, mas no caso de Kurt Cobain sua morte é tão importante quando a sua vida. Tendo flertado com a possibilidade do suicídio desde sempre (algo presente em suas letras e em suas anotações), a morte de Cobain foi um golpe fortíssimo não só para aqueles que acompanhavam a banda na época, mas para sua família e seus amigos (Krist Novoselic, o baixista da banda e um dos fundadores, parece estar sempre prestes a chorar em sua entrevista). É possível notar também que o diretor arranja formas de contradizer os depoimentos de seus entrevistados ao colocar áudios do próprio músico logo após as entrevistas. A sensação que fica é que Cobain ainda tem a última palavra ou, até mesmo, o poder de nos fazer duvidar daquilo que seus parentes dizem (e realmente acho que algumas pessoas estivessem mentindo/omitindo sobre alguns fatos em suas entrevistas). Por tudo isso, o filme seria mais completo ainda se tivéssemos ideia da dimensão e da comoção que foi a morte do líder da banda em seu auge no que ele mesmo narra no documentário como “uma história clássica do rock and roll”, algo que ele sentia que era esperado dele pelas pessoas.

                       

Ao final de “Kurt Cobain: Montage of Heck” o que ficou muito claro pra mim é que Nirvana se tornou especial não pela imagem que me venderam, mas por Kurt ser uma figura tão humana e tão identificável. Esse ser humano que, além das entrevistas (que ele odiava participar) ou das revistas/pôsteres que eu comprava nas bancas, eu nunca havia tido a oportunidade de vislumbrar, a não ser por suas composições. Eu e a grande maioria dos fãs da banda sempre fomos obrigados a construir Kurt Cobain por recortes de informações para conseguir enxergar além do “astro do rock”.

“Montage of Heck” é doloroso por ser real. É difícil ver alguém que você admira se afundando e visivelmente em mau estado. É difícil encarar a realidade dos nossos ídolos. Essa realidade de que, assim como a gente, eles são humanos. Humanos mistificados, mas humanos.

 

Poltronas 

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