O Palhaço

imagem de Giordano
Enviado por Giordano em sab, 10/29/2011 - 08:02

Esse texto foi originalmente publicado no especial do Festival de Gramado de 2011. As citações e paráfrases utilizadas são de entrevistas cedidas na Coletiva de Imprensa do filme, da qual tive a honra de participar.

Em seu segundo longa, Selton Mello deixa de lado o ambiente urbano do triste "Feliz Natal", mas não abandona a melancolia e o tema da busca da identidade, mas transporta essas reflexões para um outro ambiente - o lúdico ambiente do circo. E de fato, o filme nada mais é que o tratamento lúdico e determinista de uma crise de identidade. O circo brasileiro aqui retratado não é o circo glamouroso de um Água Para Elefantes, mas um elogio do circo mambembe, o circo tradicional que nós não mais temos, um encantamento (palavra que o ator Jackson Antunes usou várias vezes para se referir ao filme), através do qual conhecemos esse mundo, esse cotidiano. Mas Selton Mello não deseja fazer um filme cujo tema central é o circo em si, mas sim, um de seus integrantes , o jovem palhaço Benjamim (o próprio ator Selton), que aos poucos começa a crer que perdeu a graça.

Os desejos de Benjamim, a princípio, são simples. Ele pensa que talvez goste de um emprego comum, de um endereço fixo e da possibilidade de comprar um ventilador em várias parcelas. Mas não pode fazê-lo sem carteira de Identidade, CPF e comprovante de residência. No entanto, ele deve lutar contra algo maior, o determinismo do meio (conceito positivista de Taine, livre relação que eu faço aqui). O personagem de Jackson Antunes condena, com leveza, "as pessoas devem fazer o que sabem fazer, o rato come queijo, o gato bebe leite". O personagem do veterano Paulo José conclui logo em seguida, "Eu sou palhaço...". E quanto a Benjamim? Estaria ele condenado a ser palhaço, uma vez que tem esse inegável talento de entreter o público? A resposta talvez esteja no tão ambicionado ventilador, que garante alguns dos momentos mais líricos do filme. Selton Mello, ao ser questionado sobre o significado desse elemento, responde com humor "Deus me livre de explicar o ventilador!", uma vez que permite várias leituras. Mas uma leitura, uma das mais óbvias, o que talvez seja o motivo pelo qual se aproximaria da verdade num filme como esse, é a questão daquilo que é cíclico. O círculo, o giro, é a forma que melhor representa um retorno constante. O ventilador, um dos símbolos do cinema Noir (filmes policiais deterministas dos anos 40), representa constantemente esse eterno retorno do filho pródigo. O filme, tanto em tema quanto na estrutura da jornada do personagem, me lembra o recente Amor sem Escalas e o desenho O Estranho Mundo de Jack, que também consistem em personagens tentando divorciar-se daquilo para o qual tem talento, e sendo derrubados pelo determinado.

Falei, no parágrafo anterior, sobre obviedade. Uma crítica constante que ouvi de algumas pessoas do meio aqui em Gramado em relação a esse filme é sobre esse esquematismo do roteiro. É esquemático? É. Previsível, talvez? Sim. Mas a verdade é que não é nada disso que interessa. Ao assistir um espetáculo circense, o espectador sabe que os motoqueiros do Globo da Morte não vão se ferir, ou que os trapezistas não vão cair, e assim por diante (ou assim se espera). E Cinema, como Paulo José afirma, "parece circo". O veterano ator estava se referindo aos aspectos de produção do filme, mas também podemos transferir isso para a posição de espectador. O que surpreende é a maneira como acontece dentro desse esquema. Selton, em auto-elogio ao roteiro, que escreveu junto com Marcelo Vindicatto, diz "o roteiro é simples, mas é refinado". Paulo José defende o roteiro afirmando "Não é explicativo. É sutil. Mostra as consequencias sem necessariamente explicitar as causas. Não subestima a inteligência do espectador".

É claro que a equipe e produção do filme defenderam, com orgulho e belas palavras, o filho que acabaram de largar ao mundo. Mas diferente dos médicos que dizem para todas as mães que seu recém nascido é lindo sem ao menos olhar bem para a criança, consigo perceber todos os auto-elogios da equipe dentro do filme, e percebe-se, tanto assistindo ao filme quanto durante o festival, a coesão dessa equipe. Selton Mello afirma mais de uma vez "Eu amo meus atores!", e essas atuações talvez, são tão marcantes no filme, por terem sidas dirigidas por um ator, que compreende o ofício, e que agora experimenta o outro lado. Paulo José é o palhaço-pai, e dono do circo, a austeridade de seu personagem é equilibrada por alguns pontos pontuais de ternura, com seu palhaço-filho Benjamim, e o roteiro (juntamente com as atuações de Paulo e Selton) constrói uma relação pai-e-filho absolutamente crível, e sensitiva, ainda que não tenhamos conhecimento do passado desses personagens. O resto da trupe tem seus personagens tipificados, mas sem cair no estereótipo bobo, temos o desajeitado magrelo que identifica-se com a pintura de uma cabra, temos a senhora na busca por um sutiã que contemple o tamanho de seus seios, entre outras figuras caricatas e fascinantes em suas pequenas subtramas. O destaque, no entanto, é a menina Guilhermina, que como Benjamin, está lá desde seu nascimento e ainda não conhece outro universo, e ela, junto a câmera de Selton, são os responsáveis pelo tocante  e lindíssimo plano-sequencia que encerra o filme. A garota é interpretada pela pequena Larissa Manoela, que tem carreira na televisão e estréia agora no musical "As Bruxas de Eastwick", e que soltou a voz na coletiva de imprensa, mostrando o começo de um de seus vários solos na peça.

Outro ponto interessante é a quantidade de participações especiais que o filme traz, mas em sua maioria, não são apenas participações de luxo, mas personagens de significância narrativa para a história. É o caso do já citado Jackson Antunes, que em um papel pequeno, traz uma significância para o diálogo-chave da história. Jackson, ele mesmo oriundo do circo mineiro, refletiu na coletiva de imprensa sobre essa volta da simplicidade que Selton propõe no filme. O ex menino-prodigio Ferrugem surge em uma hilária e curta participação. Ferrugem, na coletiva, esbanja simpatia (ainda que sem revelar sua idade) ao comentar sua sensação no filme "O cinema sempre foi um flerte. E trazer isso tudo junto com o circo e misturar com a minha carreira e Gramado, que sempre foi muito especial para mim por que eu fui garoto-propaganda da Ortopé". Selton, ainda dentro do assunto da participação de Ferrugem, diz "O Brasil é muito cruel, cria rótulos, e eu gosto de acabar com esses rótulos. São atores lindos, que não recebem o valor devido". Ele resgata ainda os humoristas Fabiana Karla (Zorra Total), Jorge Loredo e Moacyr Franco (A Praça é Nossa) e Tonico Pereira (A Grande Família), em papéis que fogem ao estereótipo que construíram, a exceção, talvez de Tonico, que surge em um papel semelhante ao que está acostumado a mostrar na televisão, em uma das cenas mais hilariantes do filme.

Dividi os parágrafos assim, entre roteiro e atuações apenas por uma questão de auto-organização, mas na verdade, a maior qualidade do filme (e de Selton como diretor) é a unificação desses aspectos, criando uma interação forte entre roteiro, atores e construção imagética. O humor do filme, por exemplo, não está em apenas um desses aspectos, mas na soma dos três, principalmente nos enquadramentos frontais que Selton Mello utiliza, e que trazem as risadas ou a melancolia mesmo sem uma única palavra ter sido proferida (o que lembra o cinema de Wes Anderson). A cenografia é construída de tal maneira que é impossível imaginar aqueles personagens em qualquer outro ambiente, que não o seu acampamento. Tanto é que quando os personagens visitam um outro ambiente, causa uma estranheza e uma desfamiliaridade ímpar no filme, pois a maior parte de ação ocorre ao redor do circo, seja na estrada ou no acampamento. O mistério e o lirismo causado no plano de abertura do filme, ou no plano que precede a participação de Jackson Antunes, com os carros do circo se aproximando são, novamente parafraseando Jackson, como um encantamento por aquele mundo. E também a capacidade do filme de ir do coletivo, do grupo, que sempre"enterra o morto" junto (entenderão quando assistirem ao filme, ou caso trabalhem com circo, o que não é meu caso), ao indivíduo, Benjamin, de maneira orgânica. Enfim, por mais antiquado e impreciso que seja o termo, "O Palhaço" é um filme autoral sim, mas também altamente acessível, entretenimento refinado e surpreendentemente simples. E pelos depoimentos da equipe, não há como negar que Selton agiu como o maestro de uma orquestra, ainda que fosse, ao mesmo tempo, o solista, e desempenhando ambas as funções com a mesma paixão, e com o mesmo talento. Falta paixão nos cineastas brasileiros. Já aprendemos com Spielberg, Scorsese, Tarantino e Tim Burton que um cineasta, antes de ser diretor, tem que ser fã de cinema. Selton é, e deixa claro isso nesse belíssimo filme.

Poltronas 

5

Comentários

imagem de Diego Ferreira Costa

Enviado por Diego Ferreira Costa (não verificado) em ter, 11/15/2011 - 01:03

Assisti o filme e realmente fiquei com a sensação de que podem existir várias interpretações para cada elemento do mesmo, o ventilador no meu modo de pensar soou como a roda da vida, que sempre passamos por fases e queremos aproveitá-las, no entando fixa a idéia de que o bom filho sempre retorna para as suas origens. O filme tem uma proposta interessante e bem elaborada com bons atores e narrativas simples porém com interpretações aleatórias; o que somente deixou a desejar foi a classificação etária, afinal como uma criança de 10 anos interpretaria o mesmo, como não se propõe a fazer o público dar risadas fica claro que os pequeninos somente se decepcionarão ao vê-lo.

imagem de Paula

Enviado por Paula (não verificado) em ter, 02/21/2012 - 08:54

Assisti ao filme e achei simplesmente maravilhoso. Ao meu ver o ventilador tem um significado simples e filosófico. O Filme se baseia em um Palhaço que vive se questionando o motivo dele sempre fazer com que as pessoas riam e até então não ter encontrado alguém que o faça rir, alguém que o faça feliz. Ai entra o tal VENTILADOR. Quando você lança algo no ventilador, o que acontece? Tudo volta pra você... Nesse caso o ventilador serviria pra ele perceber que tudo que fazemos seja de bom ou ruim volta pra gente mesmo. Ele faz com que as pessoas riam e no final do filme ele descobre que fazer as pessoas felizes é o que realmente o faz feliz. É essa a visão que eu tenho do ventilador... Beijos

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